Jornal do Brasil

Visto de Fora

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Miguel Paiva

Assim nasce a loucura

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Desde a minha infância que escuto dizer que o nível de desenvolvimento da Suécia não vale nada porque lá as pessoas se matam muito. Se suicidam, eu quis dizer. Na época, há muitos anos, eu ficava impressionado e acabava concordando com o argumento de que a nossa descontração, o nosso espírito alegre fazia a gente viver mais. Não vivíamos ainda essa era do crime organizado em todas as esferas. Morria-se menos, mas um sambinha, uma cerveja e uma caixa de fósforos não garantiam isso. A gente acreditava nessa história e pouco se sabia da verdadeira situação dos países nórdicos.

Macaque in the trees
Uma senhora, outro dia, que estava atrás de mim num sinal fechado, buzinava feito uma louca (Foto: Reprodução)

Não deve ser fácil viver naquele clima e talvez as pessoas não aguentem tanto frio e alguns se matem. Hoje, em tempos de imigração, gente que veio do tórrido Sul acaba tendo que viver no gélido Norte. Segundo estudiosos essa foi a verdadeira causa do surgimento da loucura na humanidade. Os povos que fugiam do calor infernal da África se encontraram com os povos que fugiam do inverno brutal dos países do Norte e desse confronto surgiu a loucura. Se encontraram ali pelo meio da Europa, onde viriam a nascer mais tarde Kafk a, Nietzsche, Freud e Marx. Ou seja, a loucada toda reunida para comprovar a teoria.

Hoje a loucura se espalhou, os suicídios proliferam em qualquer lugar e a felicidade, principalmente a de um povo, virou mercadoria rara, mesmo se contrabandeada. E vamos vivendo, acreditando na índole pacífica do povo brasileiro enquanto fazemos subir os números de assassinatos, de crimes sem solução e de violência social. Nos matamos uns aos outros como bebemos água. As pessoas na rua perderam a suavidade e para se chegar a um lugar onde se possa tomar uma cervejinha e ouvir um sambinha temos que atravessar o referente a várias faixas de Gaza, sem negociação de paz.

O prefeito sumiu junto com o piloto. Estamos sobrevivendo no limite, graças à tolerância espontânea de cada um. No trânsito vivemos mais explicitamente essa condição. As pessoas não aguentam mais parar no sinal vermelho, respeitar faixa de pedestre, dar a vez para quem tem a preferência. As regras (elas existem) são esquecidas e quem for mais esperto chega mais cedo. Estamos correndo por nada para chegarmos a lugar nenhum.

Uma senhora, outro dia, que estava atrás de mim num sinal fechado buzinava feito uma louca porque o carinha da frente entrou à esquerda, o que não é proibido, e com isso trancou a rua. Paciência. Fazer o quê? Buzinar feito ela não resolve. Pelo espelhinho retrovisor vi que estava quase apoplética. Fiz um sinal de calma e ela me respondeu com os dois dedos do meio apontados para a cima nas duas mãos. Gritava dentro do carro algo que não distingui, mas seu rosto me assustou. Será este o novo espírito carioca? Com esta índole pacífica morreremos na praia, no Oceano Atlântico. Perdemos a graça, a esperança, a compreensão e a razão. Sobrou a emoção, a indignação a esmo que é capaz de eleger um candidato que sonha com a volta da ditadura, dos militares, e da intolerância. E ai, a louca do volante vai poder mostrar os dois dedos?

Espero que o pessoal se acalme, vote direito para que a cervejinha, o sambinha e boa conversa continuem alimentando o espírito carioca e não dando lugar ao espírito de porco.



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