A saga de Ivan Botelho na Energisa
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Por Adriano Pires - Um dos grandes empresários brasileiros que precisam ser celebrados em vida, Ivan Botelho é uma dessas figuras raras em que o homem e a empresa caminham juntos, quase sem fronteiras.
Conheci Ivan ao retornar de um doutorado na França no final dos anos 80, quando fui procurado pelo Instituto Liberal, um think tank que ele apoiou desde o começo.
Nascido no seio de uma família que ajudou a construir a história da eletricidade no interior do Brasil, Ivan herdou, mais que um sobrenome, um impulso pioneiro.
Desde cedo, entre a influência técnica do pai e a sensibilidade da mãe, formou-se um engenheiro curioso, inquieto e sedento por desafios.
Buscou formação no exterior e retornou ao Brasil disposto a aplicar com pragmatismo o que aprendeu. O resultado é a Energisa, hoje uma holding que vale R$ 25 bilhões na Bolsa e é dona de nove distribuidoras estaduais, um negócio de transmissão e uma incursão recente no gás.
Os detalhes dessa trajetória emergem agora em "A jornada da Energia para o futuro", baseado em depoimentos de Ivan ao jornalista Plínio Fraga. (Compre aqui)
Hoje com 92 anos, Ivan começou sua história empresarial na base, nas linhas, nas usinas, no contato direto com a operação. A partir dali, esse mineiro de Leopoldina não apenas acompanhou a transformação da empresa; ele a impulsionou – introduzindo inovações, modernizando processos e ajudando a moldar uma nova visão para o setor elétrico.
Mas é no detalhe humano que sua história ganha força. Nos causos que conta, como o episódio em que a demonstração do uso de luvas de segurança terminou com o desligamento de toda a cidade, ou a história da instalação da primeira célula fotoelétrica do País, que permitia acender a iluminação pública automaticamente.
Abaixo, o Brazil Journal publica um trecho do livro narrando a compra do Grupo Rede, que mudou a Energisa de patamar.
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No subsolo de um hotel cinco estrelas em São Paulo, naquele 5 de julho de 2013, o clima se tornara mais tenso com a saída barulhenta da CPFL. A sala sem janelas estava repleta de executivos, advogados e representantes da indústria elétrica divididos entre atordoados e ansiosos. O suspense rondava a assembleia de credores do Grupo Rede que caminhava para definir o embate.
À medida que os votos dos credores eram declarados em voz alta, o inesperado aconteceu. Os credores aprovaram a proposta da Energisa. O azarão vencera. A perplexidade tomou conta da sala.
A companhia, comandada nessa operação por Ricardo, Maurício Botelho, Claudio Brandão e Alexandre Nogueira [hoje o CEO da Light], havia conseguido materializar uma estratégia meticulosa, que exigiu muitos anos de preparação, e estudos nas sessões de planejamento estratégico mas que teve contar com lances de ousadia típica dos azarões.
A corporação captou R$ 1,5 bilhão em debêntures para financiar as obrigações do plano de recuperação judicial, o que aumentou o endividamento. A relação dívida líquida/EBITDA era de 3,1 vezes, o que indicava um nível alto de endividamento.
A proposta vencedora comprometeu-se a pagar R$ 1,95 bilhão de reais aos credores e investir outro R$ 1,1 bilhão nas distribuidoras combalidas do Grupo Rede, prometendo transformar o caos em eficiência.
Maurício Botelho, dono do caixa e um dos elaboradores da proposta financeira, explicou a vitória. “Oferecemos um desconto de 75% na dívida, o que foi mais vantajoso em comparação com a concorrência, que ofereceu 85% de desconto”, resumiu. Definiu o processo judicial como crítico, momento em que a pressão era palpável. “Apresentamos à Justiça um argumento básico: o senhor juiz, se o senhor aceitar a apreciação de uma proposta melhor, não é melhor pro credor, e para a sociedade como um todo?”
A Energisa desbancara a CPFL e a Equatorial – que, juntas, faturavam 6,5 vezes mais do que ela.
A oferta de aquisição, no valor de R$ 3,2 bilhões, colocava mais dinheiro no bolso dos detentores da dívida do Rede. Mesmo assim, alguns credores entraram com recursos no Tribunal de Justiça de São Paulo contra as condições de reestruturação dos seus créditos. A nova gestora precisou lidar com esse grupo de credores insatisfeitos, o que adicionou mais complexidade ao processo.
Conseguiu também conquistar a confiança da ANEEL, que exigia um verdadeiro plano de recuperação, além do plano financeiro. A Energisa mergulhou após a Assembleia profundamente nas companhias e, após 90 dias de trabalho intenso, apresentou um diagnóstico detalhado de 6.000 páginas. Esse esforço resultou na aprovação da ANEEL, marcando um passo importante na sua recuperação. Maurício destacou a importância de que o plano de recuperação permitisse melhorar seus indicadores de qualidade ao longo de um período de quatro anos. “Precisávamos de tempo para consertar os problemas que encontramos”, disse ele.
Assim se concretizara com sucesso, apesar da turbulência, uma das mais significativas operações no setor elétrico brasileiro. A aquisição do Grupo Rede pela Energisa mudou o panorama da distribuição de energia no país. Sinalizava de forma clara sua capacidade de lidar com desafios complexos e potencializar suas operações.