‘Guerra pode ser desinflacionária para alimentos no Brasil no curto prazo’
Para economista-chefe do Morgan Stanley, Ana Madeira, menor escoamento de carnes a Oriente Médio tende a elevar oferta doméstica
Por Gustavo Nicoletta e Renata Pedini - O atual cenário geopolítico pode aliviar a alta nos preços de alimentos no Brasil no curto prazo, ainda que o efeito líquido do conflito, no médio prazo, seja inflacionário. A avaliação é da economista-chefe do Morgan Stanley para Brasil, Ana Madeira. Em entrevista à Broadcast, ela afirma que a dificuldade de escoar exportações de carnes para o Oriente Médio tende a aumentar a oferta no mercado doméstico.
A economista espera aceleração no ritmo de cortes da taxa Selic para 0,50 ponto porcentual a partir de junho, levando a taxa a 12% ao final de 2026, abaixo do consenso de mercado (12,25% no último boletim Focus). Confira abaixo os principais pontos da entrevista:
A redução de 0,25 ponto porcentual na taxa Selic na reunião do Copom foi do tamanho certo? Poderia ter sido mais agressiva?
Nossa projeção, já fazia um tempo, era de um corte de 0,50 ponto porcentual. Na última semana, ressaltamos os riscos aumentados para a redução de 0,25 ponto. A volatilidade geopolítica continuou e os riscos inflacionários por conta do preço do petróleo ficaram mais presentes. Achamos que haveria uma discussão válida sobre um começo de ciclo um pouco mais cauteloso. Acabou pesando na decisão o fato de o mercado ter ido para 0,25 ponto.
A decisão do Copom nos levou a revisar toda a nossa projeção. Esperávamos uma Selic de 11,50% no fim deste ano, partindo de cortes de 0,50 ponto desde o início. Com o começo mais brando do ciclo, ajustamos a projeção para a Selic terminal deste ano para 12%, com 0,25 ponto em abril e 0,50 ponto a cada reunião dali até o fim do ano.
O Copom diz que os riscos “se intensificaram” com o conflito no Oriente Médio. Para você, o choque é mais inflacionário ou mais desinflacionário?
O Brasil em específico é um pouco diferente dos outros países. Há um problema de curto prazo, já que 30% de tudo o que é exportado de frango vai para o Oriente Médio e passa pelo Estreito de Ormuz, e 15% mais ou menos de algumas carnes, proteínas, também passam por lá. Considerando isso, o fato de o Brasil enfrentar dificuldade de armazenamento e ter fazendeiros bem endividados, acabará tendo que desovar essa exportação no mercado doméstico. Como a nossa inflação de alimentos representa um pouco mais de 20% da cesta do IPCA, para a inflação é relevante. Assim, no curto prazo, para o Brasil, pode haver impacto desinflacionário. Mas não seria algo que o Banco Central usaria para argumentar pela aceleração dos cortes de juros.
No médio prazo, o impacto mais relevante é o aumento de preços de petróleo. Em 60% da economia os produtos são distribuídos via caminhões, que usam diesel. O impacto da primeira ordem é o aumento dos custos de produção. De segunda ordem é um repasse disso ao consumidor final. No líquido, continua sendo mais inflação para cima do que para baixo.
É possível descartar uma pausa do ciclo de cortes da Selic?
É difícil falar que está descartado dado o que está acontecendo no mundo. Achamos que o Banco Central daria mais peso para continuar cortes no ritmo de 0,25 ponto em vez de simplesmente parar. Se começarmos a ver as expectativas de inflação subindo, não haverá espaço para acelerar esse ritmo.
O Banco Central revisou para cima a projeção de inflação, mas não tanto quanto alguns agentes de mercado esperavam. Ele está subestimando a inflação? Ao mesmo tempo, a estimativa está acima da meta de 3%. Você vê um momento de ancoragem?
O aumento da projeção do modelo do Banco Central foi mais comedido. Prevíamos de 3,4% a 3,5%. Vamos esperar a ata na semana que vem para ter mais visibilidade. Provavelmente a ideia foi suavizar o impacto do preço do petróleo – há um choque de oferta, os preços futuros estão mais comportados, não vamos apresentar uma reação tão explosiva.
Sobre a ancoragem, estamos de acordo com o Banco Central. Ele vinha comunicando que o ciclo seria de calibragem. A taxa Selic ainda permaneceria num nível contracionista. O Banco Central não espera que a ancoragem das expectativas de inflação seja rápida.
Muito da alta das expectativas para os próximos anos inclui um pouco de risco fiscal. Há uma eleição e incertezas sobre qual plano o próximo governo vai apresentar. O mercado não está com apetite para reduzir esse risco. O Banco Central deve ser mais cauteloso, esperar para ver como esse risco se resolve, para depois ter melhor visibilidade sobre onde de fato terminar com a Selic em 2027.
Se as expectativas de inflação do Focus não cederem, até onde o BC consegue cortar juros sem perder credibilidade?
Prevemos alta de 3,9% para o IPCA ao final do ano. A expectativa da Focus agora foi para 4,1%, mas há um evento muito forte [guerra no Irã] que, dependendo de quanto tempo durar, pode mudar de um momento para o outro a expectativa de inflação no longo prazo. Os riscos estão mais para os eventuais cortes a serem feitos no quarto trimestre do que os eventuais cortes a serem feitos no curto prazo. Fico mais preocupada com a nossa expectativa de que os cortes vão continuar no quarto trimestre do que com a de que haverá espaço nos próximos meses para continuar cortando.
Dentro da inflação, uma das questões é serviços. Qual é a sua projeção para a inflação desse segmento e quais indicadores vão dizer que ele convergirá à meta?
O consumo passa uma sensação de repique na margem por causa dos indicadores econômicos que surpreenderam para cima. Mas desde o ano passado esses indicadores continuam mostrando arrefecimento. É menos forte que o esperado, mas neste momento não vemos dados apontarem para uma reaceleração da atividade em 2026 vis-à-vis 2025. Isso dá espaço para o Banco Central fazer algum tipo de calibragem. Outra questão é a inflação de serviços. Prevemos 5,3% para o final do ano. É uma queda ante o ano passado, mas não muito grande. Se houver algum tipo de surpresa, não será tanto nessa variável. É mais noutro tipo, como por exemplo não duráveis, alimentos, tradables [itens que podem ser importados], por conta de uma moeda mais forte. Serviços acabam sendo menos voláteis e começam a indicar estagnação. A inflação do setor começou a dar um platô, e a lógica seria começar a ver uma queda.
Então há um risco baixo de a desaceleração da atividade ficar menos intensa do que o Banco Central espera?
Nossa previsão é de crescimento de 2% neste ano. Os riscos a essa estimativa estão bem balanceados. Sempre estivemos mais construtivos sobre a atividade do que o mercado. Este cenário, com inflação de 3,9% em 2026, continua coincidindo com um juro que termina o ano em 12%, um nível bem contracionista.
A premissa de câmbio usada pelo Banco Central melhorou no cenário de referência. Você interpreta essa melhora como “janela técnica” ou como um sinal de menor estresse?
Investidores consideram o carry oferecido pelo Brasil simplesmente muito atrativo, inclusive se ajustado para a volatilidade. A expectativa é de que a volatilidade no Brasil aumente com as eleições, mas provavelmente só na segunda metade do ano. Tendo isso em conta e considerando que, mesmo cortando juros, o diferencial vai permanecer bem grande ante os EUA, isso deve continuar a atrair demanda para o real. Não é uma melhora estrutural no sentido de o País estar melhor como um todo – para isso precisa haver visibilidade de um plano fiscal. É mais uma janela de oportunidade neste momento.
Qual nível ou velocidade de depreciação do câmbio mudaria o jogo para o ritmo de cortes da Selic?
É difícil esse olhar para esse nível, mas no final do ano passado a expectativa era um câmbio perto de R$ 5,30, R$ 5,40, e hoje está em R$ 5,20. Até que volte aos números anteriores talvez ainda exista uma margem para o Banco Central ficar relativamente confortável.
Qual é o preço que vocês projetam para o petróleo?
As nossas premissas para Selic, IPCA e PIB levam em conta um valor de US$ 70 por barril de Brent no final do ano. Antes era US$ 65.
Sobre a sucessão no Banco Central, há duas cadeiras vazias na diretoria. O mercado tem receio de um Copom só de indicados pelo presidente Lula?
Receio tem, mas hoje em dia é um pouco menor do que há um ano. Temos visto nomes indicados pelo governo fazendo uma política monetária muito independente e focada na convergência da inflação. Em muitas ocasiões, inclusive, contrariando um mercado que via espaço para uma postura até mais dovish em relação ao que foi feito.
O Brasil está bem posicionado em relação a outras economias emergentes neste momento em termos de política monetária?
O Brasil está relativamente bem posicionado porque, no meio de tudo que está acontecendo, tem um colchão de juros que ajuda, e uma percepção de uma volatilidade baixa até a gente chegar no segundo semestre. Desaceleração econômica bem leve, ordenada, ausência de ruído fiscal. Tudo isso ajuda. E outra coisa importante: hoje em dia o investidor internacional pensa quem é exportador líquido de petróleo e quem é importador. Antes até de começarmos a olhar os detalhes, o Brasil acaba ficando na caixinha dos que seriam mais resguardados por um tempo.