Até onde choque do óleo afeta inflação global
Nos últimos anos, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom), em especial as diretorias de Política Monetária e Política Econômica do órgão que define a política de juros e procura administrar as expectativas dos agentes econômicos, sobretudo os gestores do mercado financeiro, foi dominado por economistas do Itaú.
No governo Bolsonaro, o diretor de Política Monetária (Dipom) era Bruno Serra (egresso do Itaú) e ganhou a companhia de Diogo Guillen, na diretoria de Política Econômica (Dipec). Com o fim do mandato de Bruno Serra, em março de 2023, foi substituído no governo Lula por Gabriel Galípolo.
O mandato de presidente de Roberto Campos Neto, só expirou em 31 de dezembro de 2024. Galípolo assumiu a presidência em janeiro de 2025 e a diretoria de Política Monetária foi ocupada por Nilton Davi, ex-diretor Tesoureiro do Bradesco. Já o mandato de Diogo Guillen expirou em dezembro de 2025, passando a Dipec ser acumulada pelo diretor da área Internacional, economista Paulo Pichetti.
Cumprida a quarentena de seis meses, Diogo Guillen chefia, desde julho, o departamento de Macroeconomia do Itaú, substituindo Mário Mesquita, que já foi diretor do BC. Assim, pode-se dizer que Bradesco e Itaú fazem contraponto à política monetária e nas previsões inflacionárias.
O Itaú está prevendo Selic de 12,50% em dezembro de 2027 e IPCA de 5,1% este ano (chegou a prever 5,6%) e de 4,4% em 2027; o Bradesco, está prevendo IPCA de 5,0% este ano e de 4,1% em 2027, quando a Selic cairia a 11%.
Por isso, transcrevo abaixo o interessante estudo da economista Myriã Bast, do Departamento de Estudos Econômicos do Bradesco sobre os impactos inflacionários do petróleo. Com o Brent cotado hoje a US$ 96,80 (+1,20%), há novas pressões no horizonte, além do El Niño.
“A alta dos preços de petróleo e derivados trouxe impacto relevante sobre a inflação global. Após a incorporação desse choque, vimos a inflação voltar a desacelerar na maior parte do mundo, como esperado em momentos de choque de oferta – nesse caso, a interrupção de parte do fluxo global de petróleo no Estreito de Ormuz”.
“Agora, com a segunda fase do conflito do Oriente Médio em andamento, os preços de petróleo e, principalmente, dos derivados, voltaram a subir, mantendo uma pressão altista sobre a inflação. Ao mesmo tempo, com El Niño presente, os preços das “commodities” agrícolas também estão em alta, contribuindo para um viés geral de alta no final do ano”.
“O repasse para os consumidores foi bastante rápido, com a maior parte dos países registrando pico entre março e maio. O canal direto de derivados de petróleo, gasolina, diesel e gás, explica esse repasse célere, que aconteceu mesmo com vários países adotando medidas para conter o efeito para o consumidor final. Dentro da cadeia produtiva, o repasse também é imediato nesses produtos e mais lento na cadeia de borracha e plásticos, por exemplo”.
“Ainda assim, vimos esse impacto em algumas aberturas ao produtor, inclusive no Brasil. O efeito sobre os núcleos é bem menor do que os impactos sobre o índice cheio. Esse comportamento é esperado, dada a natureza do choque e o tempo desde que ele ocorreu”.
“A contaminação dos núcleos, quando ocorre, é um processo mais longo, já que precisaria afetar também a formação de preços de produtos e serviços não ligados ao choque, geralmente via canal de salários e expectativas. Até agora, não se observa esse movimento na inflação global, de modo geral. De janeiro até o ponto de inflação mais alto, a inflação mediana desses países subiu 0,80 p.p, cedendo 0,35 p.p desde então. Para os núcleos, a alta foi de 0,10 p.p., com posterior devolução de 0,32 p.p”, diz a economista.
“Apesar de cada país ter sua própria dinâmica doméstica, esse padrão de descompressão dos núcleos pode indicar um efeito do ciclo econômico. Desde a pandemia, a inflação global enfrentou vários choques de preços sequenciais: falta de produtos, reabertura, conflito Rússia e Ucrânia, tarifas e, agora, a guerra no Oriente Médio”.
“Ainda que a economia global esteja crescendo próximo de 3% nesse ano, um ritmo saudável, nos anos anteriores houve crescimento bastante maior. Da lista de países analisada aqui, o crescimento dos desenvolvidos chegou a 3% em 2022 e deve chegar a 1,6% neste ano. Na América Latina, o crescimento saiu de 3,4% e deve atingir 1,2% neste ano. Assim, a capacidade de contaminação dos preços de forma mais ampla deveria ser menor nesse ambiente de menor crescimento geral – ainda que possam valer ressalvas específicas de cada país”, observa Myriã Bast.
“Apesar de cada país ter sua própria dinâmica doméstica, esse padrão de descompressão dos núcleos pode indicar um efeito do ciclo econômico. Desde a pandemia, a inflação global enfrentou vários choques de preços sequenciais: falta de produtos, reabertura, conflito Rússia e Ucrânia, tarifas e, agora, a guerra no Oriente Médio”.
“Ainda que a economia global esteja crescendo próximo de 3% nesse ano, um ritmo saudável, nos anos anteriores houve crescimento bastante maior. Da lista de países analisada aqui, o crescimento dos desenvolvidos chegou a 3% em 2022 e deve chegar a 1,6% neste ano. Na América Latina, o crescimento saiu de 3,4% e deve atingir 1,2% neste ano. Assim, a capacidade de contaminação dos preços de forma mais ampla deveria ser menor nesse ambiente de menor crescimento geral – ainda que possam valer ressalvas especificas de cada país”, assinala Myriã Bast.
[aqui faço um parêntese para lembrar que acirrado o processo eleitoral (encerrado na Colômbia com vitória da direita Abelardo de La Espriella, por cerca de 250 mil votos, ou menos de um por cento), quanto no Brasil, onde as pesquisas apontam empate técnico, com ligeira vantagem para o presidente Lula, influem no cenário inflacionário, alimentando especulações de toda a ordem].
E efeito do El Ninõ: +0,4 p.p.
“Até o final do ano, no entanto, o fator global deve voltar a acelerar. Com a presença do El Niño e seus efeitos sobre safras globais, os preços agrícolas já estão em alta nas últimas semanas. Ainda há elevada incerteza sobre o impacto final na safra dos EUA e da América do Sul, o que pode mudar bastante o quadro global de preços”.
“É importante notar”, diz, “que esse El Niño vai impactar safras que foram planejadas durante período de preços de fertilizantes bastante elevados por conta do conflito no Oriente Médio e com restrição de exportações de diversos produtores. Assim, a produtividade das safras já estaria sob observação, o que fica ainda mais crítico com um evento climático de intensidade forte ou muito forte”.
“Para os países desenvolvidos, o impacto da alta de agrícolas é muito mais limitado sobre a inflação e, ainda mais, sobre núcleos. No caso de emergentes, esse impacto é mais relevante. Em nossas estimativas, Chile e Colômbia podem ter um pico de impacto próximo de 1 p.p na inflação cheia a cada +1 grau no indicador de temperatura do oceano Pacífico. O efeito sobre México é bastante menor, abaixo de +0,5 p.p. e, no Brasil, estimamos impacto de + 0,4 p.p”.
Desaceleração da economia
“Nossa expectativa é que a economia global seguirá perdendo força, mas gradualmente. Essa dinâmica tem potencial para evitar uma persistência maior da inflação global em alta, após incorporação dos choques”.
“No caso do Brasil, a leitura não é diferente do contexto global. Houve impacto importante dos preços de combustíveis em alta na inflação do segundo trimestre. Desde então, o comportamento da inflação não sugere efeitos de segunda ordem relevantes. Mesmo na inflação ao produtor, a cadeia de petróleo registrou alta, mas sem persistência e sem chegar aos produtos finais”.
“Esse comportamento chama atenção, dado que as expectativas de inflação estão desancoradas, o que poderia dar espaço para contaminação da inflação de núcleos após o choque, o que não aconteceu. Aqui, temos visto sinais de moderação do crescimento mais claros, respondendo ao ciclo de aperto monetário. Sem a economia aquecida e sem variação relevante do câmbio, após a incorporação do choque, vemos a dissipação do efeito, inclusive com núcleos desacelerando. Com novo choque de alimentos no final do ano, esperamos comportamento semelhante”, conclui Myriã.