Bem maior, BB perde em lucro para o Santander

.

REUTERS/Paulo Whitaker
Credit...REUTERS/Paulo Whitaker

Nos anos 70, a Atlantic Petroleum, com sede na Pensilvânia, estava longe de figurar entre as “majors” do óleo nos Estados Unidos, e também no Brasil, onde sua distribuidora de combustíveis, perdia para a então estatal BR-Petrobras, a Shell, a Esso (Exxon) e a Texaco, mas tinha um slogan irresistível: “Quem não é o maior, tem que ser o melhor”. Era fã e freguês da rede de postos que foi comprada, em 1993 pelo grupo Ipiranga (nacional), seu mais próximo competidor. Meu posto preferido ficava no fim da Bartolomeu Mitre junto à Praça Santos Dumont (morava no Leblon e estudava no Colégio André Maurois, quase ao lado).

Depois, com a saída da Texaco, Shell e Esso (essas últimas tiveram a rede reagrupada na bandeira Shell pelo grupo Cosan/Raízen), a Ipiranga ficou com ativa rede de abastecimento na Zona Sul. O 2º lugar se manteve após o grupo Ipiranga revender, em 2007, a rede de postos (com a manutenção da bandeira no Sudeste) para o Grupo Ultra e para a BR, no Norte-Nordeste, além das participações em petroquímica para a Braskem, do grupo Odebrecht. O grupo que mudou o nome para Novonor, para tentar apagar o passado, estava em plena arrancada monopolista, abatida pela recessão de 2015-16 e os escândalos confessados na Operação Lava-Jato.

Cito o exemplo da Atlantic para que você, caro leitor, tentar, como eu, entender porque o gigante Banco do Brasil, 2º maior banco brasileiro em ativos (R$ 1,782 trilhão, só perdendo para os R$ 2 trilhões do Itaú Unibanco) teve em 2020 lucro inferior ao do “nanico” (em termos de comparação) Santander do Brasil (no mundo, o Santander ganha fácil do BB). Embora tenha uma rede de 4.700 agências (57% maior que a do Santander) e 91,6 mil funcionários, contra menos de 70 mil do Santander, espalhados por menos de 2.800 agências, o Santander teve lucro de R$ 13,849 bilhões. Superou em mais de R$ 1 bilhão os R$ 12,697 bilhões do BB.

Recentemente, o novo presidente do Banco do Brasil, o executivo André Brandão, que dirigiu o HSBC nos EUA e foi recrutado em setembro pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, após a renúncia de Rubens de Freitas Novais, quase foi demitido pelo presidente Bolsonaro, melindrado com as críticas de políticos do Centrão que garantiram as eleições de Arthur Lira (PP-AL) para a presidência da Câmara e de Rodrigo Pacheco (DEM-MG) para a presidência do senado, porque queria promover enxugamento do banco, com fechamento e remanejamento de agências e Plano de Demissão Voluntária de 5,3 mil funcionários até 2023. O ministro da Economia, Paulo Guedes, e Campos Neto jogaram suas fichas na mesa e garantiram a permanência de Brandão. Até novas pressões do Centrão...

A comparação entre o lerdo BB - quase um paquiderme entre os bancos nacionais, só ganhando em organização da Caixa Econômica Federal, que ainda está digerindo a enorme expansão de cadastrados no Auxílio Emergencial, sem que tenham virado efetivos correntistas à vista ou de poupança - e o ágil Santander, mostra que o caminho traçado por Brandão está correto. Correções podem ser feitas no "time" do processo, sem afetar os objetivos.

Chama a atenção o forte aumento de penetração do Santander entre o público jovem e as empresas. Uma das dificuldades do BB, que tem 87 milhões de clientes, está na idade mais avançada de sua clientela, formada principalmente por funcionários públicos federais (nos três poderes) ou de estatais com conta no banco controlado pela União. Essa clientela, mais avessa às inovações digitais, prefere o contato com os caixas e gerentes conhecidos do BB. Nem sempre isso se traduz em eficiência e produtividade.

Um dos segredos do Santander foi mobilizar ampla malha de postos de atendimento (quase 1.900 unidades) que aproxima sua rede aos quase 5.200 agências e postos de atendimento do BB. O Santander se gaba de ter avançado no crédito às empresas. O BB, que herdou o crédito rural quando era o principal agente estatal e não havia o Banco Central (criado em 1964) para regular o mercado e a expansão monetária, pena pela influência política que beneficia esta ou aquela empresa ou barra suas ações de cobrança quando "lobbies" no Congresso vão defender produtores rurais em atraso. Mesmo com juros mais baixos e as cotações em alta, a inadimplência no crédito rural do BB é elevada, como assinala o relatório do 4º trimestre. Um dos créditos em atraso é da Atvos, empresa sucroalcooleira do grupo que agora atende por Novonor...

Falseando a história

Por fim vale lembrar uma questão importante. Como estamos há algum tempo submetidos à guerra de narrativas, seria de bom tom que a Comunicação do Banco do Brasil corrigisse a falsa narrativa criada na gestão de Ademir Bendine, no governo Dilma, que depois o indicou para dirigir a Petrobras (foi demitido quando veio à luz cobrança de propina que negociara ainda no BB). O texto de apresentação do balanço de 2020 diz que o Banco do Brasil completou 202 anos. Trata-se de uma grande mentira, ou, no mínimo, um falseamento da história.

O Banco do Brasil atual, com existência ininterrupta desde 1853, é o 3º Banco do Brasil da história do Brasil. O pioneiro foi fundado em 12 de outubro de 1808, no Rio de Janeiro, depois que D. João VI mudara a Corte portuguesa, inicialmente instalada em Salvador, quando fugiu para o Brasil, do cerco das tropas de Napoleão. Quando D. João voltou a Portugal, em 1921, para reassumir o trono, começou a raspar o caixa do 1º BB. Sem os fundos da Coroa e a diminuição dos negócios com a partida da Corte, o banco foi murchando até que sua liquidação foi ordenada em 1929 e se consumou em 1833 (naquela época já era difícil extinguir uma estatal).

Ressurgiu em 1851 pelas mãos do empresário Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá. Mas a vida foi curta. A retração do tráfico escravagista, proibido no Brasil a partir da Lei Eusébio de Queiroz, de setembro de 1850, também atinge os negócios de Mauá, porque o giro, na capital do Império, com o café do Vale do Paraíba do Sul e da Zona da Mata de Minas, entra em declínio, afetando ainda o tráfego nas ferrovias de Mauá nessas regiões (ele abre ferrovias em São Paulo, cujas ricas terras roxas, quase planas, passam a ser cultivadas em regime de parceria com famílias de colonos italianos ou espanhóis). O 2º Banco do Brasil, ou o “Banco do Brasil de Mauá”, é liquidado.

O renascimento desta Fênix se dá em julho de 1953, quando o ministro Joaquim Rodrigues Torres, o visconde de Itaboraí, edita lei que cria o novo Banco do Brasil, mediante a fusão do Banco do Brasil de Mauá com o Banco Comercial do Rio de Janeiro (de 1828), tendo exclusividade para a emissão de papel-moeda (privilégio que só cessou após a criação do Banco Central). Em homenagem ao visconde, a antiga sede do BB (atual CCBB, na esquina das ruas Primeiro de Março com Visconde de Icaraí), levou o nome do fundador do banco. Então, para ser preciso, o atual BB tem 147 anos.

Que tal começar a mudança com um rejuvenescimento de 55 anos? Pelo menos vai fazer jus à história.