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Sem receita fixa, Campo Grande batalha para ter torcida no estádio e retomar tempos de glória

Jornal do Brasil GUILHERME BIANCHINI, guilherme.bianchini@jb.com.br

Amigos se reúnem e arrecadam o valor necessário para custear o jogo. Péssima condição do gramado e quase total ausência de público. Futebol longe do que se espera de uma competição de alto rendimento. Cenário típico de um grupo que organiza peladas para se divertir, mas é a cruel realidade do Campo Grande Atlético Clube, campeão da Taça de Prata de 1982, a segunda divisão brasileira da época.

Maior conquista da história na instituição de 78 anos, o título nacional é motivo de orgulho para a torcida, que o entoa para provocar o rival Bangu, vice da Série A de 1985: “Eu tenho Brasileiro, você não conseguiu”.

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Preparador de goleiros assiste à partida entre Campo Grande e EC Resende. Interditado, Ítalo del Cima recebe jogos, mas com portões fechados (Foto: Beto Herrera)

O troféu é a principal motivação do Campusca, como é carinhosamente chamado, na luta para retomar os tempos de glória. As aspirações atuais são mais do que modestas, se comparadas às das décadas em que Dadá Maravilha, Tuchê, Pingo, Cláudio Adão e Roberto Dinamite vestiam a camisa alvinegra. Na Série C do Carioca, a quarta e última divisão do Rio, a equipe inicia hoje, às 15h, o confronto com o Itaboraí Profute, o que pode lhe render vaga na final e, automaticamente, acesso para a Série B2.

Estádio interditado

Subir de divisão representaria um enorme desafogo para os combalidos cofres do clube. Isso porque os gastos em um jogo da terceira divisão são – acredite se quiser – bem menores do que na quarta. O fenômeno, típico do futebol carioca da Ferj, é causado por uma série de subsídios que só se estende até a B2.

“Uma partida da C tem custo de quase R$ 4 mil. Só de arbitragem e delegado dá mais de R$ 2 mil. Não posso dizer se a Ferj tem esse dinheiro porque não sou o presidente da federação. Gostaria de estar lá para falar. Mas acredito que tenha”, afirma Zico, vereador que tem forte ligação com o bairro e com o clube, e que reuniu dezena de amigos para prestar auxílio ao presidente Humberto Costa.

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Faixa de interdição da Defesa Civil se destaca na arquibancada fechada para torcedores (Foto: Beto Herrera)

É esse grupo de assessores que faz uma espécie de vaquinha para sustentar financeiramente o clube, com orçamento anual estipulado em R$ 100 mil. “É todo mundo no amor”, conta Zico.

As dívidas de FGTS e INSS acumuladas ao longo dos anos chegam a R$ 4 milhões.Com as portas do estádio Ítalo del Cima fechadas para torcida e eventuais sócios, por conta da interdição da Defesa Civil, não há sequer uma única fonte de receita fixa. A culpa, segundo a gestão, é do excesso de burocracia para liberá-lo ao público. Com capacidade para aproximadamente 20 mil pessoas, número que o coloca entre os maiores do Rio, o estádio virou um gigante adormecido.

“Que problema teria duzentas ou trezentas pessoas aqui? Nenhum! Só que a lei, o Estatuto do Toredor, arregaçou o clube. É importante ambulância, desfibrilador, tudo isso salva vidas. Mas a gente vê jogo lotado em campo de pelada e não existem essas exigências que o Corpo de Bombeiros nos cobra aqui. Tem campeonato na nossa região cuja disputa atrai cerca de duas mil pessoas”, desabafa Zico.

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Tranquilo, Humberto Costa observa o time (Foto: Beto Herrera)

Novos horizontes

Amigo do vereador e participante da gestão, o engenheiro Armando Queiroga faz coro ao discurso e defende um afrouxamento das normas nas divisões inferiores.

“Pelo menos na Série C deveria haver uma flexibilização da legislação. Essa categoria dificilmente junta 20 mil pessoas. Tem que ter tudo referente a bombeiros, incêndio, banheiros perfeitos. Se tivéssemos um lado do estádio liberado, já seria ótimo. Ainda não temos estimativa do gasto necessário para viabilizar isso”, admite Queiroga.

Mas como um clube de tradição, que já teve grandes jogadores e que possui um dos maiores estádios do Rio, chegou a essa situação? Os membros da gestão e os poucos privilegiados que podem acessar o Ítalo del Cima evitam ser mais incisivos, mas é nítido o desconforto ao falar de João Ellis Neto, que antecedeu Humberto na presidência e seguiu como voz ativa no clube por mais alguns anos.

“Se essa pessoa estivesse aqui, nós não estaríamos. Olha como ficou o clube. Comparado a alguns meses atrás, hoje está até bom, o pessoal pede para vir. Antes, até o banco de reservas fedia. Estava tudo abandonado. Não teve jeito, aos poucos foi se degradando”,

lamenta Zico.

Em outubro, o grupo que hoje gere informalmente o clube deverá formalizar suas atividades em eleição no Conselho. Para a sucessão de Humberto Costa, os investidores prometem regularizar o Campo Grande, com um passo de cada vez. E a meta para 2019 já é abrir os portões para a torcida. Zico utiliza o peso na balança como analogia do novo processo.

“Ao regularizar o clube, podemos ter certeza de que o comércio do bairro e os parceiros vão chegar para ajudar. Costumo falar que temos 130 quilos. Demoramos décadas para ter esses 130 quilos. Queremos perder em uma semana? Não, são vários anos. Então, a instituição Campo Grande vai voltar a ser o que era, mas com os pés no chão”.

Presidente já foi gandula

Em seus últimos momentos como presidente do Campo Grande, que terá novo mandatário em outubro, Humberto Costa faz uma avaliação positiva dos últimos quatro anos. Ele reforça as dificuldades encontradas para comandar um clube de futebol no Rio, mas olha para o futuro de com otimismo.

“A sensação que tenho neste fim de mandato é de muita luta, diversos problemas. Perdemos muito tempo por causa de burocracia. Mas agora estamos evoluindo. Meu sonho sempre foi colocar o Campo Grande de volta no seu lugar. Estamos no caminho certo, com uma nova visão, bem mais moderna”.

A vontade de continuar na presidência foi demovida pela família. “Eles não veem a hora de eu sair. Tive problema de pressão alta por causa do clube”, revela

A trajetória de Humberto na agremiação da Zona Oeste começou muito antes de assumir o comando. Ele lembra com carinho da conquista da Taça de Prata de 1982. Na época, via do campo as partidas, como gandula, no Ítalo del Cima.

“O Campo Grande faz parte da minha família, da minha história. Fui gandula, joguei na escolinha, no mirim. Quando vinha do colégio, estudava na própria arquibancada do clube assistindo ao treino dos profissionais. Acompanhei vários times fortes, passou a ser minha segunda casa”, suspira, saudoso, o presidente.



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