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Galeria de Arte Ipanema conecta obras paralelas de Alfredo Volpi e Ione Saldanha

Jornal do Brasil JOÃO PEQUENO, joao.pequeno@jb.com.br

“‘Será que eles se conheceram?’ Essa é uma especulação minha, que eu fiz durante esse trabalho”, conta Paulo Venancio Filho, curador de “Alfredo Volpi e Ione Saldanha: o frescor da luminosidade”, mostra que a Galeria de Arte Ipanema inaugura hoje, às 19h, e mantém exposta até 3 de novembro, com ênfase nas fachadas de Volpi (1896-1988) e nos bambus por Ione (1919-2001).

Venancio Filho classifica como “inventor da alegria na pintura brasileira” o italiano nascido em 1896 na cidade de Lucca, na Toscana, e emigrado para o Brasil no ano seguinte, com os pais.

Foi de Alfredo Volpi a primeira obra adquirida pela Galeria de Arte Ipanema, em 1965, quando o espaço foi inaugurado. Ele ainda teve quatro exposições individuais em Ipanema – duas em vida (1974 e 1979) e outras duas póstumas (1999 e 2003). Amigo do artista, Luiz Sève, dono da galeria, lembra que uma de suas obrigações, quando viajava para a Europa, era trazer tubos de tinta para Volpi – além do queijo italiano pecorino, sua paixão, então difícil de se encontrar no Brasil.

Neste ano, a ideia da família Sève era de montar mais uma individual de Volpi, lembrando os 30 anos de sua morte, mas acabou se optando pela inclusão de uma artista com expressão considerada similar.

“Inicialmente, seria só do Volpi, mas em conversa com a galeria, achamos interessante ter outro artista e surgiu o nome da Ione”, prossegue o curador, que identifica “um paralelismo” entre as obras dos dois pintores, de trajetórias diferentes, mas cujos trabalhos estiveram juntos em diversas exposições ao longo do século passado, como em 1953, na 2ª Bienal de São Paulo.

Naquele ano, a gaúcha Ione, nascida em Alegrete, em 1919, vivia na Europa, para onde havia se mudado em 1951, inicialmente em Paris e, depois, em Florença, na Itália, após ganhar medalha de bronze por seu trabalho no Salão Nacional de Belas Artes – Divisão Moderna, em 1948. Depois de sua temporada europeia, a pintora voltaria ao Rio de Janeiro, onde viveria até o fim de sua vida, no Leblon, vizinho ao bairro da galeria.

Por sua vez Volpi, então já um veterano de 57 anos, egresso da segunda geração do Modernismo brasileiro, vivia no Cambuci, bairro de forte imigração italiana na capital paulista.

Macaque in the trees
Curador da mostra aponta paralelismo entre bambus de Ione e fachadas de Volpi (foto) (Foto: Divulgação)

Se um era conhecedor da obra do outro, “certamente a Ione conhecia a de Volpi e o contrário é menos provável, mas é possível”, diz Venancio Filho, pesando fatores como a diferença de 23 anos de idade entre eles, além da distância física e a diversidade entre os ambientes onde foram criados e viveram suas vidas pessoal e artística.

“Isso não significa que haja influência”, pondera o curador. “Mas, mesmo por coincidência, eles tinham uma proximidade muito grande”.

Modernas coincidências entre cores, telas e bambus

Fachadas de casas formam uma dessas coincidências entre as duas obras, além das cores usadas pelos artistas

“Não estou pretendendo levantar nenhuma tese”, brinca Paulo Venancio Filho. “Nossa ideia foi de colocar as obras de ambos em um ambiente no qual o espectador possa sentir essa presença de afinidade entre os dois, mostrando uma proximidade, iniciada especificamente com as casas e fachadas do Volpi. A partir delas, há uma construção pictórica que cria um paralelo entre os dois”.

Sobre esse caráter “paralelo”, o curador entende que “a simplicidade rítmica de porta e janela das casas modestas, de casarões e sobrados se transferiu para a pintura de ambos e absorve não só a geometrização arquitetural, como também as cores, simples, claras, puras, que caracterizam essa pintura na margem do construtivismo brasileiro, nem concretista, nem neoconcretista estrito”.

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Curador da mostra aponta paralelismo entre bambus de Ione (foto) e fachadas de Volpi (Foto: Divulgação)

Velhos frequentadores da Galeria de Arte Ipanema, os quadros de Volpi são predominantes em “O frescor da luminosidade”, com 66 obras, incluindo suas famosas ogivas e bandeirinhas, além de 20 de Ione Saldanha.

Entre os trabalhos da artista gaúcha, predominam os bambus que ela passou a utilizar para fazer suas pinturas. Em 50 por 80 centímetros, chama a atenção, entretanto, um óleo sobre de aparência abstrata, lembrando o impressionismo, com fusões que diferem das demais obras expostas.

“Realmente, tem uma fase curta da carreira da Ione, em que a forma como dissolve a estrutura, assim dizendo, arquitetônica sugere um impressionismo. Mas são poucos trabalhos em que essa manifestação ocorre. Depois, ela volta para uma pintura mais de cores puras, que lembra muito a do Volpi. A escala cromática dos bambu lembra muito a do Volpi”, avalia Venancio Filho.

“Quando passou a usar os bambus, a Ione estava procurando um outro suporte que pudesse exprimir, em vez da tela, mas ainda são pinturas, apesar de terem sido feitas em um objeto tridimensional”, acrescenta Venancio Filho. “Ninguém tinha pintado antes num bambu, mas ele estava lá e Ione o encontrou e o transformou em uma ‘tela’ cilíndrica, em um objeto pictórico. O bambu não tem lados, frente e verso, ele é uma superfície contínua, circular”. O curador ainda aponta “uma conexão plástica entre a verticalidade natural dos bambus e os mastros de Volpi, as tão frequentes diagonais que atravessam as telas de alto a baixo. Não distingo muito a pintura em tela dos bambus da Ione”.

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Serviço

ALFREDO VOLPI E IONE SALDANHA – O FRESCOR DA LUMINOSIDADE. GALERIA DE ARTE IPANEMA. Rua Aníbal de Mendonça, 27, Ipanema. Tel.: 2512.8832. Abertura hoje, às 19h. Visitação de amanhã a 3 de novembro. Segunda a sexta-feira, das 10h às 19h; sábados, das 11h às 15h. Entrada franca. www.galeria-ipanema.com



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