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A ironia como sobremesa: confira a entrevista com a cineasta Daniela Thomas

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA *, Especial JB

Provocação, acerto de contas e desilusões ideológicas são o prato principal do cardápio servido em “O banquete”, experiência narrativa que Daniela Thomas põe à mesa, nos cinemas, um ano depois de seu polêmico “Vazante” (2017). Seu longa-metragem anterior dividiu opiniões por seu retrato da vida íntima do Brasil da escravidão. Agora, o foco está na ressaca moral do início dos anos 1990. Desde que o cartaz foi divulgado, há dois meses, a mistura de atrizes cultuadas nos palcos de São Paulo (Drica Moraes, Mariana Lima, Georgette Fadel e Fabiana Gugli) com atores renomados no teatro por sua alta voltagem dramática (Caco Ciocler, Rodrigo Bolzan e Gustavo Machado) despertou a atenção (e até a inveja) do cinema nacional. Some a essa trupe duas jovens estrelas em franca ascensão - Bruna Linzmeyer e Chay Suede. Todos eles estão reunidos em um jantar num casarão aristocrático de São Paulo no qual jornalistas, advogados e atrizes vão lavar roupa suja por pecados e delitos morais.

Codiretora de cults como “Terra estrangeira” (1995), Daniela explica o que buscou neste experimento cinematográfico.

Macaque in the trees
Daniela Thomas, cineasta (Foto: Divulgação)

JORNAL DO BRASIL: Como foi a engenharia de filmagem dessa narrativa focada num bate-papo em uma sala de jantar? Quanto tempo levou pra filmar, quantas câmeras usou, como ensaiou os atores?

DANIELA THOMAS: Foi mesmo uma engenharia, só possível porque o Inti Briones, o fotógrafo; o Vasco Pimentel, diretor de som; e seu boom-man, o Juliano, foram parceiros extraordinários. E, claro, porque os atores compraram a loucura de filmar planos sequência de quase uma hora, várias vezes por dia. O set de filmagem era de 360 graus, por causa do grande espelho que refletia todo o salão. A equipe ficava toda escondida na cozinha ou no quintal, vendo o que estava sendo filmado por monitores e ouvindo por headphones. Na sala, só os atores, o Inti com a câmera na mão e o Juliano com o boom (invisível, só pode ser, pois nunca entrou em quadro nem no espelho!). Até o foco era feito por controle remoto pela super Liz, por trás de uma parede. Eu dava sugestões ao Inti por radio, através do fone. Os atores, com a câmera rodando, já não recebiam mais nenhum tipo de direção minha. Era só me deliciar no video assist, com o banquete onde eles se devoravam uns aos outros. As garrafas de vinho não eram de Brunello, claro, mas em muitos momentos serviram vinho de verdade, quando os atores propuseram encarar o desafio de beber como os personagens e ver onde isso os levaria. Eu mesma não consegui saber, quando montei, quais momentos eram embalados a vinho, quais a suco de uva. Foram duas semanas de ensaios e duas de filmagem. Os ensaios foram uma verdadeira oficina de histórias pessoais, de recriação dos diálogos.

Qual é o papel plástico/ estético da “palavra” numa narrativa como a de “O banquete”?

A que eu sempre quis ver no cinema: a palavra por si mesma, não como instrumento de narração. A palavra usada não para contar a história, mas para ser a própria história. Um exercício de hiperrealismo, quase. Quis contar por acúmulo e também no contratempo, quer dizer, na reação às palavras. Como há muita ironia, a reação do interlocutor ao dito altera seu sentido. Esse foi o jogo. Por exemplo, quando um personagem diz para o outro que só apontou o tapete para alertá-lo da sua existência - depois que o outro tropeça - o olhar sardônico de um terceiro personagem nega o enunciado inteiramente.

Qual é o Brasil retratado em “O banquete”?

O Brasil da era Collor, ainda com resquícios das leis de exceção do regime militar. No momento que se passa a ação, o namoro com o “Caçador de Marajás” já tinha se rompido, e a elite que tinha caído no conto do xerife alagoano estava começando a acordar. Além disso, foi um momento em que as mulheres estavam “capturadas pela lógica masculina”, como alertou o filósofo Adorno. O círculo vicioso das relações entre os sexos era frustrante e parecia incontornável. Eu acredito que as coisas mudaram. A própria ideia de uma humanidade binária está sendo desafiada. Sinto que conceitos sobre gênero e orientação sexual estão mudando velozmente. É um momento incrível.

Você fez parcerias com diretores como Walter Salles e Felipe Hirsh. De “Vazante” pra cá, tem filmado solo. De que maneira as tuas recentes incursões na tela modificam a tua relação com o cinema, como criadora e contadora de ficções vinculadas à realidade?

Eu encarei fazer os filmes sozinha tarde, mas acredito que eles têm uma irmandade com os que fiz antes, principalmente os que fiz com o Waltinho. Essa obsessão com a verossimilhança já está em “Linha de passe” e “Terra estrangeira”. O que aconteceu foi que perdi o medo de enfrentar a escalada ao Everest que é criar um filme do começo ao fim. Tanto é que em “O banquete”, eu resolvi até montar o filme. Nesse sentido, o meu cinema passa a ser a expressão inteira da minha imaginação e capacidade. E respondo por meus filmes, integralmente. Uma sensação arrebatadora.

*Roteirista e crítico de cinema



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