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O cinema como manifestação de resistência

Em visita ao Rio, o crítico e historiador Antoine de Baecque se debruça sobre o passado para jogar luzes sobre o presente e o futuro da arte cinematográfica

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Antoine de Baecque traz à tona a efervescência cinematográfica de décadas passadas através do livro Cinefilia (Cosac Naify), no qual abarca o período que vai do imediato pós Segunda Guerra Mundial até a conturbada primavera de 1968, marcada pelo fechamento da Cinemateca Francesa, então dirigida por Henri Langlois. Em visita ao Rio de Janeiro para promover o livro e o lançamento do DVD Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague (2009), com roteiro de sua autoria, De Baecque conversará amanhã com o público dentro do evento Cinemaison, na Maison de France, em debate que também contará com a presença de Ivana Bentes, diretora da Escola de Comunicação da UFRJ. O debate será precedido das exibições de O desprezo (1963), de Jean Luc Godard, às 18h, e do curta-metragem Uma história d’água (1961), de François Truffaut e Godard, às 20h. A entrada é franca.

Ao evocar a intensidade do movimento cinéfilo nas décadas de 40, 50 e 60, Antoine de Baecque não recusa certo olhar nostálgico em relação à passagem do tempo. “O cinema era a arte do século, já que foi através dele que vimos as estórias e a história. A câmera foi a ferramenta que possibilitou a construção de uma representação do mundo – um mundo histórico, político, ideológico e também estético, íntimo, realista. Foi por meio do cinema que o século XX pode se enxergar. Será que o cinema terá a mesma importância no século XXI? Certamente, não. Ele não terá mais o mesmo valor como ferramenta. Não será mais o ‘olhar’ do mundo do futuro”, afirma de Baecque. Mas sua análise não é totalmente atravessada pelo desencanto. “A redução da amplitude de sua representação também pode lhe servir. Ao se tornar uma arte minoritária, o cinema pode oferecer uma resistência maior e sobreviver, permitindo experiências bem radicais. O cinema sempre terá um futuro, mas como arte de resistência ao mundo globalizado e conectado. Não será mais uma arte de todos, mas de alguns. E estes poucos serão exatamente os novos cinéfilos”, aponta.

O crítico e historiador percebe uma renovação da cinefilia. “Foi salva e completamente transformada pelo DVD e pela internet. Hoje em dia, os cinéfilos se comunicam para conversar sobre um filme, uma ideia, dividir gostos, culturas, conhecimento, estando em Paris, Roma, Taiwan, Seul, Los Angeles ou, claro, no Brasil. Isto reinventou a ligação entre os cinéfilos, multiplicou as capelas, os grupos, os especialistas, criou espaço para mais opiniões, críticas, fóruns e aumentou a vontade de fazer cinema. Há uma vitalidade excepcional, que, ao mesmo tempo, pode ter um efeito perverso: escreve-se muito, há filmes demais. Se tudo está lá, tudo é possível, tudo nos é dado. Falta o desafio, o ‘raro’, que são as condições essenciais para a verdadeira criação”, analisa.

A habilidade em analisar a transformação do movimento cinéfilo no decorrer das décadas decorre da intensa atividade de Antoine de Baecque, seja como autor de livros, seja como editor-chefe (entre 1997 e 1999) e crítico da emblemática revista Cahiers du Cinema. De acordo com De Baecque, a publicação passa por mudanças. “A revista está investindo numa nova equipe mais jovem após ter enfrentado grandes problemas financeiros. Isto é uma boa coisa: a jovialidade costuma trazer radicalidade”, aposta. Mas o contexto atual não é fácil para a Cahiers. “A globalização ameaça a Cahiers. Se se tornar uma revista americana parecida com uma publicação novaiorquina, que fale inglês, será, infelizmente, o fim da revista”, observa. Numa época em que a palavra de ordem parece ser negociar, com o intuito de atingir um público-alvo mais amplo, De Baecque acredita que a Cahiers deve concentrar o foco. “O futuro é voltar a ser minoritária. Cabe fazer uma revista mais detalhada, teórica, audaciosa, ou seja, para menos gente”, defende.

De Baecque atenta para a transformação do exercício crítico. “A crítica na França e no mundo perdeu muito da sua credibilidade, da sua influência, do seu lugar nos jornais nos últimos anos. Contudo, para mim ela continua importante: sua legitimidade é total. É tão importante falar sobre um filme quanto realizá-lo. A crítica faz parte da criação: ela sozinha faz com que um filme exista, no sentido mais profundo. Alguém o viu, escreveu sobre ele, logo ele existe. Na verdade, cada vez que o cinema parece tornar-se mais massificado, uniformizado, ele se torna também, dentro dos pequenos grupos, minoritário e, ao mesmo tempo, mais resistente”, afirma.

Autor de livros sobre cineastas como François Truffaut, Jean-Luc Godard, Andrei Tarkovski e Tim Burton, Antoine De Baecque percebe as oscilações do presente a partir de uma compreensão clara da história do cinema. “Os cineastas da Nouvelle Vague eram muito diferentes, mas tiveram a mesma intuição – a de que o cinema podia pertencer a todo mundo e a cada um, pessoalmente. Este cinema não era uma arte para um círculo reduzido. Para Truffaut, assim como para Godard, (Claude) Chabrol, (Jacques) Rivette ou (Eric) Rohmer, tratava-se de trabalhar dentro do sistema comercial de cinema para atingir um grande número de espectadores. Mas não os impedia de contar histórias pessoais. A Nouvelle Vague queria manter unidos o caráter íntimo dos projetos e a cultura popular e, de certa forma, conseguiu. É isto que pode caracterizar também o cinema de hoje ou do futuro: o íntimo unido ao popular. E muitos cineastas atualmente na França compactuam desta convicção, o que torna atual a mensagem da Nouvelle Vague. São artistas como Christophe Honoré, Nicolas Klotz, Isild Le Besco, Mia Hansen-Löve, Céline Sciamma e Anthony Cordier, entre outros”, analisa.

Quinto título da coleção Cinema, Teatro e Modernidade, da Cosac Naify, coordenada pelo crítico e pesquisador Ismail Xavier, Cinefilia evoca a efervescência do maio de 1968 na França – antecedido pelo afastamento e reintegração de Henri Langlois, diretor da Cinemateca Francesa. “Em 68, havia dois mitos que se confrontaram: Henri Langlois e André Malraux. Langlois encarnava o cinema, dirigia e programava a Cinemateca Francesa, onde toda a geração da Nouvelle Vague descobriu o cinema. Malraux era escritor e grande orador, o primeiro ministro da cultura do general De Gaulle. A aura de Malraux e Langlois era feita do mesmo material mítico. Além do mais, eles se entendiam bem e se ajudaram durante um bom tempo. Mas, em fevereiro de 1968, Malraux decidiu derrubar Langlois porque quis regularizar a Cinemateca e colocá-la sob a administração cultural. Foi um erro, exatamente porque o mito de Langlois triunfaria: ele era intocável. Tornou-se uma lenda, encarnando em si a figura do cinema. Afastar Langlois seria, como na mitologia, matar o cinema. Os cinéfilos se mobilizaram, assim como os cineastas mais próximos a Langlois. Isto provocou uma profunda crise na cultura francesa: pela primeira vez, artistas, cineastas, atores, ajudados pelos cinéfilos, foram para as ruas manifestar contra uma decisão do poder vigente, o de Malraux e De Gaulle. A imprensa apoiou os opositores. Malraux teve que voltar atrás e reintegrou Langlois, em abril de 1968. Dez dias depois teve início o movimento de maio de 68. Há uma ligação evidente. Todas as reivindicações culturais e políticas na França vieram também deste momento de crise, de oposição a uma política conservadora. Hoje em dia, na França, seria muito bom provocar uma crise assim para reavermos esta necessidade urgente de defender uma verdadeira política cultural”, relata Antoine de Baecque.