Pacto Mercosul-UE é muito mais vantajoso para o Brasil do que acordo com a China, afirma economista

Diversificar a pauta de exportações deveria ser uma prioridade, assim como diversificar parceiros, ressalta economista. Atualmente, mais de 80% das exportações brasileiras são concentradas em 3 produtos: soja, minério e petróleo.

 Foto: Reuters/Stringer
Credit... Foto: Reuters/Stringer

No primeiro semestre de 2021, a balança comercial brasileira teve um superávit de US$ 37,5 bilhões (aproximadamente R$ 197,7 bilhões) e a corrente de comércio (exportações mais importações) do Brasil com o mundo foi de US$ 236,1 bilhões (R$ 1,2 trilhão). Desse total, 65% foram de exportações para os cinco grandes parceiros comerciais: China, União Europeia (UE), EUA, Mercosul e Japão, mostra levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

"A China deslocou a UE como destino das exportações brasileiras, tornando-se, desde 2019, o principal mercado externo do Brasil e também origem das importações do país. No primeiro semestre de 2021, o país asiático foi destino de nada menos que 35% dos produtos brasileiros vendidos ao exterior", lê-se no comunicado da CNI.

Pandemia e exportações recordes

O valor de US$ 236,1 bilhões (R$ 1,2 trilhão) da corrente de comércio foi recorde para o período e deve alcançar US$ 500 bilhões (R$ 2,6 trilhões) até o fim do ano, o que será, caso se confirme, também um recorde.

Embora genericamente a pandemia de covid-19 seja negativa para a economia, Fábio Bentes explica que alguns fatores favoreceram o bom desempenho da balança comercial brasileira.

"A conjuntura favoreceu as vendas externas do Brasil de duas formas: o real se desvalorizou bastante desde o início da pandemia [...] e isso estimulou as vendas externas. Um outro ponto positivo foi a variação do preço das commodities [...]. O preço do barril de petróleo internacional ao longo desse ano já subiu 38%", diz Fábio Bentes, economista sênior da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), em entrevista à agência de notícias Sputnik Brasil.

O economista destaca ainda que Ásia e a UE lideram o processo de recuperação da economia global e isso favorece o Brasil. Os países asiáticos absorveram 49% das exportações do Brasil no primeiro semestre.

"[Temos uma] recuperação de parceiros comerciais importantes, um mercado interno ainda pouco aquecido, então boa parte dos produtos que eventualmente poderiam abastecer o mercado interno trazem uma rentabilidade maior para o produtor se essas mercadorias forem exportadas. Essa é uma tendência para este ano, esse dado do primeiro semestre reforça a expectativa de que estamos diante de um ano com superávit recorde no comércio exterior brasileiro."

Fábio Bentes frisa ainda o desempenho do setor agropecuário, que foi o setor que mais avançou desde o início da pandemia na formação do Produto Interno Bruto do país.

De fato, as exportações do agronegócio do Brasil atingiram US$ 11,29 bilhões (R$ 59,5 bilhões) em julho, alta de 15,8% em relação ao mesmo mês do ano passado. Dessa forma, o agronegócio contribuiu com participação de 44,2% nas exportações totais brasileiras em julho, informou o Ministério da Agricultura.

Desafios para expandir

Nos últimos 25 anos, o comércio exterior brasileiro mudou de patamar por causa da demanda da China. Fábio Bentes comenta que o comércio com a China é muito bem definido, com o Brasil exportando basicamente minérios e alguns produtos agrícolas para a China e importando produtos manufaturados. Mas o especialista salienta que o Brasil precisa diversificar a pauta de comércio com a China.

"Porque a China é a economia que mais cresce no mundo neste século [...]. O país está em processo de enriquecimento e um país rico tende a demandar mais produtos manufaturados, mais serviços. A gente teve tempo para construir uma relação comercial robusta com a China, o que precisa agora é pensar menos na quantidade, no montante comercializado, e mais na diversificação desses produtos. A China, seguramente, vai demandar, nos próximos 20 anos, produtos diferentes desses que o Brasil exporta", alerta.

Diversificar a pauta de exportações deveria ser uma prioridade, assim como diversificar parceiros, ressalta o economista. Atualmente, mais de 80% das exportações brasileiras são concentradas em 3 produtos: soja, minério e petróleo.

Outro ponto que o Brasil precisa dar mais atenção é ao acordo UE-Mercosul. O especialista recorda que o bloco europeu é o segundo principal parceiro comercial do país e que, por diversos motivos, como a pandemia do novo coronavírus e declarações e ações do governo Bolsonaro, a negociação se encontra travada.

"Esse acordo Mercosul-UE ficou travado por 20 anos. Tivemos a possibilidade de destravar [...]. Mas infelizmente, por conta da pandemia e das controvérsias do governo brasileiro [...] o acordo não caminhou. Seria importante destravar [...]. É um acordo muito complexo, precisa ser aprovado por cada país-membro da EU e cada país-membro do Mercosul. É uma negociação complexa, mas do ponto de vista de rentabilidade, de retorno dessa negociação, não há dúvida nenhuma de que o acordo com a UE é muito mais vantajoso para o Brasil do que o acordo com a China."

Entraves estatais

Fábio Bentes considera que o Custo Brasil, ou seja, os altos impostos, a infraestrutura obsoleta, a alta carga tributária, a burocracia excessiva para exportar e mesmo para vender no mercado interno são alguns dos problemas que impedem uma maior inserção do país no comércio exterior.

"[Há] problemas estruturais, problemas de logística, falta de competitividade [...]. O Brasil tem um custo de logística muito elevado. A gente costuma dizer que da porteira para dentro da fazenda o Brasil é extremamente competitivo. O grande problema é escoar essa produção, é fazer frente à carga tributária, que é elevadíssima, aumentar a produtividade no Brasil [...]. Produzir no Brasil ainda é muito caro, a não ser que você tenha vantagens competitivas como essas do agronegócio, por exemplo", comenta.

O especialista recorda que está sendo discutida no Congresso uma reforma tributária, que pode resultar em um Estado que tenha um peso menor na vida dos brasileiros, dos empresários e dos exportadores. Atualmente, o "Estado pode ser visto no Brasil como um sócio que detém um terço da riqueza gerada pelos setores econômicos e isso naturalmente tira a competitividade do Brasil [...]. Vai ter que ser uma reforma tributária eficiente para que se estimule mais as exportações no Brasil", afirma.

Fábio Bentes assinala que o Brasil possui um problema histórico de inserção no comércio internacional, uma vez que o país figura entre as 12 principais economias do mundo e responde nos últimos anos por apenas 1,5%, em média, do mercado exterior.

"O Brasil ainda é um país fechado. Não por força de lei, mas força de uma certa ineficiência nas nossas construções internacionais. Importar no Brasil é muito caro, exportar também é caro. Isso dificulta muito o desenvolvimento do nosso comércio exterior."

O economista sênior da CNC conclui citando um exemplo de sucesso que poderia ser replicado:

"A siderurgia brasileira conseguiu entrar nos EUA apesar das naturais barreiras impostas pelo governo local. Porque a siderurgia brasileira é muito produtiva se comparada com a norte-americana. É um excelente exemplo de que, quando o governo brasileiro facilita o acesso a mercados, o setor privado dá conta de se tornar produtivo e conquistar mercados. Não é fácil entrar no mercado norte-americano, existe protecionismo ali também, mas no caso da siderurgia é um caso muito bem-sucedido nas últimas décadas", comemora. (com agência Sputnik Brasil)



A Sputnik Brasil conversou com um economista sobre os impactos da pandemia na balança comercial brasileira, o peso da China e da UE nas exportações, além dos desafios...
Diversificar a pauta de exportações deveria ser uma prioridade, assim como diversificar parceiros