ECONOMIA

Copom sobe Selic a 13,25% (+0,50%, contra 0,75% do Fed) e já anuncia que fará uma alta menor na reunião de agosto

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Por GILBERTO MENEZES CÔRTES
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Publicado em 15/06/2022 às 19:30

Alterado em 16/06/2022 às 07:43

Apesar da decisão do Federal Reserve Bank, o Banco Central dos Estados Unidos, ter surpreendido boa parte do mercado com alta de 0,75 ponto percentual nos juros de curto prazo (“fed funds”) para a faixa entre 1,50% e 1,75% ao ano, o Comitê de Política Monetária do Banco Central não seguiu a marcha do Fed e elevou, por unanimidade, a taxa Selic em 0,50 p.p. para 13,25% ao ano. Mas já adiantou que antevê um novo ajuste, de igual ou menor magnitude para a reunião de agosto (1 e 2 de agosto).

Em nota divulgada após a reunião, o Comitê assinala que “o ambiente externo seguiu se deteriorando, marcado por revisões negativas para o crescimento global prospectivo em um ambiente de fortes e persistentes pressões inflacionárias”. E que “o aperto das condições financeiras motivado pela reprecificação da política monetária nos países avançados, assim como pelo aumento da aversão a risco, eleva a incerteza e gera volatilidade adicional, particularmente nos países emergentes”.

No mercado doméstico, além da surpresa do maior dinamismo da economia, com crescimento acima do esperado pelo Copom, os diretores do Banco Central reconhecem que “a inflação ao consumidor seguiu surpreendendo negativamente. As projeções de inflação do Copom, sem incorporar os impactos das medidas tributárias sobre preços de combustíveis, energia elétrica e telecomunicações (em tramitação) “situam-se em 8,8% para 2022, 4,0% para 2023 e 2,7% para 2024. As projeções para a inflação de preços administrados são de 7,0% para 2022, 6,3% para 2023 e 3,3% para 2024”.

 

Surpresa e incerteza

O Comitê reconheceu que “a incerteza em torno das suas premissas e projeções atualmente é maior do que o usual e cresceu desde a última reunião”. Entre os riscos de alta para o cenário inflacionário e as expectativas de inflação, destacam-se (i) uma maior persistência das pressões inflacionárias globais; e (ii) a incerteza sobre o futuro do arcabouço fiscal do país e políticas fiscais que impliquem sustentação da demanda agregada, parcialmente incorporadas nas expectativas de inflação e nos preços de ativos.

Entre os riscos de baixa, o Copom destacou: (i) uma possível reversão, ainda que parcial, do aumento nos preços das commodities internacionais em moeda local; e (ii) uma desaceleração da atividade econômica mais acentuada do que a projetada.

“Avaliou-se que as medidas tributárias em tramitação reduzem sensivelmente a inflação no ano corrente, embora elevem, em menor magnitude, a inflação no horizonte relevante de política monetária” [para 2023 e 2024, como assinalam várias instituições financeiras e consultorias, quando houver o rebate dos preços em 1º de janeiro].

Diante desse cenário incerto, o Comitê avalia que a conjuntura particularmente incerta e volátil requer serenidade na avaliação dos riscos. Mas asseverou que, “diante de suas projeções e do risco de desancoragem das expectativas para prazos mais longos, é apropriado que o ciclo de aperto monetário continue avançando significativamente em território ainda mais contracionista”. O Comitê enfatiza que “irá perseverar em sua estratégia até que se consolide não apenas o processo de desinflação como também a ancoragem das expectativas em torno de suas metas”.

A questão é que depois de 1° de janeiro, apesar da independência do Banco Central e dos mandatos vigorando para além de 2023, o Conselho Monetário Nacional do novo governo, ou o próprio governo Bolsonaro (em caso da cada vez mais difícil reeleição) pode alterar as metas de inflação para 2023 e 2024, adotando números mais realistas se os preços do petróleo e commodities seguirem em alta.

 

Powell afaga, após pedrada

Nos Estados Unidos, após a surpresa pelo lance agressivo do Federal Reserve (o consenso do mercado era de um aumento de 0,50 p.p.), o presidente do Fed, Jerome Powell explicou que o aumento de 75 pontos como "incomumente alto" [para enfrentar a alta de 1% nos preços ao consumidor em maio que elevou a inflação em 12 meses para 8,6%, maior taxa desde 1981] e abriu a possibilidade de que o BC americano opte por uma elevação de 50 pontos em julho.

Foi a senha para que investidores reajustassem posições e voltassem aos ativos de risco, muito castigados nos últimos dias, com recuperação das bolsas nos Estados Unidos. O índice Dow Jones da Bolsa de Nova Iorque fechou em alta de 1%, o S&P 500, de 1,46%, e o Nasdaq de 2,50%.

No Brasil, o Ibovespa se recuperou após 8 pregões de baixa e subiu 0,73%. Já o real se recuperou e o dólar caiu 2%. Resta saber se os investidores vão ficar tranquilos com a postura do Copom. Se o dólar voltar a subir, (com o petróleo ainda em alta) aumentam as pressões sobre os reajustes de combustíveis da Petrobras, o que anularia boa parte do esforço de redução via baixa de tributos.

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