PDV de 5 mil no BB (total da Ford) leva à demissão de André Brandão

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Credit...REUTERS/Paulo Whitaker

O “time” do anúncio de um plano de demissão voluntária (PDV) de 5 mil funcionários, até 2025, com economia de R$ 10 bilhões, como parte do plano de enxugamento de 112 agências (das 4.730 agências), 242 postos de atendimento (de um total de 1.795) e 7 escritórios e a conversão de 243 agências em PAs e 145 unidades de negócios, só com caixas eletrônicos, sem muitos funcionários – na 2ª feira, 11 de janeiro, quando o presidente Jair Bolsonaro extravasou sua ira contra a multinacional Ford por anunciar fechamento das três fábricas no Brasil (SP, BA e CE), com perda de quase mesmo número de empregos diretos (5,3 mil) - pode custar a demissão do presidente do Banco do Brasil, André Brandão, no cargo há quatro meses.

Bolsonaro ficou irritadíssimo com o gol-contra em suas próprias hostes. Não sabia do plano do banco controlado pela União e foi atropelado pelo noticiário, justo quando criticava a Ford. Por ele, Brandão - um executivo que foi recrutado pelo presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, no comando do HSBC nos Estados Unidos e teve de cumprir uma demorada quarentena até substituir Rubens de Freitas Novaes, que estava demissionário desde agosto - sairia imediatamente.

Os planos de enxugamento do BB seguem a tendência de todos os bancos privados e era do conhecimento do ministro da Economia, Paulo Guedes, que não contou ao chefe. Se for mesmo confirmada a saída de Brandão, Paulo Guedes e Roberto Campos Neto, que estão tentando contornar a situação, ficam desgastados. Itaú, Bradesco e Santander estão com programas de fechamento de agências e redução de pessoal já aplicados em plena pandemia, aproveitando o menor afluxo de público às agências e o uso acelerado das operações digitais, sobretudo via celular.

Interesses políticos em jogo

Mas o Banco do Brasil sempre foi um banco usado para abrigar interesses políticos de diversos partidos. No governo Dilma chegou a ter 12 vice-presidentes e 27 diretores. No governo Bolsonaro, o BB encolheu o número de vices a 7 e o de diretores a 22. Antes, era quase possível dar uma diretoria a um apadrinhado político de cada estado. Mas o anúncio do fechamento de agências em estados que podem ser o fiel da balança na eleição dos novos presidentes da Câmara e do Senado, no final deste mês, mexeu num vespeiro.

Os planos de demissão voluntária visavam atingir antigos funcionários de bancos comprados pelo BB nos últimos 12 anos (o paulista Nossa Caixa, o Banco do Estado do Piauí e o Banco Votorantim, da família Antônio Ermírio de Moraes, concluído no ano passado, após uma parceria iniciada em 2009, quando o BB assumiu 49% do Banco BV. O Piauí é reduto eleitoral do senador Ciro Nogueira (PP), um dos líderes mais ligados a Bolsonaro.

Mas o que pegou mesmo foi a contradição: “faça o que eu digo; não o que eu faço”.