Demitido por Bolsonaro, presidente da Petrobras defende alta nos preços dos combustíveis

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Foto:Reuters / Sergio Moraes
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O presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, disse nesta quinta-feira que garantirá uma transição tranquila para seu sucessor, um general aposentado escolhido pelo presidente Jair Bolsonaro, mas reiterou sua posição de que a estatal deve igualar o combustível a aumentos internacionais de preços em vez de mantê-los artificialmente baixos.

“Preços abaixo do mercado internacional geram consequências negativas”, disse Castello Branco, que tem 76 anos e se veste normalmente de maneira conservadora, mas que nesta quinta-feira vestiu uma camiseta visivelmente gasta com o slogan do metrô londrino “Mind the Gap”.

“Mind the Gap” também foi um slogan adotado pela Petrobras em 2019 para se referir à sua ambição de fechar a lacuna de desempenho com as maiores empresas de petróleo e gás do mundo.

Analistas disseram que a diferença só deve aumentar em meio à interferência do populista presidente Bolsonaro, que expulsou Castello Branco na semana passada em uma discordância sobre preços.

Recuando ainda mais de uma política única de "intervenção" em relação às empresas estatais, Bolsonaro disse nesta quinta-feira que elas devem desempenhar uma "função social", acrescentando em um aparente golpe em Castello Branco que era um erro ter presidentes que não compartilham dessa "visão". A Fitch, uma das três maiores agências de classificação de risco de crédito do mundo, disse que a mudança do presidente "não era um bom sinal" para o Brasil.

Castello Branco, economista formado pela Universidade de Chicago, disse não ter recebido detalhes sobre a transição para Joaquim Silva e Luna, um general da reserva sem experiência em petróleo ou gás que foi nomeado por Bolsonaro para substituí-lo.

“Estamos dispostos a realizar (uma transição) da maneira mais suave e eficiente”, disse Castello Branco aos analistas em videoconferência, após a divulgação dos resultados financeiros de 2020 da empresa.

“Continuamos a trabalhar normalmente até pelo menos 20 de março. O que estamos fazendo não mudará”, acrescentou ele, referindo-se ao dia em que seu mandato expirará.

Ele acrescentou que as empresas licitantes nas refinarias da empresa expressaram “preocupação” com os recentes desenvolvimentos na Petróleo Brasileiro SA, como a empresa é formalmente conhecida, embora nenhuma tenha desistido do processo.

Esperava-se que a Petrobras levantasse bilhões de dólares vendendo suas refinarias neste ano, mas a relutância de Bolsonaro em vender combustível a custo internacional assustou alguns licitantes.

PREMISSAS DE PREÇOS
Na noite dessa quarta-feira, a Petrobras divulgou lucro líquido no quarto trimestre de 59,9 bilhões de reais (US $ 10,9 bilhões), dizendo que reverteu cerca de 31 bilhões de prejuízos devido a uma perspectiva melhor para os preços do petróleo.

A Petrobras espera que o Brent alcance uma média de US$ 45 por barril em 2021 e 2022, antes de subir para uma média de US$ 50 por barril indefinidamente, disse a empresa em uma apresentação divulgada nesta quinta-feira. Anteriormente, a empresa esperava que o Brent tivesse uma média de $ 30 por barril em 2021, antes de subir $ 5 por ano até chegar a $ 50 por barril em 2025.

As ações preferenciais listadas no Brasil na Petrobras caíram 3,2% no pregão da tarde, após abertura de 3% em alta, abaixo do desempenho do índice de referência de ações do Brasil Bovespa, que caiu 2,2%.

Em teleconferência com jornalistas na tarde desta quinta-feira, Rudimar Andreis Lorenzatto, executivo da unidade upstream da Petrobras, disse que a empresa havia desqualificado um consórcio liderado pela Samsung Heavy Industries Co Ltd da licitação de um contrato multibilionário para construir dois flutuantes plataformas conhecidas como FPSOs.

Não ficou claro por que a Samsung foi desqualificada. Um representante da Samsung não respondeu imediatamente à Reuters fora do horário comercial.

Na terça-feira, promotores federais disseram que chegaram a um acordo de leniência de 812 milhões de reais com a multinacional coreana, relacionado a alegações de que ela pagou subornos para ganhar contratos com a Petrobras.(com agência Reuters)