Flamengo vê Braz como 'vítima' do caso de agressão e dá respaldo para vice seguir como homem forte do clube

Na política, porém, situação é mais complicada; deputada Dani Monteiro pediu cassação de seu mandato como vereador do Rio

Por GABRIEL MANSUR

Marcos Braz

A agressão de Marcos Braz contra um torcedor do Flamengo, identificado como Leandro Campos da Silveira Gonçalves Júnior, foi consequência de uma "ação premeditada" provocada por integrantes de uma torcida organizada do time. Essa é a posição oficial do presidente Rodolfo Landim e toda a diretoria rubro-negra, que não apenas defenderam o vice de futebol, como o trataram como a 'vítima' do episódio.

Na saída da 16ª Delegacia de Polícia do Rio de Janeiro, na Barra da Tijuca, a fim de acompanhar o caso, vice-geral e do departamento jurídico do clube, Rodrigo Dunshee de Abranches, afirmou que Braz foi 'envolvido numa perseguição' e que a 'polícia vai correr atrás dessas pessoas (em relação à organizada Torcida Jovem). Ele estava acompanhado do diretor de relações externas, Cacau Cotta, e de outros conselheiros.

"O Marcos Braz foi envolvido numa perseguição, coisa premeditada. (...) O Marcos Braz estava com a filha dele, uma situação totalmente constrangedora, foi ameaçada a vida dele na frente da filha, e ele tomou uma reação. Ele é a vítima nessa história, ele vai correr atrás dessas pessoas, a polícia vai correr atrás dessas pessoas. Para mim, esse tipo de coisa, ameaça, perseguição, não pode acontecer, isso é crime - afirmou Dunshee.

O torcedor disse no depoimento à polícia que Marcos Braz o mordeu na virilha. Já o dirigente alega que tomou um soco que cortou o nariz. Ambos foram encaminhados para o Instituto Médico Legal (IML) para exame de corpo delito. O caso é tratado como agressão e ameaça e ficará sob jurisdição do Juizado Especial Criminal (Jecrim).

O clube sustenta o apoio ao vice de futebol porque entende que Braz vem sendo ameaçado constantemente. Para a diretoria, uma publicação da Torcida Jovem que convocava rubro-negros a flagrarem jogadores e dirigentes em seus momentos de lazer reforçou tal percepção por parte da diretoria. A publicação afirmava o seguinte: "Vai começar a caçada".

"Há dois dias, uma torcida organizada disse que ia perseguir dirigentes e atletas do Flamengo. A própria torcida, que falou que ia fazer, fez", completou Dunshee. Veja a postagem abaixo:

Embora parte dos conselheiros valide as críticas externas e cobre a saída de Marcos Braz para apaziguar a pressão, o vice de futebol continua respaldado por Rodolfo Landim, que repetidamente afirma que Braz só deixa o Flamengo após o fim da atual gestão, em dezembro de 2024 - existe um movimento de aliados para sugerir uma alteração no Estatuto do clube para estender seu mandato por mais um ano, levando até 2025.

Ou seja, a única possibilidade de Marcos Braz sair seria por opção própria, com ele entregando o cargo. Mas o dirigente também já afirmou em outros momentos que só deixará o Flamengo junto com Landim ao término da atual gestão.

A expectativa é que, independentemente do título ou do vice-campeonato da Copa do Brasil contra o São Paulo, no próximo domingo (24), Marcos Braz continuará como o homem forte do futebol rubro-negro e será o responsável por uma eventual reformulação no elenco ou na comissão técnica após a temporada para esquecer em 2023. O técnico Jorge Sampaoli, por exemplo, já é dado como carta fora do baralho no clube para o ano que vem.

Cassação de mandato?

Se no Flamengo ele segue respaldado, no funcionalismo público o buraco é mais embaixo. A Deputada Estadual Dani Monteiro, do PSOL, pediu a cassação de Braz, que além de vice de futebol do Flamengo, exerce o cargo de vereador do Rio de Janeiro desde 2021.

"Cassação já! Uma vergonha o vice-presidente do Flamengo protagonizar um escândalo desses. E no mínimo deve haver 2 pesos e 2 medidas, porque se em relação as confusões envolvendo torcidas organizadas a justiça é tão justa e célere, também com os parlamentares deve ser", escreveu Dani Monteiro, que preside a Comissão dos Direitos Humanos, na plataforma X.

Dani explica que, no momento da confusão, o vereador Marcos Braz não estava na sessão da Câmara durante a votação da ordem do dia. Veja a postagem abaixo:

De acordo com a Câmara, ele chegou a marcar presença de forma virtual – que pode ser feita entre às 13h30 e 16h –, mas a participação precisa ser confirmada no local após o início das votações do dia, às 16h. Como mostra o painel da casa, o dirigente do Flamengo não o fez e ficou com o nome com interrogação no painel da casa.

"Como o vereador Marcos Braz (PL) estava ausente durante a votação desta terça-feira (19), o sistema registrou falta para o parlamentar", informou a Câmara em nota.

A votação que o vereador Marcos Braz não acompanhou nesta terça envolvia uma discussão para autorizar ou não a Prefeitura contrair um empréstimo de R$ 702 milhões junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O projeto foi aprovado em primeira discussão nesta terça e agora aguarda a votação definitiva dos vereadores.

A participação de um vereador de forma virtual até é aceito na Câmara dos Vereadores, mas apenas para mulheres grávidas ou vereadores com alguma doença.

Eleito na onda bolsonarista

Braz foi eleito em 2020, como vereador da cidade do Rio de Janeiro, pelo PL, e obteve 40.938 votos, sendo o sexto mais votado daquele pleito.

O PL, partido pelo qual Braz é filiado, tomou conhecimento da confusão por meio da imprensa e deve se pronunciar sobre o caso após a apuração dos fatos. Cabe pontuar que, de acordo com a Resolução 1133/2009, há margem para qualquer cidadão enviar à Câmara uma representação pedindo a cassação de um parlamentar por quebra de decoro.