Sem projeto industrial e ambiental, Brasil de Bolsonaro perde atrativos para o investidor estrangeiro em 2020, mostra Unctad

.

...
Credit......

Os dados sobre a movimentação dos investimentos diretos no mundo em 2020, quando houve queda de 42% na movimentação global devido aos impactos da Covid-19, foram contundentes para os Estados Unidos, de Donald Trump, e o Brasil, de Jair Bolsonaro, em 2020, segundo os dados divulgados esta semana (24 de janeiro) pela Unctad (sigla em inglês da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento)

O Japão continuou como a origem dos maiores investimentos externos do mundo (US$ 227 bilhões em 2019). Mas, com a forte queda dos preços do petróleo, um dos setores mais dinâmicos de sua economia, que teria encolhido 3,4% no ano passado, segundo projeções do FMI, os Estados Unidos (país mais afetado pela Covid-19, com quase 400 mil mortes em 2020, e atingiu ontem 423 mil óbitos e 25,4 milhões de contágios) foram superados pela China como receptores de investimentos.

Os EUA captaram apenas US$ 143 bilhões, queda de 49% frente aos US$ 246 bilhões de 2019. Já a China, cujo PIB deve ter crescido 2,3% - foi a única das 20 maiores economias do mundo a avançar, porque rapidamente cercou o vírus que irrompeu em Wuhan, no final de 2019 – teve aumento de 4% no fluxo de investimentos de capitais estrangeiros (para US$ 163 bilhões). O detalhe é que as aplicações nas indústrias de alta tecnologia cresceram 11% em 2020, e as fusões e aquisições internacionais aumentaram 54%, principalmente nas indústrias de TIC e farmacêuticas.

Cingapura, que recebeu US$ 92 bilhões, destronou a Holanda e o território autônomo de Hong Kong do podium. Os países europeus foram muito afetados pelos impactos da pandemia, mas nada foi pior que a situação do Reino Unido, que foi assolado pela fuga de investimentos (transferência de sedes de empresas para a Europa continental, devido à vigência do Brexit). O Reino Unido teve redução de 100% no fluxo de investimentos, que veio a zero.

Brasil tem redução de 50% no fluxo de IDE

Com as privatizações e licitações para concessões de projetos na área de infraestrutura paralisadas pela Covid-19, o Brasil, maior economia da América Latina, foi também o país mais afetado, com redução de 50%, segundo a Unctad, nos fluxos de investimentos diretos estrangeiros. Os dados de 2020 serão divulgados pelo Banco Central nesta 4ª feira, 27 de janeiro.

Até novembro, o país tinha recebido US$ 36,3 bilhões em investimentos diretos estrangeiros. E as estimativas do Banco Central são de um ingresso líquido de US$ 2,6 bilhões em dezembro, o que elevaria o total de 2020 para US$ 38,9/39 bilhões (O Itaú prevê US$ 2,8 bilhões). Mas o que falta ao Brasil é um projeto de política industrial e comercial de longo prazo (por enquanto amparadas na ideai liberação de acordos de livre comércio com a União Europeia e os Estados Unidos (proposta há uma semana por Bolsonaro ao governo Biden).

Chama a atenção, no relatório da Unctad a queda de 85% nos fluxos destinados às empresas de material de transporte (especialmente indústria automobilística) e a retração de 70% nas operações do sistema financeiro). A contração de 31,6% na produção de automóveis, ônibus e caminhões, que acabou levando ao encerramento das atividades das três fábricas da Ford no país (SP, BA e CE), tem impacto no fluxo de capitais externos no balanço de pagamentos.

As montadoras e seus braços financeiros (fábricas de automóveis, tratores ou colheitadeiras têm banco próprio) usam o diferencial de juros (mais alto no Brasil do que nas matrizes) para fazer empréstimos delas às filiais brasileiras (o BC segue metodologia do FMI e considera tais operações de empréstimos entre companhias como Investimento Direto Disfarçado). Resta saber como a Ford vai agir na Argentina, para onde transferiu as operações.

Turquia e Índia ocupam espaços

De acordo com o relatório, a queda no IED se concentrou nos países desenvolvidos, onde os fluxos despencaram 69%, para cerca de US $ 229 bilhões. Embora os fluxos de IED para as economias em desenvolvimento tenham diminuído 12% para uma estimativa de US $ 616 bilhões, eles responderam por 72% do IED global - a maior parcela já registrada.

A queda foi altamente desigual nas regiões em desenvolvimento: -37% na América Latina e no Caribe, -18% na África e -4% nos países em desenvolvimento na Ásia. O IDE para economias em transição diminuiu 77%, para US $ 13 bilhões. Enquanto os países em desenvolvimento da Ásia resistiram bem à tempestade como grupo, atraindo cerca de US $ 476 bilhões em IED em 2020, os fluxos para membros da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) diminuíram 31%, para US $ 107 bilhões, devido a uma queda no investimento aos maiores destinatários da sub-região.

Depois da China e de Cingapura, a Índia foi outra grande economia emergente, a registrar crescimento (13%), atraindo investimentos para o setor digital. Mas a Turquia não pode ser descartada pelo Brasil como eventual competidor na busca de negócios. Com pouco mais de 80 milhões de habitantes (um bom mercado doméstico) o país está situado entre a Europa, o Oriente Médio, a Rússia e a Ásia. Há alguns anos a Mercedes-Benz cogitou de fechar a produção de caminhões no Brasil e concentrar na Turquia, valendo-se do fato de que muitos turcos, que viveram por décadas na Alemanha, eram trabalhadores qualificados na indústria e falavam a língua oficial da MB.

O relatório adverte que “a capacidade muito mais limitada dos países em desenvolvimento de lançar pacotes de apoio econômico para estimular o investimento em infraestrutura resultará em uma recuperação assimétrica do IED impulsionado pelo financiamento de projetos”.

Outra importante diretriz dos investimentos é o respeito ao meio ambiente e a medidas de inclusão social e igualdade de gênero. Nesta área, o governo Bolsonaro paga o preço de marchar em direção contrária às boas práticas recomendadas pela ONU e a UNCTAD.