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Mercado quer fazer o terceiro turno

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O mercado financeiro apostava em Flávio Bolsonaro (PL), que prometia tesourar impostos e gastos obrigatórios e sociais. O choque faria a taxa Selic cair a 7% ao ano em 12 meses. O governo Lula se comprometeu com a manutenção dos programas sociais, a escala 5 x 2 e o transporte grátis no domingo de lazer, condicionando a queda dos juros reais, que hoje travam a economia e endividam famílias e empresas, ao ajuste gradual das contas públicas.

Contraditoriamente, enquanto acusava Lula de expandir em R$ 180 bilhões/R$ 250 bilhões e até R$ 400 bilhões (os números aumentavam a cada semana), o senador do PL prometia não só manter como ampliar os gastos dos programas sociais – numa conta que não fechava.

Contrariando os prognósticos do mercado, que apostou cegamente em Flávio Bolsonaro logo após a vitória parcial no primeiro turno, a ação da juventude sacudiu parte do eleitorado que se absteve de votar em 4 de outubro, e ajudou a mobilizar os avós para irem às urnas em 25 de outubro.

A abstenção diminuiu em 2,96 milhões de votos, os votos em branco encolheram 951 mil votos, e os votos nulos ficaram 870 menores. Isso soma 4,78 milhões de votos válidos a mais no segundo turno. Com a redivisão dos 9,32 milhões de votos dos demais candidatos no primeiro turno, Lula ganhou mais 10,4 milhões, e Flávio, 3,7 milhões, com diferença final de 4,430 milhões votos a mais para o presidente.

É interessante notar que, embora o Nordeste tenha garantido a maior vantagem de Lula, o presidente angariou mais votos que o senador em todas as regiões no segundo turno, e foi no Sudeste (maior colégio eleitoral do país) que houve o maior acréscimo de votos de Lula em 25 de outubro (4,8 milhões contra 1,9 milhão). No NE, Lula avançou 3 milhões contra 398 mil, e no Sul (trincheira bolsonarista), Lula conquistou mais 1,3 milhão, contra 867 mil.

Contas públicas atropeladas pelos juros

Por tudo isso, chega a ser uma aberração o comportamento do mercado financeiro e da Faria Lima, inconformados em perder com o candidato que não reconheceu a derrota e fugiu do país, de, além de amargar duplo prejuízo no câmbio e no mercado de ações, querer tutelar a orientação econômica do quarto governo Lula.

O presidente nunca foi negligente com as contas públicas. As projeções da Pesquisa Focus para o resultado primário (receitas menos despesas, sem contar os juros da dívida pública) apontam para déficit de 0,49% a 0,50% do PIB em 2026 e em -0,40% em 2027. O que está fora do lugar (desde que a invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022, atiçou a inflação dos combustíveis e pressionou os juros no mundo, situação que recrudesceu com a guerra do Golfo Pérsico este ano) são os altos juros reais.

Considerando os juros, o déficit nominal está entre 8,90% e 9,10% do PIB, segundo a Focus. Para 2027, a previsão é de déficit nominal de 8,50% do PIB. A ordem de grandeza dos juros reais, que travam o PIB e agravam o grau de endividamento, não se resolve pelo corte dos gastos, mas pela redução dos juros. O Itaú defende corte de 4 pontos no déficit. O que seria bem mais indolor, eficaz e consoante com a vontade popular, se vier da redução dos juros.

Flávio Bolsonaro disse que a Selic cairia a 7% em um ano e não foi contestado. Por que, então, o alvoroço do mercado – que reage aparentemente unido, nas páginas do "Valor Econômico", que só ouviu economistas na linha ortodoxa – à proposta para discussão do economista André Lara Resende, de criar um Conselho Fiscal e Monetário (no lugar do Conselho Monetário Nacional, que define as metas de inflação) para afinar a sintonia das políticas fiscal e monetária, e definir a trajetória para reduzir a Selic a 7,5%?

Para debelar eventuais repiques no câmbio – os indicadores macroeconômicos apontam para crescentes saldos da balança comercial e ingressos em investimento direto no país capaz de cobrir com folgas e aumento das reservas, os gastos com serviços e remessas de juros e dividendos –, Lara Resende propõe o uso das reservas para acalmar o mercado e não interromper a trajetória descente dos juros que tende a fazer girar a roda da economia e da renda, gerar maior PIB e reduzir os índices de endividamento/PIB.

Esse seria o caminho seguro para desindexar a economia. Mas isso contraria o mercado, que aproveita as guerras para apostar na maior inflação, nos juros e até o El Niño vira motivo para especulação.

Definitivamente, não é o rabo que abano o cachorro. Mas a grita do mercado pode levar o Copom, diante da turbulência atual, a manter a Selic em 13,75% ao ano na reunião de amanhã, quarta-feira.

Paraguai tem seu 'Master'

Por sinal, uma das ameaças que os bolsonaristas faziam em caso de vitória de Lula era uma mudança para o Paraguai. Mais próximo que Miami, e com baixos impostos, o país já atraiu muitas fábricas e produtores rurais. Mas riscos há em todo lugar (até de “hackers”), mas o mercado financeiro guarani acaba de entrar em séria crise com a liquidação do Ueno Bank, um dos maiores bancos digitais do país.

O detalhe é que ele chegou a ser presidido pelo presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, que renunciou após denúncias de compactuar com a crise de liquidez do banco.