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Jovens diretores foram os únicos brasileiros premiados em Cannes

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Agência EFE

RIO DE JANEIRO - O Festival de Cannes de 2007 terminou neste domingo tendo entregue pelo menos uma premiação para brasileiros: os paulistas Juliana Rojas e Marco Dutra ganharam o prêmio Découverte de melhor curta-metragem para 'Um Ramo' na Semana da Crítica, a principal mostra paralela do evento.

Foi o único prêmio dado a um filme do Brasil na edição deste ano e o primeiro dos dois jovens cineastas.

"Ficamos surpresos porque, apesar de o filme ter sido muito bem-recebido, não esperávamos ganhar nada. Já estávamos muito felizes só por estarmos aqui. Mas é chocante, porque é um prêmio muito importante', disse Dutra à agência Efe por telefone.

Os diretores, junto com a produtora Sara Silveira, receberam o prêmio na sexta-feira, na cerimônia de encerramento da Semana, cujo propósito é 'descobrir novos talentos de diretores em todo o mundo'. O Découverte é patrocinado pela Kodak e paga ¬ 3 mil em rolos de película aos vencedores.

Marco e Juliana repetiram o feito do também paulista Esmir Filho, que em 2006 ganhou o prêmio Grand Cru na mesma mostra. Esmir, que este ano voltou com o novo curta 'Saliva', também ficou famoso no ano passado com o vídeo 'Tapa na Pantera', transformado em fenômeno ao ser divulgado pelo YouTube.

Entre os longas, o vencedor do Grande Prêmio da Crítica foi "XXY', da argentina Lucía Puenzo, filha de Luis Puenzo, diretor de "A História Oficial', 'Gringo Velho' e 'A Prostituta e a Baleia'. Co-produção entre Espanha, França e Argentina, 'XXY' foi exibido na mesma sessão que 'Um Ramo'.

Já na seleção oficial, o vencedor da Palma de Ouro foi o romeno "4 Luni, 3 Saptamini Si 2 Zile', de Cristian Mungiu. O brasileiro "Mutum', de Sandra Kogut, concorreu na Quinzena dos Realizadores.

Outros títulos do cinema nacional que passaram em Cannes este ano foram o longa 'A Via Láctea', de Lina Chamie (também na Semana da Crítica), e o curta 'Saba', de Gregório Graziosi (Cinéfondation), além do clássico 'Limite' (1930), de Mário Peixoto.

"Um Ramo' venceu o prêmio concorrendo com outros seis curtas, vindos do Líbano, da Nova Zelândia, da França e do Canadá. O vencedor foi escolhido por um júri de sete cineastas e críticos franceses.

Este ano, o embaixador da Semana da Crítica foi o ator mexicano Gael García Bernal, a quem Juliana chamou de 'muito simpático' e engajado.

"Ele demonstrou uma preocupação com o cinema latino-americano em geral, e o mexicano em particular, junto com outros cineastas como Alfonso Cuarón, que também estava lá', disse. Segundo a diretora, em Cannes existe uma preocupação de incentivar o cinema de países latinos.

Marco Dutra e Juliana Rojas já tinham estado no Palácio do Festival em 2005, quando seu curta 'O Lençol Branco' concorreu ao prêmio Cinéfondation, dedicado a filmes universitários.

Em 2002, o carioca Eduardo Valente venceu o mesmo troféu com 'Um Sol Alaranjado'. Para os diretores, as portas de Cannes estão definitivamente abertas para o cinema brasileiro.

"Ano passado, o Esmir já tinha ido e vencido um prêmio. Tanto na Semana da Crítica quanto no Cinéfondation sentimos uma grande receptividade aos filmes brasileiros atuais. Não pelo fato de serem do Brasil, mas porque a qualidade da produção está aumentando', contou Juliana.

Ela atribui essa mudança ao número de editais e projetos de fomento ao cinema independente, que vem crescendo no país. - Atualmente existem mais oportunidades de apoio do que havia alguns anos atrás. Tendo mais recursos, há mais chances de fazer produtos de qualidade-, afirmou.

Em 15 minutos, o curta conta uma história de Clarisse (Helena Albergaria), uma mulher que começa a se transformar em planta. O "ramo' do título é o primeiro sinal da metamorfose: uma pequena folha que a protagonista vê nascer no próprio braço.

- Quisemos mostrar a história de uma personagem que passa por uma transformação meio fantástica, que pode ser uma coisa boa, mas ao mesmo tempo violenta. Gostamos dessa ambigüidade, que se pode associar com a feminilidade: para a mulher, é assustador ser um ser fértil, uma coisa que gera a vida mas também transforma o corpo e causa dor-, explicou Juliana, lembrando que os espectadores têm interpretações diferentes.

O estilo dos cineastas foi comparado pelos críticos em Cannes com os de mestres do suspense, como Alfred Hitchcock e David Cronenberg.

- A obra do Cronenberg foi uma referência inconsciente que a gente teve durante a produção. Achei interessante levantarem que pode ter uma similaridade-, diz Marco, satisfeito.

Os dois se formaram em Cinema em 2004 pela Universidade de São Paulo (USP), onde se conheceram. Desde então, já produziram quatro curtas-metragens juntos. Mesmo com a boa receptividade, os realizadores afirmam que não esperavam levar o prêmio e que tiveram uma grata surpresa.

Os brasileiros vão ter que esperar até os festivais nacionais para poder assistir a 'Um Ramo'. Mas o filme já tem sessão marcada na reexibição dos selecionados de Cannes que acontecerá em São Paulo, na última semana de agosto, durante o Festival Internacional de Curtas.

Quando voltarem ao Brasil, na terça-feira, Marco e Juliana trarão na bagagem um trunfo para novos projetos. Além de mais um curta em película e dois em vídeo, a dupla prepara a produção do primeiro longa-metragem, chamado 'Trabalhar Cansa'.

Ainda comemorando, Juliana Rojas espera que o prêmio francês vá ajudar a dar impulso para este salto mais longo. - A gente ganhou um prêmio que facilita na hora buscar parcerias no Brasil e no exterior para produzir o filme. Afinal de contas, é Cannes-, resume.