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Cultura

O Inferno são os outros: confira a crítica da peça 'O condomínio'

Jornal do Brasil CLAUDIA CHAVES*, Especial para o JB

O termo condomínio significa dividir a posse/propriedade ao mesmo tempo. A formulação das cidades, ainda mais em uma faixa valorizada e pequena como o bairro de Copacabana, obriga a moradias multifuncionais, à convivência compulsória. Explosão por pequenas coisas, a figura do síndico como um líder que não se respeita, a maldita e insuportável reunião povoam nosso cotidiano como pesadelos. Como transformar essa tragédia em comédia? É o que acontece em “O condomínio” é parte integrante da dramaturgia de Pedro Brício - as comédias sobre os impasses da contemporaneidade.

A escolha do Edifício Albervania, palco do famoso atentado a Carlos Lacerda no governo de Vargas, é emblemática para o tom do que se passa no palco. Um prédio tradicional, histórico torna-se o centro de uma comédia de situações em torno de um cachorro problemático. De forma inteligente, os fatos acontecem ainda que não sejam encenados. São dois atores que desempenham os papéis principais Domenico (Pedroca Monteiro) e Raymond (Sávio Moll) e se revezam em pequenos diálogos e em interpretar de forma eventual os outros personagens.

Macaque in the trees
Os principais papéis da peça são interpretados pelos atores Pedroca Monteiro e Sávio Moll (Foto: Ilana Brajterma/Divulgação)

A chave, desde o início, é a convivência entre pessoas totalmente díspares. A reunião de condomínio inicial já exibe as contradições: um músico, Domenico, é totalmente ausente dos problemas do prédio. O latido incessante do cachorro de Carmen transforma o artista em símbolo de tudo de ruim que acontece nessa quase prisão contemporânea. Obrigado a participar da vida do prédio e a falar com os outros, Domenico vê sua vida se transformar completamente.

O cenário, assim como o figurino, é carregado nos tons de vermelho. Uma mesa de estúdio de rádio na lateral do palco permite que os atores façam as vezes de narrador. E no ambiente que lembra uma casa se desenrolam as ações. Com esse suporte físico, tem-se quadro para o jocoso, o debochado, o escrachado que não perdoa nada do que acontece. A reunião do condomínio, os shows de Domenico, o sucesso absurdo da dupla que se forma entre Domenico e Raymond, o policial que aparece para investigar o que acontece no prédio e deseja ser cantor.

As interpretações de Pedroca e de Sávio correspondem perfeitamente ao que se deseja dizer: tudo de um ridículo atroz. Os dilemas, os impasses, as soluções são aguçadas pela escolha em fazer algo parodístico de alguma novela radiofônica perdida, herança dos dramalhões latinos. As maracas, marcando o ritmo das falas, funcionam de forma a animar o que não pode ser animado: as situações são tão absurdas e, por isso, convenientes a se perceber como essas pequenas coisas não passam de coisas mínimas.

O ritmo imposto é de se construir de pouco em pouco um mosaico com as técnicas de uma narrativa policial. Mas o crime e a e seu desfecho são um fio condutor enganador. O mistério não tem a pretensão de ser solucionado. É mais um qualquer, mais um assunto a ser lançado no meio da reunião de condomínio e ficar perdido na atenção que cada um presta ao seu próprio problema. Aliás há que se fugir do que o outro pensa e quer. Procura-se o paraíso perdido no corredor de serviço.

*Professora do Depto. de Comunicação da PUC-Rio e doutora em Letras

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SERVIÇO

O condomínio

Sesc Copacabana (R. Domingos Ferreira, 160; Tel. 2547-0156)

De qui. a sáb., às 21h, dom., às 20h

Ingressos a R$ 30, R$ 15 e R$ 7,50 (associados)

Duração: 70 minutos

Classificação: 12 anos



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