Mercosul e UE assinam neste sábado maior acordo de livre comércio do mundo

Agricultores e países prometem barrar tratado no Europarlamento

Por ECONOMIA JB

Lula e Ursula von der Leyen falaram sobre o acordo, nessa sexta, no Rio

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Após 25 anos de negociações e em meio a tensões globais, Mercosul e União Europeia assinarão neste sábado (17) um acordo que criará a maior área de livre comércio do mundo, em meio à fúria de agricultores no velho continente e às promessas de resistência por parte de uma minoria de Estados-membros na UE.

O tratado será firmado em uma cerimônia em Assunção, no Paraguai, com a presença dos presidentes de três dos quatro países do Mercosul — Luiz Inácio Lula da Silva será representado pelo chanceler Mauro Vieira — e pelos chefes da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e do Conselho Europeu, António Costa.

Para Von der Leyen, este passo consolida a Europa como um "parceiro confiável", capaz de "traçar seu próprio rumo" e compromissado com a "diversificação do comércio" e a "redução de dependências", em um momento em que a UE vê seu maior aliado, os Estados Unidos, se voltar contra ela.

O acordo também foi bem recebido na América do Sul, onde Lula definiu a parceria como um sinal importante em um "ambiente internacional cada vez mais protecionista e unilateral". No entanto o texto ainda precisa ser ratificado pelo Parlamento Europeu, onde as coalizões se tornaram mais voláteis e imprevisíveis diante das pressões do agro.

Se ratificada, a nova zona de livre comércio, com mais de 700 milhões de habitantes, será a maior do gênero no mundo, segundo a Comissão Europeia. Estima-se que o acordo possa aumentar as exportações anuais da UE para os países do Mercosul em até 39%, ou 49 bilhões de euros, o que poderia sustentar mais de 440 mil empregos em toda a Europa.

Alternativa aos EUA

No ano passado, a disputa comercial da UE com os Estados Unidos deu novo impulso a um processo que parecia estagnado, com os países europeus querendo demonstrar que o comércio justo não é coisa do passado.

Friedrich Merz, chanceler da Alemanha, cuja indústria é defensora ardorosa do acordo, saudou a aprovação como um "marco na política comercial europeia e um sinal importante de nossa soberania estratégica e capacidade de ação".

Contudo a Comissão Europeia, que negociou o texto, não conseguiu conquistar todos os Estados-membros do bloco. A influente França, onde políticos de todo o espectro veem o acordo como um ataque ao poderoso setor agrícola do país, liderou uma tentativa de afundá-lo e promete se esforçar para barrar o tratado no Europarlamento.

Os críticos temem que agricultores europeus sejam prejudicados por um fluxo de mercadorias mais baratas, incluindo carne, açúcar, arroz, mel e soja, proveniente do gigante agrícola Brasil e de seus vizinhos. Ao longo da semana, diversas cidades na UE, com destaque para Paris, registraram grandes marchas de tratores para protestar contra o acordo.

A ministra da Agricultura francesa, Annie Genevard, argumentou que a aprovação pelos Estados-membros não era "o fim da história", uma vez que o Parlamento Europeu ainda terá de votar o texto. Ela também destacou que "a raiva dos agricultores é profunda e que suas demandas são legítimas", enquanto o governo da Polônia promete acionar o Tribunal de Justiça da UE — além desses dois países, Áustria, Hungria e Irlanda também votaram contra.

Nesse contexto, o aval da Itália foi crucial para garantir maioria qualificada entre os Estados-membros, após a premiê Giorgia Meloni ser convencida por um robusto pacote de garantias apresentado por Bruxelas, incluindo a possibilidade de suspender as isenções tarifárias caso haja uma variação superior a 5% nas importações e nos preços de produtos agropecuários do Mercosul, como carne bovina, aves, arroz, mel, ovos, alho, etanol e açúcar.

Roma também foi tranquilizada pelas concessões obtidas nas últimas semanas, incluindo um fundo de compensação de 6,3 bilhões de euros, controles fitossanitários aumentados, o compromisso de não aumentar os preços dos fertilizantes e a possibilidade de alocar mais 45 bilhões de euros do próximo orçamento comunitário para a Política Agrícola Comum (PAC) da UE.

Além disso, o acordo vai tutelar mais de 340 produtos alimentares tradicionais da União Europeia com indicação geográfica protegida, outra demanda da Itália ao longo das negociações. (com Ansa)

'Fazendo história'

"A União Europeia e o Mercosul farão história, em Assunção, ao criar uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, reunindo cerca de 720 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto de 22 trilhões de dólares. Essa é uma parceria baseada no multilateralismo”, afirmou o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, nesta sexta-feira (16), no Palácio do Itamaraty, no Rio de Janeiro. 

O pronunciamento de Lula aconteceu logo após a reunião com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Na pauta do encontro, estiveram temas da agenda internacional e os próximos passos do acordo. Do lado do Mercosul, os quatro membros plenos originais – Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai – são signatários do acordo, enquanto os 27 membros da União Europeia (UE) irão aderir do lado europeu.

O presidente também disse que mais comércio e investimentos significam novos empregos e oportunidades para os dois lados do Atlântico. “Já somos grandes provedores de produtos agropecuários para a União Europeia, mas não nos limitaremos ao eterno papel de exportadores de commodities. Queremos produzir e vender bens industriais de maior valor agregado”, destacou.

"Já somos grandes provedores de produtos agropecuários para a União Europeia, mas não nos limitaremos ao eterno papel de exportadores de commodities. Queremos produzir e vender bens industriais de maior valor agregado" (Lula)

Resultado do esforço de mais 25 anos de negociações, o Acordo de Parceria Mercosul-União Europeia faz parte de uma estratégia de expansão da rede de pactos comerciais do Brasil e do Mercosul. A decisão amplia de forma significativa o acesso de produtos sul-americanos ao mercado europeu, com a eliminação de tarifas sobre aproximadamente 95% dos bens importados pela União Europeia, em diferentes prazos.

DEMOCRACIA — Em artigo publicado em mais 26 países nessa sexta-feira sobre o acordo, o presidente Lula afirmou que o pacto promove a associação entre duas regiões que compartilham valores e interesses comuns, como a defesa da democracia e do multilateralismo e a promoção dos direitos humanos. O Acordo estabelece diversos mecanismos de cooperação política entre o Mercosul e a União Europeia, espaços de diálogo que reforçarão a colaboração em debates globais que contribuem para uma ordem internacional mais justa e pacífica. Em seu discurso, o presidente reiterou essa mensagem.

“Este acordo de parceria vai além da dimensão econômica. A União Europeia e o Mercosul compartilham valores como o respeito à democracia, ao Estado de Direito e aos direitos humanos. Mais diálogo político e mais cooperação vão garantir padrões elevados em respeito aos direitos trabalhistas e à defesa do meio ambiente”, enfatizou o presidente Lula.

MENSAGEM — Em discurso após o do presidente Lula, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ressaltou que o acordo entre o Mercosul e a UE promove benefícios mútuos: “Sejam bem-vindos ao maior mercado e à maior área de livre comércio do mundo”, afirmou von der Leyen. “Isso é uma área de parceria, de abertura, isso é o poder da amizade, do entendimento entre povos, entre regiões e entre oceanos. E é assim que a gente cria a prosperidade verdadeira”.

Von der Leyen acrescentou que essa prosperidade é compartilhada. “Nós concordamos que o comércio internacional não é um jogo de soma zero. Nós realmente concordamos que todo mundo deve se beneficiar com novos empregos e mais oportunidades para o setor empresarial dos dois lados”, disse.

O Acordo incorpora compromissos inovadores, equilibrados e coerentes com os desafios do contexto econômico internacional. Em um cenário internacional que valoriza o Estado como indutor do crescimento e da resiliência econômica, os dois blocos criam oportunidades estratégicas para ampliar o comércio e os investimentos bilaterais. Essa abertura ocorre de forma coordenada, preservando a capacidade dos governos de implementar políticas públicas em áreas essenciais, como saúde, emprego, meio ambiente, inovação e agricultura familiar.

"Isso é uma área de parceria, de abertura, isso é o poder da amizade, do entendimento entre povos, entre regiões e entre oceanos. E é assim que a gente cria a prosperidade verdadeira"
Ursula von der Leyen
Presidente da Comissão Europeia


ACORDO — O Acordo de Parceria integrará dois dos maiores blocos econômicos do mundo. Juntos, o Mercosul e a União Europeia reúnem cerca de 718 milhões de pessoas e Produto Interno Bruto (PIB) de aproximadamente US$ 22,4 trilhões de dólares. Quando examinado pelo volume de comércio, trata-se, ao mesmo tempo, do maior acordo comercial a ser firmado pelo Mercosul e um dos maiores dentre os assinados pela UE.

A presidente da Comissão Europeia disse que o acordo vai multiplicar as oportunidades de mercado. “Esse acordo vem em boa hora, pois vai multiplicar as oportunidades em relação ao que foi visto antes, com acesso mútuo a mercados estratégicos, regras claras e previsíveis, padrões também semelhantes, além de cadeias de abastecimento que acabam se tornando verdadeiras rodovias que nos levam ao investimento”, afirmou.

Para o Brasil, o Acordo possui valor estratégico em diversos sentidos. A UE é o segundo principal parceiro comercial do Brasil, com corrente de comércio de bens, em 2025, de aproximadamente US$ 100 bilhões. O Acordo deverá reforçar a diversificação das parcerias comerciais do Brasil, além de fomentar a modernização do parque industrial brasileiro com a integração às cadeias produtivas do bloco europeu.

SUSTENTABILIDADE — O Mercosul e a União Europeia reconhecem que os desafios do desenvolvimento sustentável são responsabilidade de todos, respeitando as diferenças e os níveis de responsabilidade de cada país. O acordo reúne compromissos construídos de forma colaborativa e equilibrada, que alinham o comércio internacional à promoção do desenvolvimento sustentável de maneira concreta.

Com base nas credenciais ambientais do Brasil, o acordo estimula a integração das cadeias produtivas como caminho para a descarbonização da economia e incentiva a concessão de tratamento diferenciado ao comércio exterior de produtos sustentáveis. A União Europeia também se compromete a oferecer um pacote inédito de cooperação para apoiar a implementação do acordo.

PRÓXIMOS PASSOS — Após a assinatura, terão início os trâmites internos necessários para a entrada em vigor de ambos os acordos. Tal processo envolve:

Internalização: os acordos seguirão os processos internos de aprovação das partes. Enquanto nos países sul-americanos o trâmite é o mesmo para os dois instrumentos, a legislação europeia determina procedimentos distintos para cada um: no caso do acordo comercial, basta a aprovação apenas do Parlamento Europeu. No Brasil, o processo envolve a aprovação do Congresso Nacional.

Ratificação: as partes notificam uma à outra sobre a conclusão dos respectivos trâmites internos e confirmam, por meio da ratificação, seu compromisso em cumprir os acordos.

Entrada em vigor: os acordos entrarão em vigor e, portanto, produzirão efeitos jurídicos no primeiro dia do mês seguinte à notificação da conclusão dos trâmites internos. Está prevista, nos dois acordos, a possibilidade de vigência bilateral, bastando que a União Europeia e o Brasil – ou qualquer outro país do Mercosul – concluam o processo de ratificação para a entrada em vigor bilateralmente entre essas partes.

ARTIGO — No artigo publicado nesta sexta-feira, o presidente Lula afirma que o acordo Mercosul-UE é a resposta do multilateralismo ao isolamento. O texto foi publicado em jornais de países do Mercosul e da União Europeia.

O artigo afirma que a colaboração entre blocos e países pode promover benefícios comuns. “Os blocos encontraram convergências mesmo diante de visões distintas, mostrando que a cooperação é muito mais vantajosa e eficaz do que a intimidação e o conflito”, afirmou o presidente no texto. (com Assessoria de Comunicação da Presidência da República)