Vorcaro achou que estava tudo dominado; SQN
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A divulgação das extrações de conversas feitas pela Polícia Federal nos celulares de Daniel Vorcano, dono do Banco Master, autorizadas pelo relator do Caso Master no Supremo Tribunal Federal, ministro André Mendonça, mostra que o ex-banqueiro, atualmente preso, tentou aliciar parte da cúpula do Poder em Brasília. Entre os quais estavam três ministros do STF: Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e André Mendonça.
O caso Vorcaro é pano de fundo para algo maior, que influi na campanha eleitoral de 2026: as relações perigosas da Corte de Brasília com os métodos de “gangster” de Vorcaro. Seria o remake do duelo em “Ok Corral”, em Tombstone, Arizona, em 1881. Com balas perdidas para todos os lados. Com as pesquisas dando empate técnico entre Lula (42%) e Flávio Bolsonaro (41%) no segundo turno.
O ex-banqueiro tanto contratou o escritório da mulher de Moraes, relator do processo que levou à condenação de Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão, quanto deu ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) R$ 61 milhões dos R$ 134 milhões negociados por Flávio para o filme “Dark horse”, cinebiografia do pai. Os repasses de Vorcaro foram mal explicados pelo presidenciável e a produtora Go Up da obra.
Na verdade, os valores teriam chegado a R$ 69 milhões até maio de 2025, com a parcela extra de US$ 1,6 bilhão/R$ 8,5 milhões liberada em setembro de 2025, uma semana após as cobranças do senador a Vorcaro, segundo “print” da transferência publicado pela revista “Piauí”. Em maio deste ano, Flávio Bolsonaro, depois de áudios provarem que conhecia Vorcaro, admitindo as conversas entre ambos, havia dito que os repasses se encerraram em maio de 2025.
À parte a sede de vingança dos bolsonaristas que ameaçam com pedido de “impeachment” de Alexandre de Moraes, no Senado, eventualmente trocada pelo atraso da apresentação da proposta de redução da escala 6 X 1 após o primeiro turno, há muito a ser esclarecido pelas figuras envolvidas nas tramas de Vorcaro, que pode balear a democracia. A transparência é fundamental para sedimentar as convicções dos votantes em 4 e 25 de outubro.
O método Vorcaro
Vorcaro comprou o Banco Máxima em 2018, mas só foi autorizado a operar a nova marca, em 2019, pelo Banco Central, na gestão de Roberto Campos Neto, no governo Bolsonaro. Com a chancela do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) a aplicações até R$ 250 mil, aproveitou que a Selic caiu a 2% ao ano, na pandemia de 2020 para captar recursos pagando juros maiores que os do mercado.
Os recursos eram aplicados em investimentos de alto risco e pouca liquidez (incluindo fundos geridos pela Reag - liquidada pelo BC – e precatórios judiciais), mas que podiam garantir altos retornos. Sobretudo após aumentarem os deságios dos créditos negociados, depois que o governo Bolsonaro decretou o calote nos precatórios, em 2021. Enquanto dobrava o capital e lucros do Master, ia aliciando de políticos a altos dirigentes do Banco Central.
Quando houve a escalada dos juros em agosto de 2023, já no governo Lula, Vorcaro buscou ajuda de políticos do União, PDS, MDB e PP. O presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI) propôs, em 2024, emenda para elevar o teto do FGC a R$ 1 milhão. Não passou no Senado, por pressão dos grandes bancos, maiores contribuintes do FGC (onde deixou um rombo de R$ 50 bilhões).
Vorcaro buscou que fundos de pensão de governos e prefeituras de aliados políticos fossem comprar volumes de papéis do Master (acima do teto do FGC), atraídos por altos juros e comissões. Em setembro de 2024 tentou vender R$ 500 milhões em papéis do Master à Caixa Econômica Federal, com recusa de gestores do fundo da CEF.
Juros na Lua e ‘astronaustas’
No propósito de conquistar simpatia e influenciar pessoas, o dono do Master passou a patrocinar, no exterior, seminários sobre economia, em parceria com os jornais do grupo Globo (“Valor Econômico” e “O Globo)”. O passo seguinte foi usar uma teia de advogados para se aproximar de figuras chaves dos altos tribunais de Brasília, incluindo o patrocínio de seminários internacionais sobre direito, pretexto para convidar membros do STF, Superior Tribunal de Justiça, TCU, da PGR e Ministério Público Federal (e dos estados).
Entre os “plus” para influenciar pessoas estavam a degustação de charutos e do renomado “whisky” escocês, “Macallan”. Em círculos fechados, havia a presença de modelos louríssimas do Leste europeu, que não falavam português, “vestidas” de astronautas (só com o capacete).
Ao final de 2024, quando venceram os mandatos de Campos Neto e do diretor de Fiscalização, Paulo Sérgio Neves de Souza, acusado de atuar a soldo do Master, o mercado financeiro falava abertamente das agruras do banco de Daniel Vorcaro. Com balanço ruim em 2024 e sem apresentar balanço no primeiro trimestre de 2025, em maio daquele ano, foi anunciada uma negociação com o Banco Regional de Brasília (BRB), do governo do Distrito Federal, então nas mãos do advogado Ibaneis Rocha (MDB-DF).
A operação não passou pelo crivo do diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do Banco Central Renato Dias de Brito Gomes. Na análise dos ativos do Master, a fiscalização do BC encontrou mais de R$ 11 bilhões em papéis podres, cujo valor de mercado era bem inferior ao valor de face declarado no balancete do Master.
A compra foi vetada em setembro. O BC vetou ainda a suposta operação do Master com o grupo Fictor, anunciada em 17 de novembro de 2025 e decretou a liquidação do conglomerado Master em 18 de novembro de 2025, quando a Polícia Federal efetuou a primeira prisão de Vorcaro, no aeroporto de Guarulhos, ao tentar embarcar em seu jatinho para Malta, paraíso fiscal no Mediterrâneo, escala de uma viagem com destino a Dubai, onde negociaria com um fundo dos Emirados Árabes Unidos uma associação ao Master.
Os fatos mostraram que o Banco Central estava certo. Além do grupo Master, uma dúzia de instituições financeiras que giravam nas órbitas do banco de Vorcaro e da Reag, e do conglomerado do Fictor entrou em liquidação ou recuperação judicial. E o BRB ainda não fechou o balanço do segundo trimestre e tenta capitalização para cobrir rombo de mais de R$ 5 bilhões causado pelo Master.
O modo Vorcaro de ser
A queda de braços no STF, cujo desfecho o presidente Edson Fachin, anunciou para a próxima semana, ganhou mais carga explosiva com a denúncia do site ICL, de que Vorcaro usou sua teia de advogados para se aproximar de Mendonça, no começo de 2025. Vorcaro tinha apostado em precatórios de duas usinas de açúcar em São Paulo, mas André Mendonça, pediu vistas na hora de votar, frustrando os planos de Vorcaro de obter liquidez com os papéis.
O banqueiro, que já tinha feito negócios com Dias Toffoli e irmãos no Resort Tayayá, no Paraná, e contratado, desde janeiro de 2024, o escritório Barci de Moraes, comandada pela mulher do ministro Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, usou os serviços do advogado baiano, Ciro Soares, que já prestara serviços ao Master, para se aproximar do ministro.
Nomeado em 2021 por Jair Bolsonaro, o ministro André Mendonça, “tremendamente evangélico”, embora tenha sido chefe da AGU e ministro da Justiça de Bolsonaro, antes de ser aprovado pelo Senado, usava ternos simples e tradicionais no Supremo. Para bajular a vaidade de Mendonça, Ciro Soares se prestou a apresentar o ministro do STF a “Vasco”, um alfaiate famoso na alta roda.
Mendonça nega ter recebido terno de presente. Apesar das costuras de Soares, a vontade de Vorcaro teria sido contrariada, pois André Mendonça acabou votando contra o pleito do Master.