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Para degustar de hashi

Cultuada por filmes como A floresta dos lamentos, Naomi Kawase leva Juliette Binoche numa jornada afetiva pelo Japão em Vision, longa mais esperado da competição de San Sebastián

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA *, Especial JB

Delicadeza, a raiz forte da culinária estética da cineasta japonesa Naomi Kawase, anda fazendo o Festival de San Sebastián salivar: “Vision”, o novo longa-metragem da aclamada realizadora de 49 anos, vai estrear por lá, em competição, hoje. Estima-se que ele passará pelo Brasil em novembro. Até lá, a primazia é da cidade espanhola, localizada em território basco, do ladinho da França. Até sábado, San Sebastián sedia mais uma edição – esta é a 66ª – da mais prestigiada mostra de cinema de seu país (e uma das mais respeitadas do mundo), chamada Donostia Zinemaldia no idioma local (o Euskara). Nos papos de corredor do Donostia, dizem que o longa chegou para ganhar a Concha de Ouro, o troféu principal, pois. Naomi é considerada a realizadora nº 1 da Ásia, por conta de produções premiadas como “Esplendor” (2017). Em “Vision”, se apoia em especiarias de Paris: quem protagoniza o filme é a francesa Juliette Binoche, estrelando um enredo rodado no Japão.

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No set, a aclamada diretora entre Masatoshi Nagase e Juliette Binoche, o casal protagonista (Foto: Divulgação)

“Venho fazendo filmes mais leves nos últimos cinco anos, para que eu encare as trevas deste nosso mundo louco e prove que, mesmo entre elas, pode existir a esperança”, disse Naomi ao JB em recente entrevista em Cannes.

A diretora teve de cancelar sua passagem por San Sebastián em cima da hora, por problemas pessoais não divulgados, mas seu filme segue na disputa. Ela rodou “Vision” em sua terra natal, Nara, região de 360 mil habitantes e antiga capital do Japão, hoje famosa por seus templos budistas. “Você acredita que filmar em um local familiar pode te dar mais controle sobre o acaso, sobre a natureza... mas estes são forças indomáveis. Quando menos você espera, vê alguém fazendo reverência para a lua ou conversando com flores, sem que isso tenha sido combinado. São reações naturais”, diz a cineasta.

Queridinha da crítica europeia desde a conquista do Grande Prêmio do Júri de Cannes, com “A floresta dos lamentos”, em 2007, Naomi começou a carreira em 1992, alternando narrativas filosóficas quase fabulares com enredos sobre reconstruções afetivas, sempre na linha da sutileza. Agora, ela aborda o amor de maneira mais escancarada em “Vision”. Na trama, Juliette é Jeanne, pesquisadora que viaja por matas nipônicas à caça de uma planta medicinal rara, que brota de 900 em 900 anos. Seu guia (Masatoshi Nagase) vai mudar sua forma de ver o querer e evocar uma paixão que Jeanne experimentou em sua mocidade.

“Há pouco diálogo nos meus filmes porque as palavras nem sempre dão conta de fluxos emotivos. Eu faço filmes sobre encontros. E, aqui, o encontro de almas se dá longe da casa da protagonista”, diz Naomi, que já tem um filme novo em finalização para 2019: “Parallel world”, sobre um sujeito que revisita um observatório, onde esteve em um momento crucial da adolescência. “Eu preciso deixar as emoções fluidas nos meus planos, dando a eles o tempo de que necessitarem, pois eu não posso tirar da plateia a habilidade de contemplar. A tecnologia que usamos no dia a dia já prejudicou muito nossa contemplação, nossa habilidade de ruminar o que vemos e buscar novos sentidos”.

Em San Sebastián, “Vision” disputará troféus com produções inéditas de realizadores de peso autoral, como o filipino Brillante Mendoza (“Alpha, the right to kill”), a chilena Valeria Sarmiento (“Le cahier noir”), o ator parisiense Louis Garrel, que assina a direção de “Un homme fidèle” (até agora o mais forte concorrente); e a também francesa Claire Denis, no páreo com a esperadíssima sci-fi ‘High life’”, também com Binoche. O júri é presidido pelo diretor americano Alexander Payne. Fora da peleja por prêmios, o festival agendou a exibição hors-concours da comédia dramática “Shoplifters”, do japonês Hirokazu Kore-eda, um dos colegas mais queridos de Naomi. “Somos amigos há uns 23 anos, com linhas narrativas muito distintas. Ambos começamos nossas carreiras filmando documentários sobre famílias e suas rotinas”, explicou a diretora.

Aberto na sexta-feira com a projeção de “El amor menos pensado”, com Ricardo Darín, San Sebastián viveu um fim de semana de emoções ao entregar seu troféu honorário, o prêmio Donostia, ao ator e diretor Danny DeVito, hoje com 74 anos, pelo conjunto de sua carreira, iniciada em 1970. Seu trabalho mais recente, a animação “PéPequeno”, na qual ele entra na trupe de dubladores, integra o cardápio de San Sebastián. Nesta quarta, o festival recebe o casal de diretores Cristina Gallego e Ciro Guerra, da Colômbia, que trazem o badalado “Pájaros de Verano”, uma das sensações de Cannes. Guerra foi indicado ao Oscar em 2016 com “O abraço da serpente” e volta agora, ao lado de sua companheira, com uma trama sobre a violência do tráfico de drogas na ótica de uma população ameríndia.

O Brasil participa desta vitrine audiovisual com longas como “Los silêncios”, de Beatriz Seigner, e “Ferrugem”, de Aly Muritiba, além das coproduções “Sueño Florianópolis”, de Ana Katz, e “As herdeiras”, de Marcelo Martinessi. O Festival de San Sebastián segue até o dia 29.

*É roteirista e crítico de cinema

 



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