Julia Corson, Jornal do Brasil
RIO DE JANEIRO - É comum associar a dramaturgia russa a textos clássicos, com um ar até pesado. Mas a peça Casting, que estreia nesta quinta-feira na Caixa Cultural, mostra que isso não é regra. Com direção de Marco Antônio Rodrigues e Caco Ciocler no papel principal, traz vertente pouco conhecida da dramaturgia do país. O texto original, do aclamado autor Aleksandr Gálin, parte de um anúncio veiculado em um jornal da cidade, anunciando os testes para mulheres com habilidades artísticas para a montagem de um show apresentado em Cingapura. O cine Cosmos é o cenário da peça, que mostra os testes, esperanças e frustrações das candidatas. É ali que, com o produtor Albert (Caco Ciocler), as candidatas (e, depois, seus maridos) descobrem que esse show não é tão inocente quanto pensavam. Depois da indignação inicial, começam a admitir que, no fim das contas, participar de um show erótico em Cingapura é melhor do que nada naquela cidade.
O desespero por fama pode ser comparado à situação vivida atualmente no Brasil. As duas realidades refletem a estruturação das relações sociais na contemporaneidade.
O que podemos comparar entre as duas situações, a da peça e a do Brasil, é o mercado regendo magistralmente todas as instituições e comportamentos avalia Marco Antônio Rodrigues. Ele determina a política, a mídia, o judiciário, as relações familiares, a uniformização dos comportamentos... Casting é uma fábula tragicômica sobre isso. É de se notar que o ponto de partida é a arte e seus fazedores, ou seja, rimos de nós mesmos, como partícipes na sociedade do espetáculo.
O protagonista, Caco Ciocler também percebe uma possibilidade de comparação nítida entre as duas situações:
A gente vive essa loucura de querer participar de um cast fictício, uma possibilidade de nos levar de alguma maneira ao lugar de fama, de destaque, do estrangeiro, de promessa de algo que a gente não tenha lista o ator. No Brasil, isso fica claro ao assistir a testes do BBB. É a mesma coisa. Tem aquele tom de desespero. É uma mercantilização do ser humano. No BBB os candidatos nem sabem o que fazer, se é para tirar a roupa, ser engraçado... Claro, que a peça fala de um momento específico em que mulheres e homens estavam desesperadas por estarem em uma condição terrível de sobrevivência. Mas a concepção é a mesma.
Casting tem um caráter cômico, e com um tom satírico, que se aproxima do humor negro.
O riso do público tinha que ser um riso nervoso explica Ciocler. A plateia tem que se dar conta de que está rindo de uma coisa da qual não deveria rir. Os personagens não têm noção do quão cômica pode ser uma situação. O ponto de vista engraçado, porém consciente, é algo que só se vê de fora.
Pouco conhecido no Brasil, Gálin pertence à Nova Onda do teatro russo, corrente da década de 80 que tentou explorar uma nova realidade intelectual e moral do país, em crise de identidade com o inevitável fim do socialismo.
Na Rússia, a dramaturgia contemporânea, mesmo aquela que classificaríamos como mais ligeira ou de costumes, como é o caso do Casting, tem ambições invejáveis sugere Rodrigues. Afinal, os dramaturgos são filhos de Tchecov que é o segundo dramaturgo mais encenado do mundo e que é um fantástico observador das relações subjetivas em um mundo objetivo próximo a uma guinada política estrutural. Isto não é pouco.
Desafio cômico
O tom da peça difere das encenações anteriores de Caco Ciocler. O ator já se concentrou em tragédias clássicas de Shakespeare (Antonio e Cleópatra) , além de peças épicas (Os sete afluentes do Rio Ota) e até intimistas, como foi o caso de Aldeotas. Fazer comédia foi um desafio, já que, como ele mesmo conta, não se considera uma pessoa engraçada.
Mas as pessoas que convivem comigo me acham engraçado reconhce Ciocler. Sempre me surpreendo quando faço comédia. Por outro lado, acho que entregar-se à comédia é um exercício bacana de afirmação.