Abraji cobra explicações à direção do Grêmio sobre ameaças contra jornalistas

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A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo enviou, nessa sexta-feira (29), um ofício à direção do Grêmio pedindo explicações sobre declarações do técnico Renato Portaluppi.

Quinta-feira (28), durante uma entrevista coletiva após a derrota do time gaúcho contra o Flamengo, o treinador ameaçou incitar os torcedores do clube contra jornalistas esportivos, devido a discordâncias em relação à cobertura realizada pelos profissionais.

Portaluppi deu a entender que jornalistas fazem cobranças descabidas à agremiação e, por isso, precisam ser expostos:

“Quando a gente ouve algumas pessoas da imprensa falando besteira, e é bom que eu não tenho medo de vocês da imprensa e não tenho medo de nenhum de vocês. Vou começar a dar o nome aqui na próxima entrevista, se continuar falando besteira durante a semana, vou deixar um de vocês, ou dois ou três, mais famosos, mas eu vou dar o nome. Depois vocês se acertam com a torcida do Grêmio. (…) É só continuar falando besteira lá que eu tenho autorização do meu presidente e aí vocês vão ver lá nas redes sociais.”

A Assessoria de Imprensa do time não confirmou, até 18h de sexta (29), se Romildo Bolzan Júnior, presidente do clube, respalda essas ameaças.

Para o presidente da Abraji, Marcelo Träsel, as afirmações do treinador se configuram em um assédio à imprensa:

“Trata-se de uma lamentável tática de intimidação da imprensa, que expõe jornalistas a injúrias, difamação, divulgação indevida de dados pessoais (doxing), ameaças e, nos casos mais extremos, pode redundar em agressões físicas e tentativas de homicídio. Tais consequências perturbam o trabalho e causam aflição psicológica aos profissionais da imprensa, muitas vezes resultando em quadros de ansiedade e depressão”.

O Brasil enfrenta um cenário sem precedentes de ataques e ameaças à segurança dos jornalistas brasileiros. Segundo levantamento da Abraji, foram 366 registros de ataques e agressões no ano de 2020, distribuídos em 12 categorias: assassinatos, sequestros, desaparecimentos forçados, detenções arbitrárias, tortura, agressões e ataques, discursos estigmatizantes, restrições de acesso à informação, processos judiciais, uso abusivo do poder estatal, marcos jurídicos contrários aos padrões e restrições na Internet.

No início da semana, a Federação Nacional dos Jornalistas e a organização Repórteres sem Fronteiras divulgaram balanços sobre o ambiente extremamente hostil criado por apoiadores do governo Bolsonaro em relação à mídia.

Nessa sexta-feira (29), a Associação dos Cronistas Esportivos Gaúchos repudiou a fala do treinador e criticou o sistema de entrevistas coletivas adotado pelo clube, com áudios enviados à assessoria de imprensa antes da conferência, com perguntas gravadas e selecionadas previamente.