Hugo Cals, JB Online
RIO - - Enquanto por aqui as autoridades tentavam banir o funk em meados da década de 90, na Europa ele ganhou duas classificações: para alguns era a música eletrônica do Brasil para outros era o hip-hop brasileiro. Era engraçado, enquanto no Brasil o funk não tinha classificação, na Europa ele já tinha dois - declarou o DJ Marlboro, precursor do gênero que se chamaria funk carioca anos mais tarde.
Com essa e outras histórias diferentes sobre o "batidão", além de uma detalhada cronologia da evolução do gênero, com exemplos musicais via o iPod do antrópologo Hermano Vianna, finalizada com uma apresentação musical,ou melhor dizendo uma "orquestra eletrônica", a platéia do pequeno teatro do Oi Futuro foi brindada com uma aula sobre o funk, ou o "pós-funk", como o gênero está sendo chamado depois de rodar o mundo agregando musicalidades diferentes, tanto regionais quanto internacionais.
Depois de 40 minutos de atraso, finalmente o público, que se concentrava no lado de fora do teatro, pode entrar no pequeno teatro com ar informal: não há cadeiras, apenas almofadas e a platéia se espalhou por ali mesmo. Depois de uma "mensagem dos patrocinadores", um vídeo institucional da bebida energética que promoveu o evento, Hermano Vianna, que estuda o gênero desde o seu início, no final da década 80, deu o início a "aula de história" do funk traçando uma linha do tempo, baseada em faixas de música, a partir do seu iPod.
O nome "funk" também batiza um outro gênero, vertente da música negra americana surgida na década de 70 cujo maior expoente foi o já falecido cantor James Brown. Não por acaso a "aula" começou com uma música do cantor, que mais tarde serviria de inspiração para um grupo de funk chamado Bonde do Vinho. Em seguida, quem serviu de exemplo foram os alemães do Kraftwerk, que com sua música eletrônica pioneira, também iria inspirar funks cariocas com o seu hit "Trans-europe express".
- A evolução do funk foi impressionante. No final da décade 80 o que tocava nos bailes era 100% internacional. Em 5 anos, em 92 ou 93, o repertório já era 100% nacional - contou Hermano, provando que tem experiência no assunto.
Quem estava por lá descobriu por que o "batidão" também é chamado por de Miami bass: as primeiras bases instrumentais usadas no início do funk em português eram em quase sua maioria originadas da cidade norte-americana localizada no litoral da Florida. E ficou sabendo que mesmo sem tocar em seus bailes, o DJ Marlboro contou por que entende que o "proibidão" exista (vertente "underground" do funk cujas letras exaltam o crime, o tráfico de drogas e facções criminosas).
- No auge do funk, a música era da favela para o asfalto. Quando ele foi "banido" o gênero surgiu como uma voz da favela para a favela. Os jovens do "proibidão" cantam o que vêem em sua realidade: se as letras intrigam as pessoas, elas deveriam pensar no cotidianos desses jovens - declarou o DJ, que acaba de voltar de uma série de bailes na Eslovênia.
No entanto, ele fez questão de ressaltar que não aprova o gênero e não o toca em suas bailes. Outros DJs também contaram histórias sobre bailes e a produção das primeiras músicas com as M.P.C.s, baterias eletrônicas formada por butões onde são gravadas bases anteriormente. O aparelho, que é o instrumento usado para criar os "batidões", é a maneira por quais esses DJs (Clay, Grandmaster Rafael, Buchecha, Fábio, M.P.C. e Cabide) se destacaram criando seus próprios sons e não limitando-se somente a tocar músicas já existentes.
O conceito de "pós-funk" foi criado por que o gênero evoluiu muito desde que era baseado somente nas batidas graves criadas em Miami. O funk atual ganha este novo título por que agora é tocado não só em muitas regiões do Brasil como também em muitos países do mundo e por isso absorveu diversos elementos de inúmeras musicalidades, que se extendem do violão do chorinho aos teclados da house music passando pelos vocais falados do hip hop,promovendo assim a evolução do gênero.
Ao final da "aula" foi exibido um trailer do documentário "Favela Blast" que promete ser um grande registro sobre o gênero. Em seguida uma experiência inédita foi apresentada ao público que marcou o fim do espetáculo. Quatro baterias eletrônicas foram ligadas e se comunicando através do som das batidas, os DJs Clay, Fábio (residente do Castelo das Pedras), M.P.Cs e Cabide improvisaram sons ao vivo criando batidas inéditas fazendo o público sentado até então, se levantar e deixar o teatro dançando ao som do "batidão".