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Um cara do bem chamado Moska

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Angélica Paulo, Agência JB

RIO - Eu sou um cara bom. Quem lê esta frase pode pensar, inicialmente, que seu autor carece de várias características, menos de humildade. Ledo engano. Proferida em recente entrevista concedida ao JB Online pelo cantor Moska, ou Paulinho, como é chamado carinhosamente por amigos e pelos músicos que o acompanham, a frase é uma prerrogativa essencial para descrevê-lo.

Irrequieto e falante, o cantor, que iniciou carreira musical no final dos anos 90 com o extinto grupo Inimigos do Rei , é um existencialista por natureza. Como na corrente filosófica iniciada por Sartre, prega a liberdade individual como lema principal para a sua vida. Por esta razão, não aceita rótulos ou definições únicas.

- Eu não me considero cantor, compositor, nem um ator ou fotógrafo. Na verdade, gosto de fazer tudo isto junto revela, acrescentando que é essa junção de diversidades que torna o ser humano e ele está incluído nessa categoria - único. A gente tem potencial para ser muitas coisas e muitas pessoas ao mesmo tempo disse.

E foi pensando dessa maneira que o filho do seu Marcello se deixou seduzir, aos 13 anos, pelos acordes de um violão. Por influência dos irmãos, dos pais e até mesmo da empregada, deixou-se impregnar por um verdadeiro caldeirão de estilos, que iam desde Led Zeppelin, passando pelas principais bandas de pop rock dos anos 80, até chegar em Caetano e Gil, sem esquecer de Roberto Carlos e sua turma.

- Na minha família cada um gostava de uma coisa. Meu pai dos clássicos, meus irmãos de rock. Acabei absorvendo tudo aquilo, pegando o que cada um tinha de melhor. Waldik Soriano, Wando, que minha empregada sempre ouvia, também estão na lista. Esses caras são maravilhosos! empolgou-se.

E empolgação é a maior característica do cantor ao falar de seu momento profissional atual. Após 13 anos, rescindiu contrato com a gravadora EMI para lançar seu próprio selo, Casulo . E o que inicialmente seria apenas o instrumento para distribuição de sua obra fonográfica, acabou virando uma produtora, na qual, além do CD e DVD, também realizou Zoombido , programa apresentado por ele e exibido na Rede Brasil, que versa sobre o processo criativo de um compositor.

Como se já não bastassem todos esses projetos, ainda encontra tempo e disposição para ser mestre de cerimônias do Mercosul Musical , festival de música latino-americana que acontece semanalmente em Brasília. Isso sem falar da exposição de suas fotos na academia Estação do Corpo da Lagoa, além dos shows no Estrela da Lapa, casa de espetáculos no famoso e boêmio bairro carioca, onde se apresenta com a turnê + Novo de novo .

- Isso tudo dá um trabalho danado, mas me alimento muito dessa diversidade toda contou, feliz pelas novas empreitadas. - Eu não tenho mais patrão e isso é ótimo. Apesar de ter passado 13 anos dentro de uma gravadora e conhecer a comodidade que isso dá, ao sair consegui ver que eu estou trabalhando mais, só faço o que eu quero e estou ganhando mais por isso!

Mesmo independente, Moska não esquece que foi essencial para sua imagem artística o tempo que passou como contratado da EMI. Foi ali que construiu a imagem que tem hoje, de artista multifacetado. Porém, como ele mesmo gosta de frisar, sem ser tolhido pela especialização.

- Quanto mais eu fotografo, mais a minha poesia melhora, quanto mais eu escrevo, mais quero fazer uma canção melhor para aquela letra, quanto mais eu estou no palco, mais eu quero ser um ator sintetizou o cantor, que também é formado pela CAL e conta com nove filmes entre eles O homem do ano e Um trem para as estrelas , no currículo.

Apesar de toda a exposição que seus trabalhos lhe deram, ainda faltam muitas conquistas para este fã dos quadrinhos de Neil Gaiman e Will Eisner. Uma delas é mais comum do que se pode imaginar.

- Queria muito me apresentar num programa popular, como Faustão ou o Leão. Eu tento muito, mas sempre tem uma desculpa para não me chamarem confessou, um pouco frustrado.

A explicação para essa espécie de rejeição da chamada mídia de massa é dada pelo próprio Paulinho.

- Tenho essa coisa de cantor cabeça só porque, no início da carreira, falei um pouco sobre filosofia, sobre existencialismo. Acho que isso assustou um pouco o público. Mas tenho muita vontade de me apresentar num desses programas mais populares, até porque sou de uma gravadora popular, a Som Livre (para a qual o selo Casulo distribui seus produtos) disse, acrescentando que não se considera um artista polêmico, hipótese que explicaria a falta de convites. Minha intenção sempre foi de tranqüilidade, paz e amor.

Suas letras, entretanto, sempre foram elogiadas pela crítica especializada. Autor de canções como O último dia , que o popularizou graças a uma minissérie exibida pela Rede Globo, A seta e o alvo e Pensando em você , Moska se considera um romântico por natureza e não um poeta como alguns insistem em chamá-lo.

- Minhas letras são simples demais. Pensando em você , por exemplo, é mais simples que Parabéns para você resumiu, assumindo que seu processo criativo advém de tudo aquilo que, de alguma maneira o afeta, chama a sua atenção. Gosto de ser o artista promíscuo, que flerta com tudo e, á partir desta diversidade, criar minha assinatura, minha singularização.

A veia artística, aliás, nasceu cedo. Filho da classe média, costumava assistir, ainda criança, aos shows no Morro da Urca, onde seu pai trabalhava como administrador, escondido debaixo da mesa de som, para fugir do Juizado de Menores. Esse tipo de experiência, segundo ele, serviu para definir o que gostaria de ser quando crescesse. Por esta razão, nunca foi um jovem ligado em política ou qualquer tipo de questão ligada aos interesses sociais.

- De uma certa maneira, senti que essa postura, essa ignorância, resguardou minha juventude. Para mim, ser artista significava não me envolver com estas coisas. Mas ao mesmo tempo fui crescendo e tendo responsabilidades com filho, com minha própria vida e tomando consciência de como o mundo funciona. Então, não pude mais fugir disso.

Aprendeu o que é sofrimento já na idade adulta, graças ao diretor sueco Ingmar Bergman e hoje, aos 40 anos, sabe que, como artista cujas letras atingem milhares de pessoas, precisa se posicionar num mundo ao mesmo tempo globalizado e dividido, com uma população que tem carências de diversas coisas, desde comida até amor. E esta visão está estampada em suas letras as quais, segundo ele, por mais que falem de sentimentos muitas vezes comuns, têm sempre uma crítica política escondida num jogo de palavras. Basta querer encontrá-las.

Antes de descer para o show, pausa para algumas fotos. Encara com perfeccionismo uma simples brincadeira proposta pela jornalista. O resultado são ângulos diversos de uma mesma imagem, mostrando que cada maneira de ver a si mesmo e ao mundo é única, apesar das percepções para a imagem serem várias, depende apenas da maneira com que se olhe.

Moska é, no melhor sentido, um cara bom. Bom de se ouvir, de se cantar, de se ver, de conversar com ele. Um artista do bem, que apesar de não se considerar conhecido pela massa, tem em suas apresentações uma platéia apaixonada, que canta cada estrofe sua como se refletisse o que lhe vai no íntimo. Mergulhe nesse som.