Jornal do Brasil

Cultura

Ligações perigosas com as telas

Tema de um livro que disseca seu tom irônico, Stephen Frears comemora cinco décadas de carreira

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA *, Especial JB

Esperava-se dos grandes festivais de cinema alguma homenagem aos 50 anos de carreira de Stephen Frears: em 1968, o curta-metragem “The burning” marcou a estreia deste inglês de Leicester - responsável por cults como “Ligações perigosas” (1988) e “A rainha” (2006) – no posto de realizador. O mercado editorial lembrou da data: livrarias do Reino Unido celebram o jubileu de ouro de um de seus mais prolíficos (e provocativos) cineastas com a publicação de “The ironic filmmaking of Stephen Frears”, de Lesley Brill. O livro, que rastreia e discute as reflexões sociais e políticas da obra do diretor, chega ao público junto com a versão digital (em DVD e blu-ray) do mais recente exercício autoral do artista por trás de filmes como “Herói por acidente” (1992) e “Os imorais” (1990): a minissérie “A very english scandal”, com Hugh Grant. Aclamado pela imprensa europeia, esse projeto, ainda inédito por aqui, foi idealizado para a TV, terreno onde Frears solidificou uma (boa) reputação, paralela aos sets cinematográficos, de campeão de audiência. E isso talvez justifique o fato de festivais como Veneza, Cannes e Berlim terem deixado a comemoração de suas cinco décadas de trajetória pelo audiovisual passar em branco. Por um certo ciuminho, de ele ter bombado na telinha e estar lá de novo, preparando uma nova série: “State of the Union”, com Rosamund Pike.

“A palavra ‘cinema’, pra mim, é sinônimo de trabalho. Eu não venho de uma família de artistas, nem fui educado para ser um, mas cresci vendo filmes, cresci dentro de uma sala de cinema e, lá, decidi o que queria fazer”, disse Frears em recente entrevista ao JORNAL DO BRASIL, em San Sebastián, durante a finalização de seu último longa-metragem, o agridoce “Victoria e Abdul: O confidente da rainha” (2017), e a preparação de “A very english scandal” “Filmar não é algo sobre o qual eu teorize: eu faço. Tem que filmar, eu filmo. Fiz um curta em 1968 e cheguei aos longas em 1971, quando fiz ‘Gumshoe, detetive particular’, um filme me deu alguma prática. Revi cenas dele um dia desses, em uma projeção em Londres e enxerguei qualidade nele. Acho que, com o tempo, eu cresci, aprendi coisas, melhorei de alguma forma. Mas não tento definir nada. Tento reagir ao mundo e buscar grandes personagens”.

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Stephen Frears surpreendeu com "A very english scandal" , com Hugh Grant numa história de desamor LGBTQ (Foto: Kieron McCarron/Divulgação)

Famoso por filmar rápido, usando ao máximo a criatividade de seus atores na condução de um roteiro, Frears concentra seu tempo agora na finalização dos dez episódios de “State of the Union”, uma comédia (quase) romântica sobre a história de um casal, de sua gênese até a sua desagregação. Louise (Rosamund Pike, de “7 dias em Entebbe”) conhece Tom (de “O lar das crianças particulares”) em um pub, em meio a uma crise conjugal em seu relacionamento anterior, e engata com o colega de copo uma paquera. Frears vai dissecar esse novo namoro de Louise ao longo de idas e vindas, com o olhar crítico (distanciado) que aplicou a filmes como “O amor não tem sexo” (1987) e “Minha adorável lavanderia” (1985).

“Gosto de ambiguidades morais, pois elas são constitutivas de nossa forma de lidar com a vida, em nossas escolhas, em nossas renúncias. Eu sou um cineasta cuidadoso com questões de espaço, com a relação do ambiente, do território, na maneira como as pessoas se portam. Se você volta a um filme como ‘Ligações perigosas’, por exemplo, tudo ali depende de termos uma Corte. Mas não creio que isso seja o que chamam de ‘marca autoral’”, disse Frears ao ser homenageado este ano no pequenino (mas charmoso) Lucca Film Festival, na Itália, a única mostra que fez jus ao legado do realizador, que lotou cinemas, há dois anos, com “Florence – Quem é essa mulher” (2016), com Meryl Streep. “Tenho a consciência de que sou um diretor sem estilo, que nunca se preocupou em analisar a própria obra, mas deu a sorte de cruzar com mulheres talentosas como Meryl, Judi Dench, Helen Mirren... e com atores com a inteligência acurada de um Hugh Grant. É um privilégio para um diretor cruzar com profissionais da arte desse quilate, que me ajudaram a contar histórias sobre pessoas em busca de um lugar no mundo. Pessoas deslocadas”.

É raro na indústria de filmes independentes – sobretudo a da Inglaterra – um diretor ter uma produtividade tão alta quanto a de Frears, que, desde 2000, vinha mantendo um padrão de um longa-metragem por ano (às vezes dois). Mas agora, justamente quando faz 50 anos de cinema, representa uma espécie de período sabático das telonas para Frears. A boa acolhida na BBC de seu “A very english scandal” garantiu a ele um gás a mais nas experiências com a linguagem televisiva, que ele já domina desde o fim dos anos 1960, quando dirigiu episódios da série “Parkin’s patch”:“Fui buscar no real uma história que algumas pessoas definem como um escândalo político, mas que eu encaro como uma história de amor”, disse o cineasta à imprensa inglesa na estreia da minissérie, em maio.

Já à venda na Amazon, em DVD, “A very english scandal” revive o tumulto que se estabeleceu no governo britânico quando o líder do Partido Liberal Jeremy Thorpe (papel de Hugh Grant) foi acusado de tentar assassinar seu ex-amante, o jovem Norman Scott (Bem Whishaw). Essa acusação disparou uma série de alarmes morais, a maioria de ruídos homofóbicos.

“Grant me ajudou a encontrar uma aura de glamour”, disse Frears, um dos gigantes do cinema inglês, à sua maneira, intensa mas discreta.

*Roteirista e crítico de cinema



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