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Um estilo Guinga de ser e cantar

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Álvaro Costa e Silva, Agência JB

RIO - Um estilo Guinga de ser e cantar

Música: Compositor carioca interpreta oito das 12 canções de seu novo CD, 'Casa de Villa'

Álvaro Costa e Silva

Aos sábados, Guinga acorda antes das seis como em todos os dias da semana e separa o uniforme e as chuteiras. É o dia da pelada sagrada. Do Leblon, onde mora, pega três ônibus até o sítio em Santa Cruz da Serra, distrito de Duque de Caxias. Há 31 anos cumpre o ritual de apertar a mão dos companheiros ao chegar um abraço carinhoso é dado em Quinzinho, grande amigo e conselheiro e depois bater bola, distribuindo o jogo no meio de campo.

Joga com lealdade, mas, com a cabeça quente, é capaz de xingamentos cabeludos. Na hora de ir embora, pede desculpas. Grafite e diamante / Um beijo em Irajá / Negro Caribe / Mar fundão de Paquetá / Cidade maviosa / Rascunho da saudade / Guanabarabaia / As águas vão rolar , diz a letra de Maviosa, a primeira que Guinga escreveu na vida:

Aos 18 anos, quando conheci Paulo César Pinheiro, cheguei à conclusão de que letra não era comigo. A de Maviosa foi fácil de fazer, é a crônica do que vejo da janela do ônibus quando vou para Santa Cruz da Serra diz o compositor. Esta pelada representa muito na minha vida. Descobri isso quando fui excursionar pela Europa e Estados Unidos durante dois meses. Já no caminho para o Galeão, me deu um banzo danado. Lembrei que naquela hora devia estar começando o segundo tempo da pelada. Pensei: dois meses sem bater minha bolinha, dois meses longe dos amigos, dois meses sem o Leblon, a Avenida Brasil, a Igreja da Penha, Xerém. Quase não fui viajar.

Pode parecer estranho. E é. Mas quem conhece Guinga, 57 anos, mas com corpinho de 30, sabe que ele é assim: imprevisível, exagerado, sentimental, como todo peladeiro que se preza. As mesmas qualidades estão presentes no novo CD, Casa de Villa, título que remete às residências do subúrbio e à música de Villa-Lobos um gênio que formatou o melhor da música brasileira .

É o sétimo disco da carreira no Brasil (ou o oitavo, se entrar na conta Catavento e girassol, que Leila Pinheiro gravou em 1996, só com composições dele e de Aldir Blanc, ou o décimo, valendo os dois que fez na Itália) e o primeiro a sair com o selo da gravadora Biscoito Fino. Nele, a novidade é que Guinga resolveu seguir um conselho de Djavan: cantar suas próprias canções. Sua voz aparece em oito das 12 músicas.

Não posso me considerar um cantor reconhece. Mas uma coisa é certa: ninguém melhor que eu sabe aonde vai a minha canção. Afinal, fui eu que fiz. Com a tecnologia moderna e com a cara de pau desse tamanho, decidi que poderia cantar. Não sou um Orlando Silva, um Sílvio Caldas, um Caetano Veloso, mas dou o recado. Você não acha o Nelson Cavaquinho fabuloso como cantor? pergunta ele, que, por falar mais que a preta do leite, às vezes se esquece que é o entrevistado e entrevista o entrevistador.

Para realizar o novo trabalho, Guinga cercou-se de amigos de longa data: o guitarrista Lula Galvão, o violonista Paulo Aragão, o trompetista Jessé Sadoc, o clarinetista Paulo Sérgio Santos, o flautista Carlos Malta. O produtor é Marcus Tardelli, violinista e arranjador do grupo Maogani, que no seu disco Unha e carne, de 2005, revisou as canções do amigo. Os elogios para Tardelli são generosos:

É o maior violonista que vi tocar na minha vida. Um revolucionário.

O artista vê pontos de semelhança entre Casa de Villa e Delírio carioca, de 1993: a presença dele como cantor e um violão mais despojado, menos erudito que aquele dos discos Suíte Leopoldina (1999), Cine Baronesa (2001) e Noturno Copacabana (2003).

Às vezes, é melhor estar nu que vestido resume.

E que bela nudez se revela desde a faixa de abertura: a valsa Mar de Maracanã, com letra de Edu Kneip, uma homenagem ao bairro onde fica o maior estádio do mundo, tantas vezes freqüentado pelo vascaíno Guinga, que ali esteve muitas vezes para ver craques de outros times: Garrincha, Nilton Santos, Pelé, Gérson, Zico. Bigshot é um ragtime com levada de xote, e Comendador Albuquerque, outra valsa, tristíssima, homenagem ao amigo Paulinho Albuquerque (produtor de Simples e absurdo, o disco de estréia), morto no ano passado, de enfarte. Os parceiros de fé comparecem: Paulinho Pinheiro em Porto de Araújo e Aldir Blanc em Tudo fora de lugar ( Prezo muito a intensidade do momento / Meu amor quer me beijar / Eu procuro aproveitar ). Com a compositora e cantora Simone Guimarães, há duas as parcerias: Capital e Jongo de compadre.

Fazer música é uma grande ilusão filosofa o violonista. E quem quiser gostar da que faço, goste. Quem não quiser, desgoste. Mas tenho noção do que sou. Não sou as maiores porradas nem os maiores elogios.