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Bradesco vê impactos do El Niño na cana de açúcar e na economia brasileira em 2024

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El Niño
Pixabay

Em artigo da economista Priscila Trigo, o Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco já está avaliando os efeitos climáticos e os impactos econômicos que o El Niño mais ativo, com aquecimento das águas dos oceanos Pacífico e Atlântico, e chuvas acima da média no Sul do Brasil, pode causar da agricultura e na economia brasileira em 2024.

Maior banco privado brasileiro com atuação da agricultura, o Bradesco lembra que o último El Niño forte, que ocorreu em 2015-16, contribuiu para a quebra global de grãos e açúcar, pressionando as cotações das commodities agrícolas e a inflação dos alimentos. Mas no El Niño de 1997-98, também forte, a produção global de grãos cresceu, mas também houve perdas na safra de açúcar. Como criança travessa, o El Niño não tem comportamento padrão.

Para o Bradesco, os primeiros efeitos são as chuvas acima da média no sul do Brasil. Normalmente, essa anomalia climática é associada a safras cheias nas Américas e perdas na Ásia e Austrália, produzindo queda das cotações de grãos e alta nas de açúcar e café. No entanto, quando o fenômeno tem intensidade forte, os efeitos não são tão claros.

Apesar da diferença entre 2025-16 e 1997-98, o Bradesco sublinha que as consequências nas safras foram muito semelhantes a eventos típicos de El Niño, levando a alívio de inflação de alimentos no mundo. O banco pondera que a intensidade do atual fenômeno ainda é incerta e é bastante precoce afirmar que será muito forte. Mas, a rápida aceleração da temperatura das águas do Pacífico traz um risco para a ocorrência de um super El Niño.

Macaque in the trees
. (Foto: Bradesco)


A mecânica do El Niño

El Niño é uma anomalia que altera as condições climáticas ao redor do globo. O fenômeno é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do oceano Pacífico Equatorial que altera o padrão de circulação atmosférica, a distribuição de umidade, temperatura e precipitação em várias regiões do planeta. Ele ocorre a cada 2-7 anos e tem duração entre nove meses a um ano e meio (18 meses).

Entre as mudanças globais na produção agrícola, o Bradesco destaca o tempo i) mais seco no sul da Ásia, Austrália e norte e nordeste no Brasil; ii) mais chuvoso no oeste da América do Norte e sul da América do Sul, incluindo o sul do Brasil e iii) mais quente no centro do Brasil.

O El Niño atual deve se estender até o 1º semestre de 2024, com efeitos relevantes na safra agrícola de 2023/24. Se a intensidade for de fraca a moderada, podemos esperar boa produção de grãos de forma geral, com aumento da safra norte americana, em desenvolvimento, e na América do Sul, que será plantada agora no 2º semestre, observa o Bradesco. O risco climático decorrente do El Niño ficaria na produção de trigo e arroz na Ásia, açúcar na Índia e café no Vietnã (o 2º maior produtor de café do mundo, superado pelo Brasil, e líder no café robusta).

O Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) estima um volume crescente para a safra de soja, milho, trigo e arroz, que juntos devem acrescentar 124,1 milhões de toneladas (alta de 4,4% após queda de 1,8% na safra de 2022/23). O departamento ainda estima crescimento de 6% da produção global de açúcar e de 2,5% da safra de café.

Risco de impacto forte

Se a intensidade desse El Niño passar para forte no final deste ano, entretanto, o efeito pode ser diferente. Os últimos dois fenômenos fortes tiveram impactos distintos: em 1997-98, a produção global de grãos cresceu 2,6% e a de açúcar 0,9%. No Brasil, a produção de grãos recuou, mas foi insuficiente para limitar a expansão global. Com isso, a inflação de alimentos no mundo recuou 8,7%, puxado por açúcares e cereais.

A trajetória de queda apontada pelas cotações futuras de grãos, segundo o Bradesco, reflete essa expectativa. Para o açúcar, o risco de perdas de safra na Índia por conta de seca e a mudança da política de biocombustíveis naquele país mantêm as cotações futuras mais elevadas neste ano. Neste caso, o Bradesco vê risco de impactos semelhantes aos registrados em 2015-16.

A produção global de grãos recuou 1,8%, com quebras na Argentina (soja e trigo), no Brasil (milho, feijão e arroz) e Ásia (arroz). A quebra de safra global de açúcar foi ainda mais relevante, com a produção sendo 7,1% inferior à anterior, com perdas em grandes produtores, como Brasil, Europa, China e Índia. Nesse ambiente, os estoques globais recuaram significativamente, elevando os preços internacionais dessas commodities. A inflação de alimentos, nesse sentido, subiu 9,2%, puxado por açúcares e óleos.

No Brasil, o El Niño de 2015-16 levou a perdas relevantes de safra, com o PIB agropecuário caindo 4,9% em 2016 (a inflação de alimentos explodiu 12,03% em 2015 e 8,62% em 2016). O clima chuvoso na região sul do Brasil reduziu o potencial produtivo das lavouras, afetando inclusive arroz, que ficou debaixo d’água. A seca no Norte e Nordeste, tradicional de El Niño na região, foi bastante severa e se espalhou para Mato Grosso e Goiás, estados que atrasaram o plantio de soja em razão do solo seco, prejudicando a produção de milho de segunda safra, que foi sendo gradualmente revisada para baixo. A produção brasileira de grãos recuou 11,3% e a de açúcar, 5,8%.

Como esperado, a safra de grãos no Norte/Nordeste recuou 31,8%. Mas, mesmo no Centro-Oeste, Sul e Sudeste, a safra de grãos registrou queda de 7,3%. Nesse ambiente, os preços de alimentos no domicílio subiram 9,4% em 2016, refletindo a menor disponibilidade global e interna de alimentos. A maior alta de preços foi observada em cereais e alimentos industrializados, que englobam óleos e açúcares.

A diferença foi que na última década a produção de grãos se espalhou pelo Centro-Oeste, e pelo sul do Pará e na região sul do MaToPiBa (Maranhão, Tocantins, Piauí e Oeste da Bahia).

O cenário do Bradesco

No cenário base do Bradesco para 2024, são consideramos impactos do El Niño padrão, mas no caso de um evento muito mais forte, o cenário fica muito mais incerto. Replicando o que aconteceu no último evento forte, a quebra de safra brasileira de grãos pode chegar a 10%, levando à redução de 3,75% do PIB da agropecuária.

“Considerando as perdas semelhantes para cada grão em 2016, mas com a participação da safra 2022/23, a quebra de safra é menor do que os 11% observados em 2016, pois hoje temos uma participação maior de soja, que não registrou queda tão intensa naquele período. E quando poderemos descobrir se a safra de grãos irá encolher? Em 2016, as revisões baixistas para a produção de cereais ocorreram a partir de abril”.

“Nesse cenário, com quebra relevante de safra, a inflação de alimentos no domicílio ficaria entre 8 e 9%. Novamente, os preços de cereais e alimentos industrializados teriam altas mais relevantes, pressionando o índice”.

“Quando comparado ao nosso cenário base para 2024, o impacto direto seria relevante. Projetamos PIB agropecuário crescendo 1,7% em 2024 e inflação de alimentos no domicílio em 4,5%”.

“Assim, esse cenário adverso reduziria nossa estimativa de PIB de 1,5% para 1,1%. Ao mesmo tempo, nossa estimativa para a inflação ao consumidor passaria de 3,6% para 4,3% no próximo ano”.

Entre os efeitos indiretos, podemos elencar i) menor crescimento para os setores de comércio e transportes, segmentos mais ligados à cadeia agrícola; ii) maior inflação de alimentos fora do domicílio; iii) perda de renda agrícola, caso elevação de preços no atacado não compense totalmente a quebra de safra e iv) menor disponibilidade do orçamento familiar devido à pressão de preços de alimentos, que pode levar à redução do consumo de outros bens e serviços.

Macaque in the trees
. (Foto: .)

Vale resgatar que o efeito de um super El Niño não é claro, como afirmamos no início. E se tivermos uma quebra pequena de safra aqui no Brasil, ao mesmo tempo em que outros países compensam nossas perdas? A produção global de grãos cresceria, mantendo preços internacionais bem comportados, assim como observado em 1997-98.

Esse cenário levaria a uma safra agrícola ligeiramente menor do que temos no nosso cenário base (um recuo de 3% da safra de grãos), mas com alívio de preços global se refletindo em inflação de alimentos mais baixa aqui dentro, (em torno de 2%). Neste caso, o crescimento econômico passaria para 1,4% e a inflação ao consumidor para 3,2% em 2024.

 

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