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Fenômeno dos quadrinhos brasileiros, "O Doutrinador", anti-herói mascarado que caça corruptos, ganha filme, que promete ser fenômeno de bilheteria, e série de TV

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA *, Especial JB

Implacável e rápido no gatilho como o Justiceiro, bom de briga como o Demolidor e sombrio como o Batman, o Doutrinador - identidade secreta de um agente da Polícia Federal que declarou guerra particular aos corruptos - chega ao circuito exibidor no dia 1º de novembro, sob os auspícios e a ansiedade de uma legião de “quadrinhófilos” que fizeram de suas HQs um marco dos gibis autorais no Brasil.

E chega com fôlego para se tornar um dos maiores sucessos nacionais de bilheteria de 2018, repetindo no cinema o fenômeno que virou nos quadrinhos, ao oferecer ao público (incluindo os nerds de carteirinha) um vigilante mascarado armado até os dentes, com um padrão de ação, suspense e (anti-)heroísmo pra Marvel ou DC alguma botarem defeito – mesmo sem ter o orçamento monumental dos estúdios hollywoodianos. Seu diferencial é um temperinho de brasilidade: seu alvo são os políticos que põem o próprio bolso acima do bem-estar do povo.

Criado nas HQs pelo designer gráfico Luciano Cunha e celebrizado na internet a partir de 2013, no auge das manifestações daquele ano, o anti-herói (sob a máscara está Miguel Montesanti, um tira de elite inconformado com a falta de ética e o desrespeito à Lei) ganha não apenas um longa-metragem, da Paris-Downtown Filmes, mas também uma série de TV, para o canal a cabo Space, num projeto pilotado pelo cineasta Gustavo Bonafé e codirigido por Fábio Mendonça. O ator Kiko Pissolato é quem dará vida às ideias de Cunha, sob o uniforme do Doutrinador.

“Busquei construir um anti-herói no sentido denotativo mesmo da palavra. Um homem em desequilíbrio, cheio de defeitos, que decide enfrentar seu vazio colocando-se em uma missão suicida. É uma vingança pessoal, que acaba se tornando algo maior”, diz Luciano Cunha, que comemora o fato de a tiragem da versão impressa de “O Doutrinador”, da editora Redbox, estar esgotada, mas já com uma reimpressão à vista. “Acho que ele dribla convenções ao eleger alvos que quase nunca estão nas páginas dos comics americanos ou europeus. Costumo dizer que o Doutrinador não existiria na Dinamarca ou Noruega. Ele é genuinamente brasileiro, por simbolizar um grito de ‘CHEGA!’ em meio a tanta corrupção”.

Para transpor o Doutrinador para a telona e para a TV foi formada um esquadrão de roteiristas, incluindo o próprio Luciano e Gabriel Wainer (idealizadores do projeto), ao lado de Mirna Nogueira, L.G. Bayão, Rodrigo Lages, Guilherme Siman e Denis Nielsen. Neste momento em que comédias e filmes religiosos são o maior nicho de venda de ingresso no país, a chegada de um Cavaleiro das Trevas de DNA brasileiro pode abrir um novo e rentável filão na ficção. Não por acaso, a revista “Mundo dos Super-Heróis”, especializada no mercado pop, acaba de lançar uma edição especial toda dedicada à essa encarnação audiovisual do mascarado, que, com produção-executiva de Renata Rezende, traz ainda Marília Gabriela, Eduardo Moscovis, Helena Ranaldi, Natália Lage e Tuca Andrada em seu elenco.

“O cinema brasileiro atingiu, nos últimos anos, níveis muito altos de qualidade de som, imagem, efeitos especiais e produção em geral, tornando possível a criação de filmes de gênero como terror, policial, musical, etc. Ainda faltava o filão dos quadrinhos de ação, que tem um público enorme no país e que conta com artistas de muito talento”, diz Márcio Fraccaroli, sócio e CEO da Paris Filmes. “Agora, ‘O Doutrinador’ mostra que a reunião do audiovisual com as HQs também pode ser feita aqui e vai abrir caminho para a realização de projetos produzidos no Brasil cada vez mais empolgantes e de grande qualidade técnica”.

Na entrevista a seguir, o cineasta Gustavo Bonafé (que trabalhou nos longas “Legalize já” e “Chocante”) explica as escolhas estéticas que tomou para construir um diálogo entre o cinema nacional e a linguagem das HQs na direção das aventuras deste cruzado anticorruptos.

JB: O Doutrinador seria um super-herói ou um anti-herói e o que faz dele um signo de brasilidade no rol de mascarados do cinema?

Gustavo Bonafé: Ele é um anti-herói, que vive em um Brasil onde a esperança se foi. O que faz dele um signo de brasilidade é o fato de ele incorporar o desejo do povo brasileiro de libertar o governo da influência de políticos e empresários corruptos.

Qual é o maior desafio de se apostar numa linhagem nacional de filmes de super-heróis? Que referência arquetípicas nos faltam?

Nós não temos referências nacionais de super-heróis. Quando se fala em super-herói, a tendência é pensarem de imediato nos clássicos americanos. Então, o primeiro desafio é criar personagens que consigam ser identificados como heróis pelos brasileiros. Depois, acho que há um desafio em inseri-los na realidade brasileira sem perder o lúdico que faz parte do universo dos super-heróis. E isso muda de acordo com cada personagem. No nosso caso, optamos por criar uma cidade fictícia, um espaço lúdico, mas... brasileiro, para o Doutrinador existir.

Qual é o papel da corrupção no imaginário moral de O Doutrinador?

Acho que a corrupção hoje em dia representa o que temos de pior na nossa sociedade, o que as pessoas mais gostariam de mudar, pelo menos nos outros. Mas, quando o processo é autoavaliativo, acho que o buraco é mais embaixo. O filme fala disso também. O papel da corrupção no filme é o de ser a grande vilã.

Como foram realizadas as sequências de ação e qual a maior dificuldade em filmar a violência?

São cenas que dão mais trabalho e requerem muito ensaio, mas são as mais divertidas de fazer também. São muitas variáveis determinantes para o bom resultado, o que deixa o clima do set animado. Rola uma excitação coletiva divertida. A cena de ação precisa de uma variedade grande de planos e material para ter um bom ritmo. Nós filmamos sempre com duas câmeras, o que ajudou muito.

*Roteirista e crítico de cinema

Macaque in the trees
A HQ de Luciano Cunha é um sucesso (Foto: Divulgação)



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