Racionamento, as térmicas ligadas desde 2014 - cadê o planejamento do Ministério das Minas e Energia?

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O nível dos reservatórios do Subsistema Sudeste/Centro-Oeste-EAR está, atualmente em 30,63% tendo apresentado desvio do dia anterior de (-399,3 MWmês de -0,2%), com Energia Armazenada no dia 15/06/2021 de 62.371 MWmês (30,6%). Considerando verdadeira a informação do ONS, estranhamos tratar esse ano como o pior da série de 91 anos. Os números não confirmam. A análise é imprecisa, porque teríamos que projetar o 2º semestre para convalidar a afirmativa.

Pelos dados, o pior ano nessa janela com abertura de 2014 a 2021 é o do ano de 2015 em valores que mostram ser metade da vazão afluente ocorrida nesse ano de 2021, sendo que um total de quatro anos tiveram vazão menor que 2021. Repetindo a análise para fevereiro percebe-se novamente quatro meses com vazão inferior a do de 2021, sendo que fev/2014 foi menos do que a metade registrada em fev/2021. Em março, tivemos 3 meses com vazão inferior a mar/2021, em abril e maio tivemos um mês com vazão inferior a abril/2021 e mai/2021 respectivamente. Somente em junho, ainda com dados incompletos, temos o ano de 2021 como o pior da pequena série de 2014 a 2021.

Considerando a média do período de janeiro a junho, vemos que os anos de 2014 e 2015 apresentaram vazão média inferior ao ano de 2021 e que olhando o SIN – Sistema Integrado Nacional também os anos de 2014 e 2015 foram inferiores ao de 2021. Sendo que o ano de 2017 é levemente inferior ao ano de 2021.

Simulamos o ano de 2021 com o 2º semestre de cada um dos anos de 2014 a 2021 e comparamos a série histórica de cada uma dessas simulações com os 91 anos atrás e ordenamos do menor para o maior e vemos que o ano de 1971, foi o pior ano da série.

Somente com o encadeamento com o 2º semestre de 2020, fica em segundo lugar em termos de vazão média anual. Os demais anos simulados ficam entre a quinta a vigésima terceira posição. Quando olhamos o Sistema Integrado Nacional- SIN, vemos que a situação simulada com o 2º semestre de 2020 não é o pior da série. A pior situação seria a simulação os com os anos de 2017, 2016, 2014, 2018, 2019 e somente depois o ano de 2020.

O significado disso é que, já que o sistema é integrado, se fosse bem administrado e sempre conservador na gestão dos reservatórios, a situação hoje seria melhor, com as fontes de energias renováveis, as UHE´s a fio d'água, a geração eólica, a diminuta geração solar e finalmente as térmicas com prioridade a gás e depois as demais, com certeza. O Clima afeta as vazões e também que os consumidores intensivos aproveitaram o momento e o seu consumo e as lucratividades ampliaram-se, dado a referência dos preços internacionais e a cotação do câmbio.

Os dados mostram que as afirmativas veiculadas nas manchetes não resistem aos números. Então porque chegamos a essa situação?

Má gestão e excesso de otimismo

O controle das águas, a montante nos grandes reservatórios, já deveria estar implantado. O governo deveria ser conservador e eliminar esse modelo onde as UHE´s são as escolhidas para pagar o pato.

O navio se sair do encalhe, com as graças de Deus e a culpa de São Pedro, poderá encontrar um enorme barranco ou um iceberg, e aí irão colocar culpa no projeto liberal. Esse modelo dito liberal não tem nada de liberal - o liberal visa dar oportunidades para todos e o capital escondido das estatais sendo renovado e gerando riquezas. Leiam o livro “Riqueza Pública das Nações, Dag Detter, Stefan Flster”. Não é isso que o governo faz. Concentra capital nas mãos de alguns já conhecidos. Claro que o capital fica nas mãos dos bancos, empoçando-os, e faz a maior desvalorização da história, e a taxa cambial sai de R$3,80 para R$5,80, cerca de 70% e ainda colocou a culpa na pandemia tendo US$360/370 bilhões de Reservas Internacionais.

O nosso queridíssimo mestre, a quem rendo uma singela homenagem, professor Carlos Geraldo Langoni, já está fazendo uma enorme falta porque na sua época de passagem pelo Banco Central, de 1980/83, o dinheiro, ou dólares, apurado no almoço era para pagar o jantar. Agora, com uma faraônica Reserva Internacional deixaram contaminar o ambiente interno. Com toda a tecnologia aprendida, com enormes instrumentos de swaps e outros deixou que os preços de todas as mercadorias básicas disparassem em reais pelo seu vinculo ao dólar, dado a escassez mundial de alimentos, matérias primas e água.

É sim - a água - e aí verifica-se que não se tem um modelo para cobrar a água por todos os usos consultivos ou não consultivos. A dádiva de Deus, dar de graça ao país a maior quantidade de água potável no mundo está sendo desperdiçada e ainda deixam ser contaminadas pelos esgotos despejados pelas companhias de saneamento que as coletam, cobram mas não tratam.

Uma solução surgirá e quem pagará a conta dos erros? Devem se espelhar na China, que sofre hoje racionamento em várias regiões. E os chineses são os que melhor aproveitam a fragilidade atual de não modelar e faltar o custo eficiente d`água para todos os seus usos e segmentos. Não pode ser ligar térmicas ineficientes, caras, e deixar as fontes de energia renováveis em sofrível expansão. Os ativos não estavam e não estão amortizados e assim não cabe nova outorga.

* Engenheiro elétrico (IME) e Doutor em Economia (EPGE/FGV)

 

Vazões médias afluentes de 2014 a 2021 de janeiro a junho (MW média, bruta)

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. (Foto: Reprodução)



Linha de transmissão de energia que liga a Hidrelétrica de Belo Monte ao Sudeste do País (arquivo)
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