ECONOMIA
Se o Itaú não controla os diretores, o maior banco privado do país pode garantir as contas de clientes?
Por GILBERTO MENEZES CÔRTES
gilberto.cortes@jb.com.br
Publicado em 08/12/2024 às 15:14
Alterado em 08/12/2024 às 15:19

Os bastidores do Itaú Unibanco revelam uma crise de confiança em sua diretoria executiva que assusta os clientes do maior banco privado do país, com ativos de R$ 3 trilhões e gestão de R$ 1,986 trilhão em fundos de investimentos e carteiras de investidores. Apesar do lucro de R$ 10,6 bilhões no 3º trimestre e de R$ 30,5 bilhões até setembro, os clientes desconfiam da eficácia dos controles do Itaú.
É que, um dia após anunciar, em 4 de dezembro, a demissão do diretor de Marketing, Eduardo Tracanella, por uso indevido do cartão corporativo, o banco convocou uma Assembleia Geral Extraordinária, dia 5 de dezembro para anular decisões tomadas de 2021 a 2023 pelo ex-diretor financeiro Alexsandro Broedel, que havia deixado o Itaú em julho para assumir funções no Santander da Espanha. Bem que o banco tentou esconder o escândalo.
Em vez de um comunicado em Fato Relevante ao mercado, via Comissão de Valores Mobiliários (CVM), pôs discreto aviso no jornal “O Estado de S. Paulo” de sábado. E as pesadas acusações contra Alexsandro Broedel, por suposto conflito de interesses, atingiram a reputação de antigo sócio, o professor Eliseu Martins, da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da USP, um dos maiores especialistas em contabilidade do país, e ganharam manchetes.
O Itaú está contratando escritório de advocacia para entrar com uma ação civil de reparação de danos contra seu ex-CFO, Alexsandro Broedel Lopes, e o sócio, Eliseu Martins. Martins, que já foi diretor da CVM, deixou o quadro de fornecedores do banco após a investigação.
A versão do Itaú
O Itaú disse que uma investigação interna, entre agosto (Broedel deixou o banco em julho) e novembro, mostrou irregularidades na conduta do executivo que violam o código de ética da instituição. Segundo o Itaú, de junho de 2019 a junho de 2024, Broedel contratou 40 pareceres da empresa Care, cujos sócios são Eliseu Martins e seu filho Eric Martins. O valor total foi de R$ 13,26 milhões. E que mesmo atuando como diretor financeiro, Broedel teria emitido pareceres contábeis a outras empresas.
As investigações do Itaú descobriram que Eliseu Martins e Broedel são sócios, desde 1998, em outra empresa, a Broedel Consultores. Mas o ex-CFO não havia informado ao Itaú este fato, nem seu relacionamento com Martins, como determinam os controles do banco para que sejam cumpridas exigências regulatórias. As informações reunidas pelo Itaú foram repassadas ao Coaf, ao Banco Central e à CVM, que podem decidir investigar o caso e, eventualmente, inabilitar os dois de atuarem no mercado financeiro.
É que a governança interna do banco submete todos os executivos a um questionário anual que, entre outros pontos, pergunta se eles mantêm sociedades com fornecedores da instituição. Caso tenham, as regras do Itaú determinam que os executivos não podem decidir sobre o relacionamento do banco com seus sócios. Há exceções para serviços "personalíssimos", como a contratação de pareceristas específicos, caso em que se enquadraria Martins.
Depois da AGE, o Itaú protocolou na noite de sexta-feira um "protesto interruptivo de prescrição”, medida judicial para impedir que medidas tomadas em até três anos não prescrevam. Na mesma AGE ficou deliberado que as contas de Broedel, entre 2021 e 2023 sejam anuladas, o que abre caminho para a posterior cobrança judicial de valores considerados irregulares. Diante do recesso do Judiciário, isso só deverá ser feito em janeiro.
Paralelamente, para assegurar não haver impactos no balanço, o Itaú pediu à sua auditoria independente, a PwC, que avaliasse novamente os balanços do período. Não foram encontradas inconsistências, e o banco afirmou, através de nota, que não há impacto nos resultados. Os valores envolvidos no suposto conflito de interesses já haviam sido contabilizados e são considerados pequenos diante do tamanho do balanço.
A reação dos acusados
Alexsandro Broedel, através de sua assessoria, disse que as acusações do Itaú são “infundadas”, e que Martins era fornecedor do Itaú há décadas, desde antes de o executivo entrar para a diretoria. Ele afirmou ainda que "causa profunda estranheza" que o Itaú denuncie as supostas condutas impróprias após ele deixar o banco para assumir uma posição global em um de seus principais concorrentes, e que tomará as medidas judiciais cabíveis
Em nota distribuída no sábado, o auditor Eliseu Martins manifestou seu “protesto, de forma veemente, contra as declarações e decisões do Itaú. Tenho uma vida profissional e acadêmica com conduta que pode ser verificada com centenas ou milhares de pessoas”. Ele explicou que os trabalhos prestados para a instituição foram de pareceres técnicos e de consultoria, e que todos os serviços foram entregues, com exceção de quatro que teriam sido pagos antecipadamente. Ele também admite que ele e Broedel [que se conheceram como professor e aluno da FEA, onde Broedel também conquistou cátedra] “trabalharam em conjunto na elaboração de pareceres enquanto o colega era executivo do banco, mas apenas para terceiros”.
Itaú tem semana tumultuada
As acusações do Itaú contra o ex-diretor financeiro fecham uma semana bastante tumultuada para o banco. Na quarta-feira, a companhia anunciou a demissão do diretor de Marketing, Eduardo Tracanella, por uso indevido do cartão corporativo. Segundo o Itaú, o executivo teria usado o cartão para gastos pessoais, o que representaria “quebra de confiança”. Essas despesas foram detectadas em um processo chamado de “escaneamento”, no qual o compliance da empresa analisa eventuais gastos para assegurar que estejam de acordo com suas políticas e diretrizes.
Após o registro de gastos indevidos, uma investigação interna foi instaurada – nenhuma outra irregularidade envolvendo Tracanella foi encontrada. Apesar de o mau uso do cartão corporativo ser uma quebra das regras de compliance, não se trata de crime.
Em palestra em seminário sobre marketing, na primeira semana de novembro, antes de ser demitido, Tracanella afirmou que o bom do marketing é o que fica dos erros e acertos, e ressaltou que marcas falham. “À frente do Itaú já errei muitas vezes e o que ficou de aprendizado é: erre rápido e com coerência, aprenda e corrija”, aconselhou. No Itaú, quem errou dançou.
Troca-troca com o Santander
É curioso que o substituto de Tracanella será Juliana Cury, que exercia a mesma função no Santander Brasil e está cumprindo quarentena de seis meses. Mas Juliana conhece a fundo a cultura do Itaú Unibanco, onde já havia trabalhado por 12 anos.
Quanto a Broedel, que deixou o Itaú em julho para assumir alto cargo da Tesouraria do Santander na Espanha, não se sabe ainda dos impactos na alta direção do banco de Ana Botin, sobre a divulgação da ação judicial do Itaú, protocolada na noite de sexta-feira (6) no TJ-SP.