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OBITUÁRIO: Mr. Catra, aos 49

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Talvez o mais importante cantor/rapper do funk carioca, Mr. Catra morreu na tarde de ontem, aos 49 anos, em São Paulo, onde estava internado para tratamento de um câncer de estômago que havia sido diagnosticado no início do ano passado.

O Hospital do Coração confirmou a morte do músico, por volta das 15h20.

Wagner Domingues Costa completaria 50 anos em 5 de novembro. Ele ganhou o apelido em referência à Rua Doutor Catrambi, na Usina, onde morava. Catra estudou no Colégio Pedro II, na unidade da Tijuca e, nos anos 1980, chegou a formar uma banda de rock, chamada O Beco.

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Funkeiro Mr. Catra fazia versões desbocadas, além das próprias músicas; ele assumiu 32 filhos (Foto: Reprodução)

Na década seguinte, integrou o Rio Radical Rapz, um dos primeiros do gênero na cidade, e passou para o funk, influenciado por amigos e frequentadores do Morro do Borel, próximo à região onde foi criado. Em parceria com o paulista Primo Preto, ex-apresentador da MTV, criou a Rapsoulfunk, uma produtora de bailes funk e, por intermédio dele, conseguiu um contrato pela Zâmbia Records, gravadora paulista que havia lançados os Racionais MCs.

Pela Zâmbia, Catra lançou seus dois primeiros CDs, “Bonde do Justo” e “O segredo do Altíssimo”.

O primeiro álbum já rimava polêmica, com letras entre a temática de protesto e o chamado “proibidão”, beirando a apologia em versos como os de “Vida na cadeia”, em que canta “força, meus amigos, liberdade os espera (...) chegando na cadeia, tem a recepção / é muito difícil a divisão de facção / de um lado, só amigo; do outro, só alemão”.

Na virada para a década de 2000, com a popularização de downloads de músicas por sites como Napster e Audiogalaxy, músicas gravadas em bailes funk caíram na rede e a apologia se tornou explícita, em versões como a de “Sozinho”, de Peninha, que fazia sucesso, na época, com Caetano Veloso (“vai ficar todo furado… furado de 762”). A pornografia também era ostentada com orgulho por Mr. Catra, tanto em músicas próprias, como “Mercenária”, quanto em outras versões com letras alteradas, como “Adultério” – em cima de “Tédio”, do Biquini Cavadão – e uma, impublicável, de “Primeiros erros”, de Kiko Zambianchi.

Sempre bem-humorado, Catra dizia serem piadas suas versões “proibidonas”, mas levava a sério o hedonismo sexual, sendo casado com três mulheres ao mesmo tempo e tendo assumido 32 filhos, com elas e com diversas outras – eram 19 (e um a caminho) em 2011, quando teve sua vida mostrada no documentário “90 dias com Catra”, de Rafael Mellin.

No ano passado, já com câncer, Mr. Catra se envolveu em mais uma polêmica, ao ameaçado pelo PCC (Primeiro Comando da Capital), depois de, durante um show em Manaus, ter exaltado integrantes da “Família do Norte”, nome de uma facção criminosa local, rival da paulista. Ele alegou ter se tratado de uma brincadeira com amigos da Região Norte.

“Quem vai dar esporros e falar pra ficar de olho no meus bens e carreira ?”, lamentou a colega de funk pornô Tati Quebra-Barraco. “Descansa em paz, negão”, escreveu Valesca Popozuda. “O céu ganhou mais uma estrela”, dedicou Nego do Borel. (J.P.)



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