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Um grito mudo: confira a crítica de 'Uma peça para dois'

Jornal do Brasil CLAUDIA CHAVES*, Especial para o JB

O espaço delimitado pelas três paredes de um palco pode ser libertador. Exercer a palavra em sua plenitude, despir o corpo, ser homem quando se é mulher, ser jovem quando se é velho. Faz-se o que se quiser. Mas um palco de teatro pode ser confinador. Um túmulo quando abandonado pela plateia. Um tristeza sem fim , tateando-se para encontrar as palavras, o gesto, o relacionamento. “Uma peça para dois”, texto de Tennessee Williams, encontra no seu título original e “The two-character play” – “A peça de dois personagens” – a explicação do que se trata: dois personagens e mais nada além disso.

“Uma peça para dois”, escrita em 1973, foi encenada primeiramente com o nome de “Out cry”, integra o vasto conjunto de 45 peças do autor de apenas um ato, da qual a mais famosa e importante é “De repente, no último verão”. E a sua narrativa explicita a preferência clara de Tennessee para enredos metalinguísticos e personagens que sejam irmão/irmã, repetindo o seu drama pessoal: sua irmã Rose era esquizofrênica.

Macaque in the trees
Clara Nagel e Felipe Murta interpretam os irmãos (Foto: Divulgação)

Dois irmãos, Clara (Carla Nagel) e Felicio (André Murta), são abandonados pelo elenco e se veem obrigados a encenar um texto que não sabem direito. Aqui estão eles, no seu último ato, irmão e irmã, geneticamente atados e que combinam o narcisismo, o medo, a mesquinhez e o esplendor tão próprios de todos os atores. São, ao mesmo tempo, competitivos e codependentes de uma maneira feroz e assustadora como a que é particularmente associado a irmãos e atores.

Um texto que mistura dois planos, a história real dos dois personagens e o que está acontecendo no palco, encontra uma grande dificuldade. Totalmente desprovida de ação, de longas frases, que ainda com valor poético, refletem mais o um espetáculo doloroso escrito por uma mente que parece desesperada perseguindo-se em círculos. A tradução também não facilita a necessária fruição, pois fica-se com o sentido e o ritmo da língua inglesa. Em dado momento, entre outros, Felicio fala com Clara para percorrerem as premissas do casarão. Premises em inglês é o prédio físico em si.

A direção de Delson Antunes acaba por não encontrar a sua melhor tradução. Os personagens, apesar de a idade não ser mencionada, são evidentemente maduros, o que, apesar da juventude dos atores, poderia ser superada se Carla e Felipe se expusessem na forma que o texto pede. São dois adultos que se infantilizam, porque querem se cristalizar no passado. Para exprimir o colapso que é o fio condutor da história, a interpretação necessitaria de um força menos narcísica e mais concentrada no significado que Tennessee quer passar: um acúmulo de uma vida apaixonada e obsessiva no teatro.

O belo cenário de José Dias personifica com equilíbrio o que a plateia deve ver. Algo fantasmagórico, decadente , cumulativo, sombrio, que ao mesmo tempo permite que os atores, quando o conseguem fazer corretamente, animem o ambiente, tragam luz para a total falta de perspectiva de suas vidas pessoal e profissional. De alguma forma, ao se vestir e se despir dos figurinos de rei e de rainha, Clara e Felicio tentam emitir um grito de socorro. Afinal, quem além dos atores pode exprimir toda a realeza que se existe na magia do teatro?

*Professora do Depto. de Comunicação da PUC-Rio e doutora em Letras



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