Jornal do Brasil

Cultura

Repensando o cinema

Longa "Ilha", de Glenda Nicácio e Ary Rosa, fala sobre as ambiguidades do ofício

Jornal do Brasil TONY TRAMELL*, especial para o JB

A exibição de “Ilha”, de Glenda Nicácio e Ary Rosa, marca a volta desses diretores a Mostra Competitiva, onde no ano passado saíram com os prêmios de melhor atriz e melhor filme pelo voto popular por “Café com canela”.

O longa é formado majoritariamente por atores negros, representando assim o espaço onde acontece a trama. Filmado no Recôncavo Baiano, onde quase 80% da população é de afrodescendentes, seria estranho não ter essa representação na tela e incluir o local. Essa abordagem faz parte da proposta dos realizadores. Buscar o negro e o periférico está inserido em sua obra.

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"Estamos fazendo cinema e vamos falar de cinema", diz a diretora e roteirista Glenda Nicácio (Foto: Divulgação)

A trama, com o roteiro de Glenda e Ary, conta sobre um homem da periferia que sequestra um famoso cineasta, com a intenção de obrigá-lo a realizar um filme que seria sobre a vida do seu algoz. Ambientado numa ilha, onde frequentemente é dito que de lá ninguém sai, o sequestrador quer ver a sua vida filmada. Neste ponto, encontramos uma das reflexões do filme, alguém que ama a arte cinematográfica, conhece sua linguagem, mas não tem acesso ao cinema. Uma metalinguagem que acompanha a produção.

“Pra gente não é subjetiva. O próprio Emerson deixa isso explícito, quando começa o jogo. Nós estamos fazendo cinema e vamos falar de cinema e de memórias. A partir deste momento, começa esse jogo e essa câmera. Então o Thacle tá fazendo sua posição de ser o detentor da câmera. Ele é um personagem muito importante, pois ele está entre eu e o Ary, a direção do “Ilha”, e está entre a própria direção do Emerson (que é o filme dentro do filme). O Thacle é nosso diretor de fotografia, ele assume esse lugar, de personagem não-personagem. Até porque a gente brinca que essa subjetividade não existe”, defende Glenda sobre o olhar da câmera.

“‘Ilha” é um filme que permite muitos entendimentos, compreensões e olhares. Muitos podem até achar um viés político, mas essas comparações entre “Ilha” e “Café com canela” fazem parte. O filme (atual) é mais duro, porque estamos vivendo tempos mais duros”, revela o cineasta, com um entendimento e percepção de pouca expectativa do que vem pelo futuro.

“Desde o ‘Café’ já vem essa vontade de falar sobre esse ofício; cinema é duro, complicado. Principalmente pra gente que está isolado. Não estamos falando do eixo Rio-São Paulo. Estamos no interior da Bahia. Essas questões podem estar chegando aqui agora, mas já viemos falando delas faz tempo. A gente já veio entendo a necessidade de buscar novas narrativas e repensar o cinema”, afirmou Ary, diante de um questionamento no debate sobre a atual situação do mercado cinematográfico, fomentos e microrrealizadores.

O longa apresenta um contraponto para o espectador e lida com questões de encontros e afetividades. Se a dialética e a narrativa podem soar estranhas, é uma prova do sucesso dos realizadores que buscam repensar a linguagem cinematográfica e foram bem sucedidos nessa empreitada.

* Assistente de direção e jornalista

 



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