'Batismo de Sangue' traz visão de Frei Betto da ditadura

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SÃO PAULO - Histórias sobre a ditadura brasileira (1964-1985) formam uma das fontes de inspiração do cinema brasileiro atual. Depois do sucesso e premiações de 'O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias', de Cao Hamburger -- que chegou a competir no Festival de Berlim --, chega às telas nacionais nesta sexta-feira 'Batismo de Sangue'.

Dirigido pelo mineiro Helvécio Ratton ('Uma Onda no Ar'), o filme, que recebeu os troféus de melhor direção e fotografia no Festival de Brasília 2006, adapta as memórias do religioso e escritor mineiro Frei Betto, como é conhecido o frade, jornalista e escritor Carlos Alberto Libânio Christo, ex-assessor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Exibindo cenas de tortura com uma franqueza que o cinema nacional não registrava há muito tempo, como aconteceu em filmes como 'Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia' (1977), de Hector Babenco, e 'Pra Frente Brasil' (1982), de Roberto Farias, 'Batismo de Sangue' aborda um período que começa em 1968, quando um grupo de jovens frades dominicanos aderiu à luta armada.

Sem o conhecimento da cúpula da Igreja Católica, estes religiosos faziam contatos e davam apoio à fuga de guerrilheiros de esquerda, em plena ditadura militar, governo do general Emílio Garrastazu Médici.

Entre eles, Frei Betto (Daniel Oliveira) e Frei Tito de Alencar (Caio Blat) -- que terminou suicidando-se na França, em 1973, depois de sofrer um longo processo de depressão, causado pelas torturas sofridas sob as ordens do delegado Sérgio Paranhos Fleury (Cássio Gabus Mendes).

O projeto desta filmagem começou em 2002, quando Frei Betto enviou ao diretor Helvécio Ratton seu livro 'Batismo de Sangue' com uma dedicatória: 'Coragem! A realidade extrapola a ficção'. Também ajudou Ratton o fato de ter militado na luta armada nos anos 1970. O futuro cineasta chegou a viver exilado no Chile por alguns anos.

Ao voltar ao Brasil em 1973, foi preso e passou alguns meses em celas escuras, isolado e, às vezes, completamente nu e encapuçado, como ele relata no livro 'Helvécio Ratton -- O Cinema Além das Montanhas', de Pablo Villaça, da Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo.

Todo esse conhecimento de causa que Ratton, inegavelmente, possui, no entanto, não se traduz com o mesmo impacto no filme que realizou.

'Batismo de Sangue' coloca sua ênfase mais num retrato de época externo aos personagens (os automóveis, os figurinos, os óculos), não conseguindo colocar o espectador no centro de seus sentimentos e motivações.

Do dia para a noite, alguns frades dominicanos aliaram-se à luta armada, mas nunca se entende como e porquê. Disso resulta um trabalho estranhamente distanciado justamente de uma época da História do Brasil em que explodiam todas as paixões, a política inclusive. Há, também, um visível desequilíbrio nas interpretações -- cada ator parece estar seguindo seu próprio caminho.