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Economia

Política industrial em debate na ABDIB

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São Paulo - O diretor do Banco Mundial (Bird), Martin Raiser, disse ontem que tem dois “nãos” e um “talvez” para a pergunta sobre se o Brasil precisa de nova política industrial. O primeiro “não”, de acordo com Raiser, é porque há dúvidas se pauta da política industrial é a raiz do baixo crescimento de produtividade.
“Se a gente faz um benchmarking, a primeira coisa que vai ver é que a taxa de investimento é baixa. Então você não precisa de uma pauta de política industrial porque se não investe não vai crescer nunca”, disse o diretor do Bird durante o seminário “Retomada da Indústria - Uma Estratégia de Longo Prazo”, promovido pela Associação Brasileira de Infraestrutura e das Indústrias de Base (Abdib), em São Paulo.
O primeiro “não”, segundo o economista, é também porque a taxa de poupança no Brasil nunca chegou à proporção de 30% do PIB como nos países asiáticos. Mesmo que o setor público ajude, a taxa de poupança não chegará a 30% do PIB. Destacou ainda, o baixo posicionamento do Brasil nos rankings de países no quesito infraestrutura.
“No item ambiente de negócios do Banco Mundial o Brasil está na 125ª posição, atrás de Rússia e Índia. Os dois países estavam perto do Brasil, mas nos últimos dez anos eles fizeram reformas microeconômicas importantes. O Brasil não fez e está ainda nesta posição”, disse, citando que na área da calibragem tributária o Brasil aparece na 183ª posição, um dos piores do mundo, e das economias mais fechadas do mundo.
O segundo “não”, segundo Raiser, é porque o Brasil já tentou várias políticas de incentivo à indústria que não tiveram muito efeito. “Alguns programas como o cartão BNDES, por exemplo, tiveram efeito, mas a maioria dos programas não teve efeitos positivos”, criticou.
O “talvez”, de acordo com o economista é porque o Bird ser contra políticas industriais não faz sentido. “As evidências são de que todos os países que tiveram sucesso de produtividade sustentável na área econômica tiveram algum tipo de política industrial”, disse. Mas, observa que, para que uma política industrial dê certo é preciso análises profundas das falhas de mercado que essa política se propõe a atacar.
O professor de economia da Unicamp-SP e ex-presidente do BNDES, Luciano Coutinho, rebateu o diretor do Bird e disse ter um grande “sim” à política industrial. “Vou responder às provocações dando um grande ‘sim’ à política industrial. Até porque temos que pensar além de falhas de mercado”, disse. “ Falhas de mercados são relevantes por vários fatores, mas a questão é que o que demanda a política industrial é uma visão de longo prazo. Para Coutinho, quem foi bem sucedido construiu uma base de vantagens competitivas. O problema é que a construção de bases competitivas é hoje mais complexa e difícil. Ele lembrou que as cadeias globais de valor surgiram após a abertura dos anos 90 na Rodada Uruguai, quando os polos de desenvolvimento terceirizaram sua parte de manufatura para a Ásia.
“Só que os asiáticos fizeram em 15 anos um baita processo de aprendizado. Não jogaram fora as suas empresas. Desenvolveram Pesquisa e Desenvolvimento. Aumentaram escalas e geraram modelos de negócios novos”, disse, acrescentando que os asiáticos já dominaram o P&D e agora têm marcas próprias e neste momento são competidores de seus clientes. Por isso, entrar nesse jogo hoje é bem diferente do passado porque as escalas são muito altas. “A competição ficou mais acirrada, tem um multilateralismo mais agressivo por parte dos Estados Unidos que está destruindo o bilateralismo e vários fundamentos no comercio internacional”, disse Luciano Coutinho, ferrenho defensor da inovação.



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