Bolsonaro cogita vender BB para o Bank of America
Flávio Bolsonaro e aliados articulam venda de participação do Banco do Brasil ao Bank of America, visando capital privado, ajuste fiscal e estreitamento de laços com EUA e Trump, mesmo sem perda de controle da União.
Flávio Bolsonaro e, principalmente, seu irmão Eduardo vislumbram a oportunidade de uma operação capaz, a um só tempo, de oferecer o capital de estatais à iniciativa privada, contribuir, mesmo que indiretamente, para o ajuste das contas públicas e, de quebra, estreitar os laços econômicos com os Estados Unidos e as relações com Donald Trump. Segundo uma fonte ligada à campanha ouvida pelo RR, Eduardo Bolsonaro vem mantendo, desde antes do início da campanha eleitoral, conversas com interlocutores do governo norte-americano em torno da possibilidade de o Bank of America adquirir uma participação relevante no Banco do Brasil.
A arquitetura, caso Flávio venha a se eleger, contemplaria o ingresso do BofA no capital do BB sem que a União necessariamente tivesse de abrir mão do controle. Não que isso fosse um problema para os “advisers” econômicos do candidato do PL. Muito pelo contrário. Mas, como o ideal caminha em paralelo ao real e ao viável, seria uma espécie de privatização em pele de cordeiro, com o compartilhamento do poder decisório: os norte-americanos poderiam ter assento no conselho e participação ativa na administração do BB e na definição de suas estratégias, mas seriam minoritários no capital do “Brazilian Bank of America”.
Mesmo sem a eleição definida, as conversas sobre essa engenharia financeira vêm sendo conduzidas no âmbito da Secretaria do Tesouro norte-americano e na própria Casa Branca. Um dos obstáculos que teriam de ser superados é a própria estrutura societária do Banco do Brasil. A União detém 50% mais uma ação da instituição – o mínimo necessário para preservar o controle. O restante está majoritariamente nas mãos de investidores privados, ressalvadas as ações em tesouraria.
Nas condições atuais, o Tesouro não tem margem para vender uma participação relevante sem perder a maioria do capital votante. É em torno dessa restrição que estão sendo desenhados os primeiros croquis das arquiteturas financeira e societária. Tudo na penumbra da campanha eleitoral. Não é assunto para ser tratado à luz do dia às vésperas da votação. Independentemente do modelo adotado ou da participação que caberia ao BofA, está se falando de um projeto de desnacionalização do Banco do Brasil.
A ideia tem pai e mãe
As intenções em relação ao BB que povoam a equipe de advisers econômicos de Flávio já estão mais do que manifestas. Em setembro, durante evento do Grupo Esfera, quando perguntada, Daniella Marques confirmou a possibilidade de privatização do BB, argumentando que suas ações eram negociadas abaixo do valor patrimonial. Talvez tenha usado o termo “privatização” de forma genérica, já dando um spoiler sobre a possibilidade de uma associação com o Bank of America.
Por sinal, se Daniella Marques pode ser considerada, na equipe de Flávio Bolsonaro, a mãe da ideia de vender um pedaço do Banco do Brasil, não é difícil identificar seu founding father. Paulo Guedes, guru da ex-presidente da Caixa, nunca escondeu o desejo de colocar o BB sob o guarda-chuva do Bank of America.
Em novembro de 2018, logo após a eleição de Jair Bolsonaro, Guedes levantou a hipótese de uma fusão entre as instituições. Voltou ao assunto em maio de 2019, durante um evento em Dallas, nos Estados Unidos, inclusive comparando a possível associação entre BB e BofA à operação então negociada entre Embraer e Boeing, posteriormente fracassada.
O crédito como ativo geopolítico
O assunto adormece na Casa Branca antes de vir à tona porque passa pela maior operação de proximidade e influência do governo norte-americano contra a hegemonia da China nas relações com o Brasil. Durante a campanha eleitoral Lula afirmou que o Brasil “não precisa de nada dos Estados Unidos”. O tarifaço praticamente confirma a afirmação. Depois das sobretaxas aumentamos nosso superávit comercial diversificando a pauta de comércio exterior. A pedra filosofal é a ideia de construir uma “algema de ouro” pela via do sistema financeiro.
Para a equipe econômica de Flávio Bolsonaro, uma associação dessa natureza representaria uma alternativa politicamente menos custosa do que a privatização do Banco do Brasil. Para todos os efeitos, a União manteria o controle acionário, ainda que abrindo espaço para um sócio privado estrangeiro com influência sobre os rumos da instituição. A eventual expansão dos negócios do Banco do Brasil, a partir da aliança societária com o BofA, poderia se refletir nos lucros e, consequentemente, no pagamento de dividendos à União. A ver se a transferência de recursos do Bank of America para o exterior teria um impacto descompensatório no balanço de pagamentos do país.
Para além da questão fiscal, são os potenciais ganhos geopolíticos que saltam aos olhos do clã Bolsonaro e de Trump. Provavelmente até mais do presidente norte-americano. Uma associação entre o BB e o BofA permitiria a Flávio oferecer a Donald Trump uma contrapartida econômica concreta à afinidade política que une a família Bolsonaro ao presidente norte-americano. É claro que a operação tem por objetivo um resultado de propulsão nuclear, no qual a sintonia entre os Bolsonaro e Trump seria um detalhe apenas ilustrativo. Na hipótese de uma vitória eleitoral de Flávio, o movimento poderia dar outra dimensão à relação quase xifópaga que o clã procura manter com o mandatário dos Estados Unidos. No lugar de um acordo de governantes retrógrados, estaria sendo lançado ao espaço um foguete nuclear geopolítico.
Um acordo dessa envergadura poderia dar substância econômica a uma agenda bilateral e criar condições para reivindicar tratamento diferenciado de Washington em questões comerciais, investimentos e financiamento. Para o Bank of America, por sua vez, uma posição estratégica no Banco do Brasil abriria possibilidades de um inesperado movimento geoeconômico em todo o continente, com importância predominante ao Brasil, maior mercado latino-americano. A partir daí, entra no tabuleiro uma nova tática. É a sociedade dentro da sua própria casa. Ou, como diria Tim Maia, “eu e você, você e eu”. Pelo lado das finanças, tudo tem sinergia: financiamento de exportações, infraestrutura, câmbio e mercado de capitais, apoiados na base de clientes e na capacidade de originação do banco brasileiro.
Um banco longe da habitual prosperidade
O contraste de porte entre os dois bancos é expressivo. O Bank of America tem valor de mercado de aproximadamente US$ 350 bilhões, equivalentes a R$ 1,76 trilhão. O Banco do Brasil vale R$ 139 bilhões, cerca de US$ 27,7 bilhões. Curiosamente, no entanto, é o lado mais forte dessa possível associação que apresenta sinais de erosão. O contraste entre a dimensão do BofA e seus indicadores recentes revela uma instituição pressionada pelo impacto de encargos regulatórios sobre os resultados e pela desvalorização de ativos financeiros.
O Bank of America divulgou, em 14 de outubro, lucro líquido de US$ 6,9 bilhões no terceiro trimestre, queda de 17% em relação ao mesmo período de 2025. O resultado incorporou um encargo regulatório de US$ 1,2 bilhão; sem esse efeito, o lucro ajustado teria alcançado US$ 8,1 bilhões. As ações chegaram a cair mais de 8% após a divulgação do balanço. Outro ponto sensível é a carteira de títulos mantidos até o vencimento, que acumulava cerca de US$ 103,9 bilhões em perdas não realizadas, sobretudo em papéis adquiridos durante o período de juros excepcionalmente baixos nos Estados Unidos.
O quadro se agrava na frente regulatória. Em 13 de outubro, a Financial Crimes Enforcement Network (FinCEN), vinculada ao Departamento do Tesouro norte-americano, aplicou ao banco uma penalidade de US$ 1,2 bilhão por falhas nos controles de prevenção à lavagem de dinheiro e na comunicação de operações suspeitas, incluindo transações relacionadas a redes chinesas de lavagem de recursos. O Office of the Comptroller of the Currency (OCC) impôs uma multa de US$ 750 milhões, computada dentro da penalidade do FinCEN, enquanto o Office of Foreign Assets Control (OFAC) anunciou um acordo de aproximadamente US$ 11,6 milhões por violações de sanções econômicas. Não se sabe também como reagiria o investidor americano a uma eventual associação com o BB.
Por enquanto, tudo são conjecturas, opacidade, silêncio, digamos que segredo de Estado. Mas pode estar chegando ao fim a era de independência de uma instituição que carrega nacionalidade na história e no nome desde 1808, quando foi criada com a chegada de Dom João ao Brasil.