Risco de inflação acima do teto da meta em 2023 toma corpo em expectativas do mercado

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Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Credit...Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Cícero Cotrim e Bárbara Nascimento - A escalada da inflação e as sinalizações do Banco Central (BC) de que o ciclo de aperto de juros está chegando ao fim acenderam um alerta para o processo de desinflação esperado à frente. Depois de darem como perdido o alvo de 2022, economistas do mercado já falam de um cenário em que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) pode ficar acima do teto também em 2023, consolidando o pior triênio para a inflação do País desde 2001-2003.

Esse quadro - colocado como risco de cauda por alguns economistas desde meados de abril - ganhou força no início de maio, quando o BNP Paribas incluiu no seu cenário-base uma inflação de 5,0% em 2023 - maior do que o teto da meta, de 4,75%. No dia 10, foi a vez de outro estrangeiro, o Credit Suisse, passar a prever uma inflação acima do limite superior do alvo do BC no ano que vem, de 5,10%.

As revisões dos bancos deram a largada para o mercado. No levantamento especial feito pelo Projeções Broadcast devido à paralisação do boletim Focus, a proporção de instituições do mercado que esperam um IPCA acima do teto da meta no ano que vem saltou de 4% (2 de 46) para 15% (7 de 47) em apenas uma semana, na comparação entre as pesquisas dos dias 6 e 13 de maio.

"A inflação no Brasil atingiu 11,3% em março, bem acima do limite superior da meta de inflação, de 5,0%, e esperamos que fique acima deste teto até maio de 2024, totalizando 38 meses acima da meta, que seria o processo inflacionário mais longo desde o início do sistema de metas, em 1999", afirmaram a economista-chefe do Credit Suisse no Brasil, Solange Srour, e os economistas Lucas Vilela e Rafael Castilho, em relatório.

Entre as casas que revisaram as projeções nas duas últimas semanas está a ASA Investments, que elevou de 4,40% para 4,80% a expectativa de IPCA do ano que vem. O economista Leonardo Costa, que acompanha o tema na gestora, atribui a mudança a uma perspectiva de inflação mais alta em 2022 (8,30% para 9,50%), que deve puxar o resultado do ano que vem via inércia.

"Como a gente está saindo de uma inflação muito alta em 2022, a desaceleração para o ano que vem vai ser considerável e eu imagino que o IPCA vai aterrissar na banda superior. Os motivos são os de sempre: a inércia da inflação é grande, especialmente em grupos como preços administrados e serviços, e acho que deve ter uma resistência maior", diz Costa.

Entre 2022 e 2023, o economista espera arrefecimento dos serviços (7,90% para 5,50%) e um alívio maior dos preços administrados (10,50% para 5,80%), sem novos choques de combustíveis. A desaceleração deve ser mais intensa em bens industriais (9,10% para 3,50%) e alimentação no domicílio (12,30% para 3,50%), mas Costa alerta que ainda há riscos para cima na projeção, que considera bandeira verde de energia no fim do ano.

Um pouco menos pessimistas, Citi e a consultoria Capital Economics acreditam que a inflação pode até se acomodar dentro do intervalo da meta, mas não conseguirá atingir o objetivo central, de 3,25%.

Em entrevista ao Broadcast, o economista-chefe do Citi, Leonardo Porto, diz prever IPCA em 3,90% no ano que vem, mas reconhece que há riscos para cima. "A recente depreciação do real para patamares superiores a R$ 5 vem produzindo elevação dos preços das commodities em moeda doméstica, o que impõe riscos altistas para nossas projeções de inflação", afirma. No mês passado, o Citi já havia destacado, em relatório, não assumir "mais como antes que o Copom vá subir a Selic o quanto for necessário para trazer a inflação para o centro da meta no fim de 2023".

O economista-chefe para mercados emergentes da Capital Economics, William Jackson, também vê a inércia inflacionária como um perigo para a contaminação das expectativas futuras. A consultoria prevê IPCA em 3,70% em 2023. "Mas os riscos ao nosso cenário de inflação estão certamente apontados para cima. Os preços de commodities podem seguir altos por mais tempo do que esperamos. E também há um risco considerável de que as taxas altas de inflação gerem um impulso - ao alimentar salários e preços - e mantenham a inflação mais alta." (com Agência Estado)

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