O G-20 e a desordem mundial

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GUERRA DAS MOEDAS

Mário Soares

EX-PRESIDE4NTE DE PORTUGAL

Houve fotografias de família, muitos sorrisos mas nada de importante se passou

OG-20 quereuniuem Seul, na Coreia do Sul, os Estados mais ricos e desenvolvidos do mundo, para pôr cobro, essencialmente, à guerradasmoedas –entrea China, aAmérica ea Europa do euro – foi um autêntico flop. Os dirigentes aparentemente não se zangaram – Barack Oba- ma, muito atacado pela desva- lorizaçãodo dólar,defen- deu-secom argumentosváli- dos – mas não concluíram nada quevalesse apena.Limita- ram-se a confiar ao FMI (Fun- do MonetárioInternacional) “a coordenação deum grupo de trabalho, encarregado de elaborar até à primavera de 2011 uma bateria de indicado- resque permitaavaliar ape- rigosidade dasbalanças cor- rentes”. Istoé: recorreu-seà “solução” de criar um grupo de trabalho, a prazo, que é o quese faz,normalmente, quando se quer, sem o confes- sar, adiar um problema para o qual não se encontra solução. Houve fotografiasde família, muitos sorrisos masnada de importante sepassou... Os grandes do planeta não chega- rama qualqueracordopara que este nossomundo, desre- guladoe inseguro,encontre um caminho de paz e de pros- peridade,para asrespectivas populações. Contra o recente apelo do papa para que se mu- de o modelo econômico... Tudo se passou à margem da ONU, embora estivesse repre- sentada pelo secretário-geral, edos pequenose médiospaí- ses. É certo que o consenso de Seul para“um crescimento partilhado”,adotado pelaCi- meira, sublinha que “um cres- cimento sólido, durável e equi- libradoé fundamentalpara ajudar o desenvolvimento dos países pobres”. Mas trata-se deuma merafrase,que sere- pete, aliás, desde os Objetivos doMilênio,há cercadedez anos, sem ter qualquer conteú- do ou contrapartida prática... Temposdifíceis nosespe- ram, onde cada Estado traba- lha parasi, eos nacionalis- mosaparecem denovo àluz do dia, esquecendoa solida- riedade e os valores que mar- caram,desde 1957(Tratado de Roma), o projeto europeu. Sarkozy, dando-se mal com a senhora Merkel, visto que a França nãopode rivalizar com a Alemanha, em matéria financeira e mesmo econômi- ca, sobretudo no plano das ex- portações, resolveu renovar a Entente Cordiale, no domí- nio militare desegurança, com o Reino Unido, de Came- ron. Sempre sãoduas potên- cias nucleares, o que a Ale- manhanão é.Mas nãodeixa deser perigosoesteacordo, por ter muito pouco a ver com aUnião Europeia,de quea França e a Alemanha foram o motor. Ligar-se agora a um Es- tado, o ReinoUnido, que foi sempre reticente ao projeto europeu e, muitos dizem, que entrou nele (mas não na zona euro nem no espaço Schen- gen) para osabotar, não pa- rece ser de bom augúrio. Sarkozy, atual presidente do G-20, disse ter três grandes ob- jetivos a atingir: a reforma do sistema monetário internacio- nal; ocontrole dospreços das matérias-primas;e umesque- made governaçãomundial. Excelentes propósitos! Contu- do, lendo, comatenção, os re- latosda imprensainternacio- nal, sobrea reuniãodo G-20, pareceque nenhumdosseus parceiroslevou asérioqual- quer desses (tãosérios) obje- tivos. Assimvai omundo glo- bal em que vivemos. Fala-se muito, mas faz-se pouco. En- quanto a paralisação da União Europeia se vai acentuando, semlideranças, nemideias que nos valham, para atacar a crise em que mergulhamos... Ora, não há ainda um plano estratégico concertado (não só financeiromas também econômico), de médio prazo, para vencer a crise, que afeta os 27 Estadosmembros ou, pelo menos, os 16 da zona eu- ro. A União Europeia, conser- vadora, burocrática e sem al- ma,que temos,nãopassará, tão cedo, dacepa torta em quemergulhou. Adecadên- ciavai-se acentuando–bem como asua marginalização, no plano internacional – a ca- minho talvez da desintegra- ção. Esperemos que não. Mas é uma probabilidade que oscidadãos europeusde- veminteriorizar, paramelhor poderem reagir, com lucidez e eficácia, contra o desastre anunciado, para onde as atuais lideranças nos estão, conscien- te ou inconscientemente, a ar- rastar. Precisamosde movi- mentosde opiniãoconsisten- tes, de debates intereuropeus, de manifestos subscritos por gente informada e consciente, detudo oque possainfluen- ciar os partidos, os parceiros sociais,o Parlamentoeuro- peu e os nacionais e dê voz à cidadania europeia.

Sarkozy disse ter um grande objetivo: a reforma do sistema monetário internacional