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Cultura

Foi um filme que passou em minha vida

Escola de samba inova e exibe na sexta três curtas de alunos do projeto social Por Telas

Jornal do Brasil AFFONSO NUNES, affonso.nunes@jb.com.br

Quem disse que somente bambas brotam das quadras das escolas de samba? Talvez chegue o dia em que as agremiações terão alas de cineastas. Pelo menos parece ser essa a intenção da Portela que exibirá sexta, a partir das 20h, em sua quadra, três curtas-metragens feitos pelos 22 alunos do projeto social de audiovisual Por Telas. Num ritmo alucinante muito similar ao vivido numa produtora, os novos realizadores trabalharam por duas semanas em filmes sobre o universo do samba, da cultura popular e do futebol. A entrada é franca.

A abertura da noite será com apresentações musicais. Em seguida, serão exibidos os filmes “Procuram-se mulheres”, de Rozzi Brasil; “Um craque esquecido”, de Ygor Lioi; e “Do samba ao sample: Entre duas culturas”, de Ruan Lucena. Apesar de ter sido produzido em curto espaço de tempo, o projeto já soma vitórias como a indicação de “Um craque esquecido” para ser exibido na 9ª edição do Cinefoot, festival de cinema voltado para produções sobre futebol que será realizado no Rio de amanhã até o próximo dia 25. O encerramento terá DJ e show do rapper Chico Tadeu, também aluno do projeto que foi assistente de direção, ator e autor do tema musical de “Do samba ao sample...”.

Idealizada pela produtora Cecília Rabello, a oficina de audiovisual foi lançada em abril, quando a escola completou 95 anos. A renda de um show de Paulinho da Viola (pai de Cecília) e Marisa Monte viabilizou o projeto financeiramente. Moradores de Madureira e bairros vizinhos, os alunos tiveram aulas entre maio e agosto, sob o comando do cineasta André da Costa Pinto. “Essa turma prova que, com investimentos em educação e cidadania, você aponta outros caminhos capazes de formar novas realidades. E estamos proporcionando uma boa estrutura de exibição para celebrar junto à comunidade o lançamento dessas obras”, comemora.

A rotina do curso - com aulas de roteiro, direção, produção, fotografia, som, montagem, direção de arte e direitos autorais com profissionais do mercado - chegou a assustar os alunos. “Quando a turma foi dividida em grupos e cada um tinha que escolher uma função em um dos três projetos, eu tremi na base. Queria largar tudo”, admite Maria Lourdes Maranhão, ou Loullyz Maranhão (“é o meu nome artístico”, justifica), de 61 anos. A professora de alfabetização e ex-aluna de teatro do curso da Central Única das Favelas (Cufa) de Madureira foi “indicada” para a assistência de produção do curta “Procuram-se mulheres” e acabou abraçando a mesma tarefa nos outros dois filmes. “Meu marido perguntava para onde estava indo e eu respondia que ia acompanhar o set de um determinado projeto. ‘Mas esse não é o teu filme”, ele dizia e eu respondia que queria acompanhar tudo”, conta.

Macaque in the trees
Sob as asas da tradicional águia da Portela, Cecília Rabello (à direita) celebra com a novíssima geração de cineastas e realizadores audiovisuais formada pela oficina pioneira (Foto: Marcos Tristão)

Para ser selecionado, cada aluno tinha de escrever um argumento, mas, para que ele fosse aceito, os futuros cineastas passaram sufoco. “Deixei para fazer minha inscrição no último dia, achando que precisava preencher apenas uma ficha. Quando li o regulamento e vi que era preciso redigir um argumento, eu entrei em pânico. Moro na Taquara e segui para Madureira sem nada escrito, fui para uma lan house perto da escola e escrevi tudo em cima da hora”, confessa Rozzy Brasil, diretora de “Procuram-se mulheres” que mostra personagens femininas anônimas do carnaval, tais como compositoras, ritmistas, diretoras de alas, entre outras. “O samba é uma coisa feminina, de mãe de santo, matriarcal, mas seu universo é machista. Há excelentes compositoras que nunca tiveram seus trabalhos reconhecidos. Mas isso não é da Portela e nem é só do samba”, alerta a cineasta, que agora também já se arrisca na composição de sambas próprios.

Estudante de Comunicação, cantor e compositor, o rapper Chico Tadeu, de 35 anos, decidiu fazer o curso para se comunicar melhor com as equipes que produzem seus videoclipes. “Por mais que quisesse ser uma voz ativa no meu trabalho, eu ficava na mão dos diretores e produtores. Meu compromisso era chegar na hora e estar pronto para gravar”, queixa-se. A formação em cinema, observa, abriu seus horizontes para além da poesia. “Uma das coisas que aprendi é que o cinema, acima de tudo, é a decisão de como você vai enquadrar aquela imagem. Como transportar nosso estado mental para uma linguagem que engloba luz, movimento, cores...”, resume o músico.

Macaque in the trees
Sob o painel que resgata a herança deixada pela Velha Guarda da escola, desponta a "ala dos cineastas" com Caio, Rozzy, Loullyz, Gentil, Marcos Vinícius e Cecília (Foto: Marcos Tristão)

O desafio de pensar por imagens

Os três curtas produzidos no projeto Por Telas trabalham na linguagem do documentário, mas desafiaram os alunos a pensar muito além da tarefa de colher depoimentos. Assistente de produção no curta “Um craque esquecido”, Marcos Vinícius Bodin lembra que o instrutor André da Costa Pinto provocava os alunos a sempre pensarem na imagem, porque ela é o fio condutor da narrativa cinematográfica. “Aprendemos que existem documentários sem qualquer depoimento e a mensagem que o diretor pretende passar está lá”, recorda o funcionário da Portela, que trabalha na portaria da escola de samba. “Os sentimentos mais ocultos ficam visíveis através da ação e intervenção da câmera”, filosofa.

No primeiro momento, cada aluno escreveu um roteiro e, por votação, três foram selecionados para que virassem curtas. O motorista de Uber Gentil Sampaio, de 56 anos, não sentiu dificuldades nesta etapa. Antes de ser atingido pela crise econômica, ela trabalhava como cinegrafista em festas e eventos. Apaixonado pela sétima arte, fez curso de roteiro pelo Senac. Alertado sobre a oficina por um amigo, inscreveu-se no Por Telas e, no piscar da claquete, descobriu-se ator. “Todos da equipe que iria filmar ‘Do samba ao sample...” disseram que eu me parecia com o personagem principal, o Paulo da Portela. Eu disse que não tinha condições de atuar e que era melhor que arrumassem um ator, mas fui voto vencido”, diverte-se.

Abrindo horizontes

Gentil revela que a retomada do trabalho no segmento audiovisual, agora em outro patamar, despertou um sentimento de realização que contagiou não só a ele mas a todos que o cercam. “Abri minha mente, meus horizontes, mas o melhor de tudo é saber que estou sendo motivo de orgulho para a minha família, meus amigos. Hoje (ontem) recebi um mensagem de whatsapp da minha filha e ela dizia estar muito feliz com esta nova fase da minha vida. Tenho ideias na cabeça e vou em frente”, anima-se.

Com a sensação do dever cumprido, a produtora cultural Cecília Rabello anuncia que já está se programando para promover a segunda turma do projeto. “É gratificante concluir a oficina, não só pela realização dos filmes, mas por entender que, além da formação profissional, que é um indicador importante para a cidadania, ainda estamos contribuindo para a preservação da memória da comunidade”.

Para o presidente da Portela, Luis Carlos Magalhães, o evento representa um importante capítulo para a história da escola. “A exibição dos filmes na quadra mostra que o sonho virou realidade. Além de pioneiro, o Por Telas representa uma grande vitória para a escola e para todos os envolvidos. No ano que a Portela comemora 95 anos, é motivo de muito orgulho termos um projeto social tão bonito assim”, afirma.

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SERVIÇO

LANÇAMENTO DOS FILMES DO PROJETO SOCIAL POR TELAS

Sexta-feira, dia 21

Às 20h

Quadra da G.R.E.S. Portela (Rua Clara Nunes 81 - Madureira)

Entrada franca



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