Natal nas comunidades cariocas deverá movimentar R$1 bilhão em 2012

Por Carolina Mazzi*

O vai e vem de carros, pessoas e mercadorias na rua principal do Complexo do Alemão, conjunto de favelas em Bonsucesso, Zona Norte do Rio de Janeiro, não deixa enganar: este será um Natal de muito consumo nas comunidades cariocas. A movimentação será de cerca de R$ 1 bilhão durante o período, segundo o pesquisador Daniel de Plá, professor de varejo da Fundação Getúlio Vargas (FGV/RJ).

“E os maiores beneficiados são os pequenos comerciantes, as biroscas, o comércio local mesmo”, afirma. O aumento da renda das classes mais baixas da população, verificado nos últimos anos, proporcionou ascensão da população das favelas para a classe média, impulsionando a economia local. Como esperado por todo comércio nacional, o recebimento do 13º salário também contribuirá para melhoria nas vendas.

Porém, além disto, as comunidades do Rio vivem momento especial desde a pacificação, afirma o especialista. Com a chegada das UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora), houve valorização dos imóveis nas regiões, principalmente na Zona Sul, o que beneficiou os proprietários que alugam quartos ou outras casas. Além disso, o aumento do preço acabou atraindo moradores de renda maior, elevando o poder de consumo dos habitantes locais.

Os aluguéis na Rocinha, maior favela da cidade, por exemplo, aumentaram cerca de 50%, segundo De Plá. “Com este aumento, muita gente que ganhava menos, teve que sair. Naturalmente, quem entrou no lugar deles tem rendimentos maiores para arcar com os novos preços”, afirmou.  

Francisca Medeiros conhece bem o fenômeno. Moradora da Rocinha, onde criou os filhos e netos, ela decidiu gastar um pouquinho menos este Natal para ampliar sua casa e, com isso, aumentar a renda para 2013. Mesmo assim, não deixou de presentear ninguém. “Com obra, vai muito dinheiro embora, mas mesmo assim estou comprando. E vejo muito mais movimento, muito mais gente comprando”, conta.

As oportunidades dentro das comunidades pacificadas são muitas, afirma o pesquisador. “Não tem um açougue no Pavão-Pavãozinho, por exemplo. Existem muitas chances nestes lugares ainda”, contou. Em reportagem publicada em agosto, o Jornal do Brasil já chamava atenção para o perfil empreendedor e as chances de novos negócios para os moradores das comunidades cariocas.

Todo este aumento de renda influenciou diretamente o comércio local e será sentido principalmente neste Natal. “Agora aqui tem muita competição, é muita lojinha entrando. É bom pra população, né?”, afirma o bem humorado Leandro Rodriguez, dono de uma barraquinha de roupa íntima na Grota, uma das comunidades que fazem parte do Complexo do Alemão.  

Adeílson Silva abriu sua pequena loja de roupas infantis, no comércio popular da Rocinha, há oito meses, depois de ver o sucesso que o pai fazia na região. Hoje, não tem do que reclamar. “A venda do Natal está muito boa, não tem lugar melhor do que aqui, atualmente, para abrir um negócio”, contou ele, que é morador de Rio das Pedras, comunidade na Zona Oeste da cidade. 

Mas não só as favelas da Zona Sul colhem os louros da melhoria de vida da população das comunidades. "Há um efeito dominó para os locais mais afastados. Por exemplo, alguém que saia do Pavão, pelo aumento dos preços, procura um lugar mais afastado. Isto também contribuiu para aumento de renda de comunidades da Zona Norte", afirma De Plá.

A classe média das favelas cariocas é um fenômeno recente, mas que só tende a crescer. Ela já representa 66% da população total das comunidades e seus habitantes movimentam cerca de R$ 13 bilhões ao ano. Se fosse uma cidade, seria a 9ª maior do país, na frente de capitais, como Florianópolis, por exemplo. 

"A economia da cidade está aquecida, devido às obras da Copa e das Olimpíadas, o que sustentou este cenário mais forte no Rio, que é maior em comparação com favelas de outras cidades", afirmou Renato Meirelles, sócio-diretor do instituto Data Popular, órgão que estuda o assunto há mais de dez anos, em entrevista para o JB em novembro. 

*carolina.mazzi@jb.com.br