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Cultura

Oi Futuro expõe obras trabalhadas a partir de fluxos de dados numéricos, do Brasil e do exterior

Jornal do Brasil JOÃO PEQUENO, joao.pequeno@jb.com.br

Criadas a partir de cálculos numéricos como matéria-prima, a exposição inédita que o Oi Futuro abre amanhã reúne oito artistas brasileiros e estrangeiros (quatro em duplas e quatro individuais) que se baseiam em diversos métodos e modalidades de medição e de dados para construir suas expressões visuais – estáticas, móveis, interativas ou não.

“Pensamos em montar essa exposição com uma ideia muito baseada em visualização de dados como linguagem artística emergente”, comenta Barbara Castro, idealizadora de “Existência numérica” ao lado de Luiz Ludwig, sobre a mostra em que ambos também expõem seus trabalhos.

A variedade nas matrizes utilizadas foi um dos critérios adotados: “Cada artista trabalha com um tipo de dado diferente”, ressalta a artista programadora de 30 anos, que trabalha nessa área desde 2011 e atualmente é pesquisadora em arte e tecnologia, defendendo doutorado na Escola de Belas Artes da UFRJ.

Ela participa com “Disritmia”, criada neste ano especialmente para a exposição. “É uma obra interativa, com dados dinâmicos (na internet) discutindo conceitos de conectividade e vitalidade. Vou estar com um relógio desses inteligentes que tem sensor de batimento cardíaco e dados do meu coração vão ser enviados para a galeria o tempo todo”, adianta. Os dados de pulso da artista serão enviados, formando uma projeção com sistema de partículas em movimento, gerado em tempo real. Esses dados, segundo ela, “serão complementados com dados meteorológicas, temperatura de vento e dos próprios visitantes através de uma interface”.

Em uma conexão intercontinental, os alemães Till Nagel, 43, e Christopher Pietsch, 32, que formam o Urban Complexity Lab, expõem desenhos gerados a partir dos percursos de bicicletas compartilhadas em três grandes cidades – nenhuma da Alemanha –, nas três telas de “City flows”, elaborada em 2015 e estendido agora em 2018, a pedido da produção de “Existência numérica”.

A dupla, que já havia criado arte com os traçados das bikes em Londres e Nova York, fez o mesmo com as “laranjinhas” aqui do Rio. “Fizemos uma parceria com a TemBici, que cedeu os dados de uso para eles criarem em cima”, explica Barbara.

Além do resultado artístico, “City flows” visa possibilitar a comparação de extensão e dinâmica, similaridades e diferenças nos sistemas de ciclovias e demais caminhos utilizados por ciclistas nas cidades, e, por consequência, contribuir para a mobilidade urbana.

Outras comparações de fluxos são expostos pelo cientista de computação português Pedro Miguel Cruz, 33, único a ter quatro obras na exposição.

Em uma delas, “Dendrocronologia de imigração” (2018), ele mostra, em vídeo e duas impressões fotográficas, dados de quase dois séculos de imigração de outros estados brasileiros para o Rio, entre 1830 e 2015, com base em dados do IPP (Instituto Pereira Passos).

Com princípio semelhante, a animação “O declínio dos impérios” (2010), passa, em 3 minutos e 41 segundos de vídeo, expansão e declínio de Portugal, Espanha, França e Inglaterra, os quatro maiores impérios marítimos nos séculos que marcaram nossa colonização. Na tela, esses impérios são retratados por “bolhas que incham conforme vão dominando e explodindo em descolonização e voltando aos lugares de origem”, descreve Barbara Castro. Eles ainda colidem uns com os outros, para demonstrar os diversos momentos de guerras e competição por território, além de tratados para delimitar suas fronteiras.

Também com uma obra criada especificamente para a mostra no Oi Futuro, o outro idealizador, Luiz Ludwig, 30, usa computador e impressora para revelar o “Discurso do artista”, expondo em tempo real, o que o circuito da arte diz, na internet, de trabalhos de artistas visuais.

O público assistirá à coleta e à impressão dos dados, na mesma hora, sempre que houver alguma nova informação trazida. Inicialmente, a ferramenta de busca vai seguir alguns artistas, galerias de arte, curadores e críticos específicos, mas o programa irá buscar outros expoentes, gradativamente, ampliando seu raio de pesquisa e exposição.

Relação com o Rio pautou escolha de trabalhos estrangeiros

Orientadora de Barbara Castro no doutorado, e também ela uma artista participante da “Existência numérica”, a curadora Doris Kosminsky, baiana de 58 anos, conta que buscou, entre os estrangeiros, “alguns que tivessem alguma parte de seus trabalhos relacionada ao Rio, ou que pudessem ser”, para a mostra.

“A maioria já era conhecida, porque pesquiso essa área há bastante tempo, então, como sabia que os alemães tinham trabalhos feitos sobre bicicletas compartilhadas, pedi que fizessem pra gente aqui, que tivesse essa referência. Do mesmo modo, com o trabalho do Pedro Miguel Cruz, pedi para fazer algo sobre migrações, como ele havia feito para os Estados Unidos. Aqui para o Rio, a gente vê que, em um período longo, desde o século XIX, tem épocas em que vinha mais gente do Nordeste para o Rio; em outros tempos, de outros lugares”.

Junto com o carioca Claudio Esperança, 60, Doris compõe o vídeo dinâmico “Redes de nós”, com dados do IBGE desde a década de 1930 mostrando o nomes de maior incidência no Brasil. “Na parte interativa, você coloca seu próprio nome, tira uma foto sua e mostramos quantos brasileiros, desde a década de 1930 foram registrados com o nome que o seu”, explica.

Por fim, Alice Bodansky, 36, comparece com mais um projeto criado para expor no Oi Futuro. “O apagar das luzes” expõe os gastos feitos pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, em valores correntes por atividade, de 2000 a 2015.

Eles materializados em uma escultura luminosa de luz, cuja forma física a artista compôs com referências como pilhas de moeda, associadas a investimento e valores; luz e luminária, como símbolo de novas ideias e conhecimento; e reflexos e sombras, como expressão do alcance e da propagação desses conceitos.

Festival explora espaços utópicos em instalação interativa

Também no OI Futuro, até 18 de novembro, o festival Multiplicidade abre hoje sua 14ª edição. Com o tema “Espaços Utópicos”, ela terá a obra “Tape”, um penetrável do grupo Numen, baseado em Berlim, que, por sua extensão, ficará com uma parte no pátio do IAB (Instituto dos Arquitetos do Brasil), vizinho ao Oi Futuro.

Com passagem pelas principais capitais do mundo, “Tape” é feita totalmente com fita adesiva, em meio à qual o público consegue andar. O interior da escultura é maleável, elástico e dobrável, fazendo a escultura se transformar em arquitetura no momento que o público entra na instalação.

“Grande parte das pessoas fica curiosa quando vê nossas instalações, quer entrar nelas. [...] Os visitantes começam a se divertir juntos de uma forma muito comunicativa, embora muitas vezes eles nem se conheçam. Isso é muito legal! Gostamos de ver a interação do público com a obra. Talvez seja como se estivessem num outro mundo e as regras não se aplicassem mais por um momento”, arrisca o artista Cristoph Katzler, integrante do Numem.

Expoente da arte sonora novaiorquina, Phill Niblock se apresenta na abertura do festival com a performance “Environments series”, em que conjuga som e imagem em movimento, como em sua principal obra prima, “The movement of people working”, projeto filmado entre 1973 e 1991 em diversos países do mundo. Para esta noite de abertura, ele convida o músico Livio Tragtenberg.

Abrindo para Niblock, a artista sonora brasileira Sanannda Acácia, de Curitiba, apresenta outra performance “Aproximação por Quasicrystal”, com “densidades ficcionais que se propagam pelo som”. Ela define a obra como “uma estrutura cristalina que não possui célula unitária e nem padrão de repetição periódico”, com inspiração “na não-periodicidade dos cristais”.

Fernando Velázquez, artista uruguaio radicado em São Paulo, apresenta “Iceberg”, realidade virtual que transpõe o espectador para um mundo virtual e paralelo refletindo de forma alegórica sobre um bloco de gelo cuja maior parte é invisível aos olhos, retratando o “embate crítico do homem com a tecnologia.

Por sua vez, o artista e arquiteto Pedro Varella, vencedor do prêmio do Instituto Tomie Othake em 2015, ocupa a vitrine Tech_Nô, em uma obra inédita desenvolvida para o Multiplicidade.

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Serviço

EXISTÊNCIA NUMÉRICA

MULTIPLICIDADE 2018 – ESPAÇOS UTÓPICOS

Oi Futuro (R. Dois de Dezembro, 63, Flamengo. Tel.: 3131-3060). Abertura hoje, das 19h às 23h. Visitação pública de amanhã a 18/11. Entrada franca. Ter. a dom., das 11h às 20h. www.oifuturo.org.br.



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