Imagine uma jabuticaba que trocou a casca preta e lisa por uma pele amarela, coberta de pelos finos. É assim que se apresenta a cabeludinha, fruta nativa da Mata Atlântica também chamada de jabuticaba-amarela. Nos viveiros da Prefeitura de São Paulo, a planta é registrada com frutos em outubro, em plena primavera.
A Flora e Funga do Brasil registra a cabeludinha como Myrciaria glazioviana
O nome científico aceito hoje é Myrciaria glazioviana, da família Myrtaceae, a mesma da jabuticaba, da pitanga e da goiaba. É o que mostra o registro da Flora e Funga do Brasil, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ), a lista oficial de espécies do país.
O mesmo registro reúne os nomes populares da planta: jabuticaba-amarela, cabeludinha, peludinha, guapirijuba e vassourinha-da-praia. Segundo a base, a espécie é endêmica do Brasil, ou seja, só ocorre naturalmente aqui, e aparece na Mata Atlântica de Alagoas, Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, em floresta úmida e em restinga.
Quem pesquisa a fruta vai encontrar outros nomes científicos. A página de plantas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (Esalq/USP) ainda a identifica como Eugenia cabelludo e Myrciaria glomerata. Já a Flora e Funga trata Myrciaria glomerata, e o sinônimo Plinia glomerata, como outra espécie, com ocorrência em Minas Gerais e no Pará e sem nome popular registrado.
O fruto é amarelo, peludo e mede de 2 a 3 centímetros

A descrição da Esalq/USP é direta: o fruto é uma baga amarela e profusamente tomentosa, termo da botânica para superfície coberta de pelos. Ele é globoso e achatado nos polos, mede de 2 a 3 centímetros de diâmetro e tem um caroço relativamente grande. O sabor, segundo a universidade, é adocicado e refrescante.
Uma revisão publicada em 2021 na revista Scientific Electronic Archives completa o retrato: frutos globosos, pilosos e verrucosos, de 2,5 a 3 centímetros, com casca amarelo-alaranjada e polpa suculenta.
Há um porém. Pesquisadores do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), em artigo publicado em 2018 na revista Rodriguésia, descrevem a polpa como suculenta, de sabor doce-acidulado, porém escassa. Com o caroço grande, sobra pouca polpa em cada fruta. O mesmo estudo aponta que os frutos são ricos em vitamina C e muito apreciados para consumo in natura.
A planta é baixa e cabe em pomar de quintal
Diferente de muitas árvores da Mata Atlântica, a cabeludinha não cresce muito. O artigo do Incaper a descreve como um arbusto de cerca de 3 metros de altura. A ficha dos viveiros da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo indica de 3 a 6 metros, com tronco de 25 a 35 centímetros de diâmetro na fase adulta. A Esalq/USP acrescenta que a folhagem é densa e baixa, com aspecto de touceira.
Segundo o Incaper, a espécie provavelmente se originou no Rio de Janeiro e em Minas Gerais e é muito cultivada da Bahia ao Rio Grande do Sul. A Esalq/USP cita o cultivo principalmente em Minas Gerais, no Rio de Janeiro e em São Paulo.
Em São Paulo, a planta floresce no outono e dá frutos em outubro
A ficha da prefeitura paulistana registra a floração da cabeludinha em maio e junho e os frutos em outubro. Ou seja: na capital paulista, a fruta aparece em plena primavera, alguns meses depois das flores.
Vale um cuidado. Esse é o calendário informado para São Paulo, e a época pode mudar de uma região para outra, já que a espécie ocorre de Alagoas ao Rio Grande do Sul, com climas bem diferentes. As fontes consultadas não trazem um calendário único para todo o país.
Da jabuticaba preta à amarela, a família é a mesma
A comparação com a jabuticaba não é só pela aparência. As duas são da família Myrtaceae. Em texto da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) sobre frutas nativas, a pesquisadora Rosa Lia Barbieri lembra que as jabuticabas tradicionais são frutas escuras e globosas, produzidas junto ao tronco. A cabeludinha guarda o formato redondo, mas troca o roxo-escuro pelo amarelo e a casca lisa pelos pelos.
Além do consumo in natura, a planta tem outros usos registrados. Um trabalho da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), campus Dois Vizinhos, apresentado no simpósio de frutas do Sul (Frusul), cita o uso da espécie em reflorestamento de áreas degradadas, em pomares e como planta ornamental. O artigo do Incaper acrescenta que as sementes são espalhadas por animais, o que torna a fruta importante para a fauna e sugere seu uso para enriquecer fragmentos de floresta.
Para quem quer ver ou provar a fruta, a dica é procurar mudas de frutíferas nativas em viveiros e feiras de plantas, já que a cabeludinha raramente aparece em supermercado. Pela ficha paulistana, outubro é o mês de prestar atenção nos pés carregados.
Informações conferidas em 8 de outubro de 2026 nas fontes citadas.



