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Cultura

O Gordo e o Magro voltam aos holofotes

Filme resgata os feitos da dupla que lotou cinemas entre as décadas de 1920 e 1940

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA *, Especial JB

Com o encerramento do Tiff, o Festival de Toronto, no domingo, as apostas de Hollywood para o Oscar hoje se concentram no vencedor do evento, “Green book” - comédia dramática de reflexão racial sobre a amizade entre um músico negro (Mahershala Ali) e seu segurança brucutu ítalo-americano (Viggo Mortensen) -, porém, o cinema inglês quer mudar isso, tendo como alternativa uma produção que resgata duas lendas da telona: O Gordo e o Magro. Com uma première mundial agendada para 21 de outubro, no encerramento do BFI – London Film Festival, na capital britânica, “Stan & Ollie”, de Jon S. Baird, junta riso, pranto e memorialismo ao reviver a trajetória de sucessos do magrelo Stan Laurel (1890-1965) e do rotundo Oliver Hardy (1892-1957). A partir de 1927, com o sucesso do filme “Putting pants on Philip”, Laurel e Hardy formaram uma dupla cômica que, ao longo de 107 produções, mudou a maneira de se fazer humor no cinema. Os atores John C. Reilly e Steve Coogan assumem o protagonismo da cinebiografia destes ícones do riso.

“Eu já vivi algumas histórias trágicas no cinema, mesmo sendo majoritariamente associado à comédia. É bom sair de uma gaveta fazendo um personagem que congrega, em seus feitos, a memória coletiva de um tempo de transformação na arte”, disse Steve Coogan, em uma passagem pelo Festival de Berlim, quando o projeto de recriar a lendária dupla surgiu.

Macaque in the trees
A comédia dramática "Stan &Ollie" traz John C. Reilly e Steve Coogan nos papéis de O Gordo e O Magro (Foto: Divulgação)

Popularizado nos anos 2000 com “A festa nunca termina” (2002) e indicado ao Oscar por “Philomena”, em 2014, Coogan, um ator de Manchester famoso por sua verve irônica, vai encarnar Laurel numa trama centrada na amizade do Gordo e o Magro. Antes de conhecer seu parceiro Hardy, Stan já havia feito uns 50 filmes, atuando, escrevendo e dirigindo. Laurel nasceu no Reino Unido, em Lancashire. Hardy era americano da Georgia. Em 1921, os dois se esbarraram nos sets da produção “The lucky dog”, mas sem combinarem talentos. Foi depois de fecharam contrato, separadamente, com o produtor Harold Eugene Roach (1892-1992), que eles foram estimulados a trabalhar juntos. Ficaram com Roach por 13 anos e com ele fizeram pérolas como “Cuidado com os marujos” (1927), “Xadrez para dois” (1929) e o cult “Dois birutas na legião estrangeira” (1931).

Ovacionado há cerca de duas semanas no Festival de Veneza, por seu desempenho no faroeste “The Sisters Brothers”, John C. Reilly foi escalado para interpretar Oliver Hardy acentuando o modo prolífico com que o comediante lidava com o trabalho. Fez quase 250 filmes (algumas fontes falam em 400) em sua carreira, sendo que seus maiores êxitos comerciais vieram na dobradinha com Laurel. “Atuar é buscar o que existe de mais frágil na humanidade de cada um, mesmo quando temos personagens icônicos nas mãos”, disse Reilly, em recente passagem por Cannes.

Macaque in the trees
Stan Laurel, o Magro, e Oliver Hardy, o Gordo (Foto: Divulgação)

Calcado mais no afeto do que no riso, o foco de “Stan & Ollie” se debruça sobre a construção da parceria entre Hardy e Laurel e na forma como os dois consolidaram uma comicidade baseada em gags físicas, com expressões faciais capazes de traduzir as divergências de temperamento entre ambos. Os dois ainda construíram bordões que se popularizaram a partir dos anos 1930, em especial “Well, here’s another nice mess you’ve gotten me into!” (traduzido aqui como “É, você me meteu em mais uma confusão”). O roteiro filmado por Jon S. Baird acompanha a trajetória ao longo de toda a ligação deles com Harold Roach (vivido por Danny Huston) e da migração deles para a 20th Century Fox e para a MGM.

A estreia comercial de “Stan & Ollie” está agendada para janeiro, de olho numa vaga para o Oscar 2019. A passagem do longa pelo BFI – London Film Festival - que começa no próximo dia 10, com a projeção do thriller “Viúvas”, de Steve McQueen – pode elevar as chances de prêmios para a produção neste momento em que Hollywood, de carona na cinebiografia deles, resgata fenômenos de Laurel e Hardy, como “Cachorro-quente do Oeste” e Terror em quatro rodas” em edições de luxo em DVD. Está prevista ainda a chegada ao mercado de editorial de uma série de livros - uns de texto, outros só de fotos - sobre os feitos da dupla. Como eles diziam em seus filmes: “A comédia está só começando”.

*Roteirista e crítico de cinema



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