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Flávio Maluf conta como sustentabilidade e disciplina financeira andaram juntas em 2025

Por FLAVIO MALUF

O número já virou manchete quando publicamos nosso balanço, um lucro líquido recorrente de R$ 340,3 milhões, 54,7% maior que o de 2024. O que ainda não contei é por que cheguei a esse resultado justamente através das escolhas que fiz em sustentabilidade e disciplina de capital, num ano em que quase tudo conspirava contra ele.

As pressões que enfrentamos em 2025
O ano trouxe tarifas de importação nos Estados Unidos que chegaram temporariamente a 50%. Trouxe também oscilações de câmbio que mexeram com o custo de matéria-prima e de energia, além de eventos climáticos que elevaram custos em praticamente toda a cadeia produtiva. Nenhuma dessas pressões era nova para quem trabalha com base florestal e industrial há décadas, mas a combinação das três ao mesmo tempo testou a operação de um jeito que não víamos há alguns anos.

Ainda assim, fechamos 2025 com receita líquida de R$ 3,1 bilhões, um crescimento de 8,6% sobre 2024. As exportações cresceram 21% no período, puxadas por uma recuperação mais firme do mercado internacional. No Brasil, o setor de construção civil avançou 4,6% e o de móveis 6,8%, dois segmentos que respondem por boa parte do que produzimos em painéis, pisos e portas. Escrevi, na carta que assino em nosso relatório mais recente, que 2025 nos desafiou a demonstrar, mais uma vez, a resiliência e o comprometimento que estão no centro dos nossos valores. Essa frase descreve literalmente o que vivemos internamente para chegar a esses números.

Parte dessa recuperação também veio de uma escolha comercial que vínhamos fazendo havia tempo, a de diversificar o portfólio e priorizar produtos de maior valor agregado em vez de competir só por volume. Numa indústria de commodities de madeira, essa é uma decisão que leva anos para aparecer no resultado. Em 2025, ela apareceu.

Quando a tarifa americana subiu para até 50%, a resposta óbvia teria sido reduzir preço para manter volume de exportação a qualquer custo. Optamos por outro caminho, sustentar o mercado interno com produtos de maior margem enquanto o cenário externo se ajustava, em vez de tentar competir no fundo do poço em um mercado protecionista. O crescimento simultâneo de 4,6% na construção civil e 6,8% no setor moveleiro brasileiro veio, em boa parte, dessa mesma escolha comercial.

Por que optei por alongar nossas dívidas
Uma das decisões mais importantes do ano não aparece nos indicadores de vendas. Em 2025, emitimos R$ 620 milhões em Certificados de Recebíveis do Agronegócio com um objetivo específico, alongar o perfil de vencimento da nossa dívida. Escolhemos esse instrumento, e não outro, por um motivo simples. Ele conversa diretamente com a natureza do nosso negócio, uma operação apoiada em florestas próprias e em ciclos de produção agrícola que não seguem o calendário dos mercados financeiros. Em um ambiente de juros altos e câmbio instável, ter obrigações concentradas no curto prazo é o tipo de vulnerabilidade que uma empresa com base em ativos florestais, que amadurecem em ciclos de anos, não pode se dar ao luxo de carregar.

Tomamos essa decisão por antecipação, não por aperto de caixa, para dar à companhia mais espaço de manobra nos anos seguintes, num momento em que ainda estávamos absorvendo o impacto das tarifas americanas e da volatilidade cambial. Prefiro pagar o custo de uma dívida mais alongada hoje a ficar refém de renegociações emergenciais amanhã. Essa é uma lição que carrego desde que assumi a direção da empresa, em 1997, e que só ficou mais evidente num ano como 2025.

O motivo por trás dos investimentos em florestas e energia limpa
No mesmo ano em que cuidávamos da estrutura de capital, direcionamos R$ 410,8 milhões para expansão florestal e modernização industrial, incluindo automação de processos, ergonomia das equipes e controle de qualidade. Hoje mantemos cerca de 48 mil hectares de florestas próprias no estado de São Paulo, com certificação FSC e PEFC de manejo florestal responsável.

Mantivemos também nosso contrato de longo prazo que garante 50% da nossa demanda elétrica a partir de energia solar, e hoje 67% de todo o consumo energético interno da companhia vem de fontes renováveis. Esse investimento raramente se paga em um trimestre. Trata-se de uma aposta em que os custos de energia e de matéria-prima florestal, dois dos maiores riscos estruturais de uma indústria como a nossa, fiquem mais previsíveis ao longo de décadas, não de ciclos eleitorais ou cambiais.

Fomos reconhecidos, em 2025, no World Finance Sustainability Awards, na categoria Indústria Madeireira. Esse reconhecimento valida um raciocínio que aplico há anos. Numa indústria que depende de florestas plantadas e de energia intensiva, sustentabilidade ambiental e previsibilidade financeira caminham juntas, uma sustenta a outra.

Também investimos R$ 1,7 milhão em transformação digital em 2025, incluindo um novo modelo de inteligência artificial para previsão de demanda que hoje acerta 92% das vezes. Trato esse investimento como parte da mesma lógica de disciplina de capital. Errar menos na previsão de demanda significa cortar menos madeira do que o mercado vai absorver, ajustar produção com mais precisão e desperdiçar menos recursos florestais ao longo do processo. Sustentabilidade, nesse caso, também é uma questão de acerto operacional.

O que esses números revelam sobre a forma como dirijo a empresa
Há 75 anos a empresa que dirijo produz hoje painéis de madeira, pisos laminados, portas, tintas e vernizes. Lidero essa operação há quase 30 anos, tempo suficiente para aprender que os anos difíceis são os que melhor revelam se as escolhas de longo prazo foram certas. Um lucro recorde depois de um ano de tarifas, câmbio instável e custos climáticos aconteceu, em boa parte, por causa da nossa estratégia de sustentabilidade, não apesar dela.

Alongar dívida, investir em floresta própria certificada e garantir energia renovável de longo prazo são decisões que, isoladas, parecem conservadoras. Juntas, formaram a base que permitiu à companhia crescer em receita, ampliar exportação e ainda fechar o ano com quase 55% a mais de lucro líquido recorrente do que em 2024. Vejo isso como o resultado esperado de tratar sustentabilidade como parte da disciplina financeira da empresa, não como um item separado dela.

Olhar para 2026 exige manter esse mesmo padrão, investir com responsabilidade no presente para reduzir risco no futuro, em vez de reagir a cada oscilação de câmbio ou de tarifa como se fosse uma crise isolada. A empresa que dirijo vem de uma trajetória de 75 anos construída sobre decisões de longo prazo, algumas tomadas décadas antes de aparecerem em qualquer balanço. Prefiro continuar tomando esse tipo de decisão a buscar um resultado trimestral melhor às custas da base florestal e energética que sustenta tudo o que produzimos.