ESPORTES

NAS QUADRAS - Tudo sobre basquete

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Por PEDRO RODRIGUES
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Publicado em 15/09/2022 às 19:21

Alterado em 15/09/2022 às 19:29

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Uma das agruras sociais do mundo ocidental atualmente é a total falta de conhecimento do passado. A história passa pelos nossos olhos, ouvidos e telas e mesmo assim não parecemos aprender, para nunca mais repetirmos, com os erros do passado. No Brasil temos diversos exemplos atuais de como não aprendemos, e pior, não resolvemos questões que voltam a assombrar o nosso dia-a-dia. Pois bem, no último dia 10 de setembro, o basquete nacional conseguiu “descobrir" um novo patamar no buraco em que se encontra. Encontramos um "pré-sal" vindo das maiores profundezas do egocentrismo das forças que gerem a modalidade no Brasil.

Vamos tentar explicar o que está acontecendo: a Confederação Brasileira de Basquete (CBB) sempre deixou claro que tinha a intenção de voltar a organizar o campeonato masculino adulto. Hoje, essa tarefa é conduzida pela Liga Nacional de Basquete (LNB), que há 14 anos organiza o NBB com as principais equipes de basquete do país. Para realizar o NBB, a CBB deu uma chancela para a LNB que permite que times do campeonato disputem a competição nacional e as competições internacionais da FIBA Américas. Atualmente, a FIBA Américas organiza duas competições: a BasketBall Champions League Americas (BCLA) e a SulAmericana. A primeira equivale à Libertadores da América. Para participar da BCLA, o time precisa ser campeão, vice ou terceiro colocado no NBB e campeão do Torneio Super 8. Para a SulAmericana se classificam do quarto ao sétimo colocados. Todos os times devem ser referendados pelas duas entidades, CBB e LNB, e enviados para a Fiba Americas que confirma a inscrição da equipe.

Eis que mais que de repente, de acordo com nota publicada pela Liga Nacional de Basquete (Link aqui), o São José recebeu o convite para participar da Liga SulAmericana. Por que o São José? O time do interior de São Paulo foi o campeão do último campeonato da CBB, apresentado como “Campeonato Brasileiro”. Na verdade, o nome leva o leigo ao erro. O campeonato na verdade é a Liga Ouro, uma espécie de segunda divisão do NBB. Não tenho nenhum comentário jocoso em relação à Liga Ouro/Campeonato Brasileiro. Sem nenhum demérito em relação às equipes que participam do campeonato, mas é fato que são equipes com menor investimento, com elencos modestos compostos por veteranos do NBB e jovens talentos. Os times que disputam o NBB são, por consequência, melhores.

Ainda de acordo com a nota da Liga, o São José oficialmente declinou do convite para disputar a SulAmericana. A Liga, então, resolveu aumentar o tom e notificar extrajudicialmente a CBB. Isso tudo ocorreu em julho deste ano. Chega agosto e a Fiba divulga que a Liga Sorocabana efetivamente irá participar da SulAmericana. Faz sentido para você?

Como um jogo de estratégia, a movimentação desta peça fez com que a Liga Nacional de Basquete aumentasse a aposta e, no meu entender, aumentou exponencialmente a crise. Ao recorrer à justiça comum contra a Liga Sorocabana, a Liga Nacional chamou o blefe e parece que não tinha conhecimento total do tabuleiro. O processo na justiça comum foi o mote para que a CBB informasse que a Liga infringiu o acordo do “termo de cooperação" que as duas entidades assinaram em 2018 (a duras penas). Para este tipo de ação esportiva, deve-se utilizar o STJD. Por que o NBB foi à justiça comum? Seria um temor por um resultado não-favorável nas instâncias esportivas? Nunca saberemos.

Todo esse imbróglio foi a gasolina que alimentou a bomba-relógio que já tem data para explodir. No ultimo sábado, dia 10, durante a Americup disputada no Brasil, a coluna “Olhar Olimpico”, do jornalista Demetrio Vecchioli (Link aqui) publicou que a CBB convocou uma assembleia para 14 de outubro para RETIRAR a chancela do NBB.

Que história bizarra, não é? Para quem acompanha basquete nacional, está longe de ser bizarro. Passamos por exatamente o mesmo problema em 2007. Mudaram poucos personagens, mas em 2008 tivemos duas ligas de basquete, a AACBB com times Paulistas e a Nossa Liga de Basquete, e nenhum dos dois campeonatos chegou ao final. Os responsáveis pelo basquete nacional eram incapazes de realizar um campeonato de clubes que minimamente chegasse ao fim. Tínhamos jogadores da NBA e não conseguimos chegar nem perto de participar das Olimpíadas devido às sucessivas trapalhadas de gestão dentro e fora de quadra.

É isso que queremos para o basquete nacional? Será que estamos neste loop contínuo, incapazes de perceber que o mundo mudou desde 1993? Será que o ego cega tanto a visão de quem comanda o basquete e não percebe que uma das poucas iniciativas que deram certo nos últimos anos no basquete nacional se chama NBB? Será que não conseguem/percebem/aceitam que a NBA já tomou conta do mercado nacional? Enquanto brigamos entre nós, a NBA conquista cada vez mais adeptos, são 45 milhões pela última pesquisa divulgada, lojas físicas fantásticas e ofertas de consumo do campeonato nas plataformas onde o público está. Vamos tentar explicar para quem comanda o basquete o que é este "rolê": a NBA é o TikTok e o basquete nacional é o Orkut. Desculpe, o torpedo SMS.

Se o NBB parar, para o basquete nacional. A Seleção Brasileira hoje é formada por técnicos e jogadores que são crias do NBB. Quem a CBB colocaria em quadra para a Americup caso não tivesse o NBB? Georginho, Caboclo, Yago, Lucas Dias e Lucas Mariano são alguns nomes desta “geração NBB” que hoje carregam a combalida modalidade. Como ficam os investimentos de Flamengo e Franca para esse NBB? Se ocorrer a ruptura, o São Paulo não irá disputar o Intercontinental? E quem vai falar com a Globo que não vai ter campeonato? Desejo boa sorte, e que leve protetor de tímpanos, já que o estrondo desta porta se fechando será alto.

Ao contrário do que os poderes do basquete imaginam, caminhamos para sermos consumidores de basquete. Desculpem, consumidores de NBA.

O basquete nacional sofre de autofagia.

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