Jornal do Brasil

Cultura

Noite de mulheres e política

A sombra do pai aborda o horror social e faz homenagem ao terror clássico

Jornal do Brasil TONY TRAMELL*, especial para o JB

Com uma carreira consagrada no Festival de Brasília, a diretora Gabriela Amaral Almeida volta à edição atual para lançar “A sombra do pai”, um filme que aborda a relação entre pai e filha, com elementos do terror e do sobrenatural. Gabriela esteve no festival com dois curtas (“A mão que afaga” e “Estátua!”), de onde saiu com seis troféus candangos – além de prêmios da crítica. Seu filme mais recente, “O animal cordial”, estava em cartaz até poucas semanas atrás e é uma obra-prima.

Gabriela estava no Festival com um dos filmes mais aguardados. Na noite da exibição, o Cine Brasília teve lotação esgotada horas antes da sessão. “Essa sessão é composta de três mulheres diretoras. Nara e Juliana, tenho sorte de ser contemporânea delas. Impossível não falar. Não é nem ele não, é ele jamais”, disse Gabriela.

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Gabriela Amaral Almeida e o ator Julio Machado, em painel (Foto: Junior Aragão/Divulgação)

O Festival de Brasília sempre foi o mais politizado do país e no meio de uma disputa presidencial, seria impossível deixar o tema de lado, assim como essa edição é marcada por um olhar feminino, com mulheres diretoras na maioria das produções.

Junto com “A sombra do pai”, que conta com Rodrigo Teixeira (O oscarizado “Me chame pelo seu nome” e “A bruxa”) como um dos produtores, foram exibidos “Guaxuma”, de Nara Normande, um misto de documentário e animação, misturando diversas técnicas desse estilo, e “Plano controle” de Juliana Antunes, que foca no teletransporte e na viagem do tempo, refletindo de forma leve questões sobre território e quem tem direito de andar e se comunicar. “A gente está vivendo um momento muito delicado de ameaça fascista, disse Juliana Antunes. Os três filmes foram unificados pelos desejos das meninas. O trazer de volta a amiga, a mãe e de se levar para outro lugar.

O discurso político seguiu firme na apresentação da animação pernambucana “Guaxuma”. A atriz Maeve Jinkings foi a responsável pela direção de narração do curta. A diretora Nara Normande, que já esteve em Annecy (principal evento de animação da Europa) e no último festival de Gramado, com essa produção que conquistou o público. “Como mulher nordestina e sapatão, não posso deixar de gritar: ele não”, manifestou-se a cineasta.

“A sombra do pai é um filme que, se eu pudesse resumir, eu diria que é um filme sobre vontade e fé contra esse mundo do materialismo, esse mundo cotidiano do universo do trabalho”, contou a diretora e roteirista.

O monstro da violência doméstica, do desamor e da exploração do trabalho estão presentes em “A sombra do pai” e fazem parte da crítica social praticada pela cineasta. No meio de tudo, existe o amor de pai e filha (mesmo com a dificuldade de comunicação), em um roteiro que questiona o que acontece quando uma criança (Nina Medeiros, de “As boas maneiras”) se torna o adulto da casa, porque o pai (Julio Machado, de “Joaquim”) está doente e a mãe

‘A sombra do pai’ aborda o horror social e faz homenagem ao terror clássico

Reproduções

Fotos de Junior Aragão/Divulgação

morta. Vivendo com uma tia (Luciana Paes, de “O animal cordial”) que está prestes a se casar e vendo a profunda tristeza do pai, que ainda perde um amigo, a pequena Dalva acredita ter poderes sobrenaturais e de que é capaz de trazer sua mãe de volta. Deixando a pergunta: E se ela conseguir?

“O (Quentin) Tarantino foi uma pessoa muito importante no diálogo de expansão de cena porque ele tem uma aproximação do fator espaço cênico que é muito próxima da minha, que é uma proximidade do que não tá narrado. Como esse subtexto vira câmera e misancene. Nesse lugar a gente se encontrou e a leitura do texto, a partir dessa perspectiva, foi muito rica”, disse Gabriela sobre a experiência de ter contado com a experiência dos diretores Tarantino e Robert Redford, no desenvolvimento do seu projeto. “Lançar em Bra

sília é uma responsabilidade, principalmente nos tempos em que estamos vivendo, é uma visibilidade que é muito bem-vinda ao cinema - que em sala de cinema está cada vez mais rara”, concluiu.

“O que tem de diferente nesse processo de trilha é que eu comecei a fazer na montagem junto com a Karen (montadora) e a Gabriela. Conheço o filme desde o roteiro também e acho que isso ajuda muito nesse universo de Gabriela. A trilha foi pensada para não ter uma sonoridade melodramática nem sentimental e ser muito mais industrial que tem a ver com personagem e com a dimensão interna deles”, falou Rafael Cavalcanti.

“Dalva é igual a mim quando criança”, revela Gabriela, sobre a personagem que vê filmes de terror dublado e cria filmes em sua cabeça. “Eu fui muito influenciada pelo cinema norte-americano de gênero. É um filme que fala a minha infância. Nesse sentido de correspondência, eu sou aquela menina - diante das sensações”. Muitas influências estão presentes, como “Cemitério maldito” (que foi dirigido por uma mulher) e “A mão que aafaga” (obra da própria cineasta). Seus longas são voltados para o horror social. “Animal cordial” já abordava esse tema – embora lá a violência fosse mais evidente. “O final é tudo que essa menina precisa para continuar vivendo. Porque se ela entra em contato com a materialidade das coisas, é quase um deus ex-machina. O filme não pode terminar com toda essa dor, porque a gente tem fé e imaginação. Ver filmes de terror, de zumbi, é uma ressignificação disso no cotidiano daquela menina que está absorvendo esse tipo de cultura”, conclui a realizadora.

*Assistente de direção e jornalista.



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