Empresas brasileiras reforçam lobby nos EUA diante de tarifas de Trump
Movimento foi impulsionado pelo temor de novas sobretaxas e pela investigação 301, que afetou exportações brasileiras
A imprevisibilidade de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos elevou o gasto com lobby a um novo patamar no país e empurrou empresas brasileiras a reforçar sua defesa de interesses no exterior. Com o temor de novas tarifas, grupos do Brasil voltaram a buscar influência junto ao Executivo e ao Legislativo americanos depois de anos de atuação mais discreta.
Levantamento da Broadcast com base nos registros enviados ao Senado americano identificou ao menos 17 grupos brasileiros contratantes desde o ano passado, com desembolso total de US$ 8,5 milhões. Entre os nomes estão Amcham Brasil, Unica, Portobello, Bauducco, Tupy, Taurus e Weg, além de outros tradicionais e novos entrantes nesse mercado.
Investigação 301 virou foco das contratações
A investigação 301, que abriu caminho para a tarifa adicional de 25% sobre importações do Brasil, foi citada como objeto específico de contratação por empresas e entidades como Unica, Embraer, CNI, WEG e a Associação de Exportadores de Mel. O processo americano incluiu questionamentos sobre práticas comerciais consideradas desleais, de Pix a direitos autorais, e atingiu cerca de 18% da pauta exportadora brasileira aos Estados Unidos.
Ao longo das negociações, o setor privado passou a intensificar a ofensiva para tentar reduzir os danos. Segundo o texto, 2.126 produtos ficaram fora da sobretaxa após a rodada de conversas, mas uma nova tarifa de 12,5%, sob alegação de trabalho forçado, ainda pode ser anunciada e preocupa o empresariado.
Grandes empresas e entidades ampliam a atuação
A CNI desembolsou US$ 700 mil para contratar o escritório Ballard, um dos mais próximos da gestão Trump, com atuação voltada ao tema desde o ano passado junto aos Departamentos de Comércio e Estado. O escritório também atende clientes brasileiros como BTG, Tupy e Taurus, e sua estrutura foi reforçada para dar conta da demanda crescente por defesa comercial.
A Amcham Brasil gastou US$ 190 mil com o Brownstein Hyatt Farber Schreck e decidiu criar uma posição fixa em Washington. Já a Sylvamo, dona da Chamex, e a Bauducco também recorreram a firmas e equipes próprias para argumentar que as tarifas afetariam empregos, investimentos e cadeias de produção nos Estados Unidos.
Lobby legalizado e mercado bilionário nos EUA
Nos Estados Unidos, a atividade é legalizada e exige prestação de contas ao Congresso, o que permite mapear contratos e valores. Em 2024, o gasto total com lobby no país somou US$ 5,13 bilhões, o maior desde 1998, segundo a ONG Open Secrets.
Especialistas afirmam que o setor privado brasileiro percebeu a necessidade de estar presente em Washington para evitar surpresas e reagir mais rápido a medidas comerciais. Para empresas exportadoras e entidades setoriais, o lobby passou a ser uma peça estratégica para preservar mercados, investimentos e competitividade em meio à escalada das tensões comerciais. (com informações da Agência Estado)