Hugo Cals, Agência JB
RIO - Luiz Fernando Lobo comemora os 15 anos da Companhia Ensaio Aberto com a peça Havana Café , em cartaz no teatro Café Pequeno, no Leblon. A peça traz um conceito diferente: é dividido em cinco partes que aguçam os sentidos do espectador e mostram que todo o glamour da vida de cabaré tem seu lado de ilusão. No musical, o público se instala em meio ao cenário de um cabaré e um barman (elenco) prepara coquetéis que são servidos ao público por atrizes que interpretam garçonetes.
Em 2002, ou Lobo recebeu o Prêmio Golfinho de Ouro, dado pelo Conselho de Cultura do Estado, pelo conjunto de sua obra, que inclui, entre outros espetáculos, "O cemitério dos Vivos", "Missa dos Quilombos", e "Olga Benário - um breve futuro", Em entrevista ao JB Online, ele falou sobre a situação do teatro no Brasil, o conceito de Havana Café , e sobre seus projetos futuros.
JB Online: Da onde surgiu o conceito da peça "Havana Café"? Existia uma vontade de maior interação com a platéia?
Luís Fernando: Todo o trabalho da Companhia Ensaio Aberto, desde sua fundação há 15 anos, está estreitamente ligado ao teatro de Bertolt Brecht. Nossa busca, assim como a do dramaturgo alemão, é a de criar uma nova relação palco e platéia, rompendo com a esterelidade da cena e tentando trazer à tona as contradições da nossa sociedade no nosso tempo. Para um novo teatro é preciso um novo público e Brecht via no público dos cabarés e no público dos esportes a esperança de transformação da estrutura teatral. Daí vem uma centralidade em toda sua obra, do papel das músicas. Havana Café é filho direto disso.
Quanto a maior interação com o público, melhor. Este é o nosso desejo em todos os espetáculos, não é uma característica específica do Havana Café. Para nós o espectador é o quarto criador. Daí vem também o nosso nome: Ensaio Aberto. Nossos espetáculos são como ensaios, sempre abertos a transformações que ocorrem dia a dia, com a participação dos espectadores. Certamente por isso obtivemos, ao longo destes 15 anos, uma enorme fidelidade de muitos espectadores que nos acompanham desde a criação do nosso primeiro espetáculo (Cemitério dos Vivos), que sabem que o traço fundamental do nosso trabalho é um constante embate com a realidade, como forma de compreendê-la e, se possível, transformá-la.
JB Online: O teatro no Brasil não é uma arte devidamente valorizada. Com 15 de anos de companhia, o que você pode apontar como "fórmula de sucesso"? Como atrair maiores públicos para o teatro?
Luís Fernando: Não existe fórmula de sucesso. O teatro se refaz e se reinventa a cada nova encenação, exatamente por isso é sempre uma aventura rumo ao desconhecido. Sabemos de onde partimos, temos clareza de para onde ir, mas o ponto de chegada é sempre obscuro. Os espetáculos que trabalham com "fórmulas de sucesso" negam, por definição, a essência da efemeridade desta arte. E, mesmo estes, freqüentemente dão com os burros na água, ficam apenas com a fórmula e um fugaz desejo do sucesso. São sempre os mais frustrantes, para quem faz e, conseqüentemente, para quem assiste.
O que existe, quando se trabalha com uma companhia, é uma fidelidade a certos princípios: estéticos, políticos e de visão de mundo. Quando o público reconhece isso, estabelece uma relação de encontro com aquela determinada companhia, uma espécie de afinidade eletiva e, a partir deste encontro fideliza-se uma relação. É por isso que, cada vez mais, os grupos e companhias conseguem estabelecer novas relações com as platéias e não vivem a mesma crise de público que o teatro comercial sempre aponta.
Para atrair mais público para o teatro é preciso políticas públicas, principalmente voltadas para os espaços de apresentação e para democratização do acesso. No Brasil, o teatro é caro para quem paga e barato para quem depende dele. É preciso destacar que é uma enorme mentira dizer que no Brasil o público não gosta de teatro. Todas as campanhas ou as atividades isoladas que tiveram como foco a democratização do acesso tiveram sempre enorme êxito.
JB Online: No panorama atual, quais são as outras companhias ou artistas que o influenciam? E depois do "Havana Café", existem planos pro futuro?
Luís Fernando: Além da referência já citada de Brecht temos que destacar o papel de Meyerhold e Eisenstein. Como coletivo de trabalho é inegável a importância para nós do Theatre du Soleil e de sua diretora Ariane Mnouchkine. Citaria ainda o Teatro Taganka, de Moscou, com o seu diretor Yuri Liubimov, além de Mathias Langhoff. Ainda como referências históricas é sempre fundamental lembrar o trabalho do Oficina, do Arena, do Opinião e do CPC. No Brasil hoje, várias companhias compartilham seus processos de trabalho. Destacaria particularmente o trabalho da Companhia do Latão e do Folias D'Arte, ambas de São Paulo, além da importante referência que é o trabalho do Grupo Galpão.