Mercado perde aposta: IPCA-15 cai 0,40%

...

Por

O IPCA-15 de agosto teve deflação de 0,40%, abaixo dos -0,32% esperados pela média do mercado (o Bradesco previa -0,35%). Em 12 meses, a alta do IPCA-15 caiu a 4,24%, ante 4,5% em julho. O mercado esperava -0,20% para o IPCA cheio, a ser divulgado em 11 de setembro.

A deflação pode aumentar, mostrando o erro do mercado financeiro, que apostou em escalada da inflação e dos juros. O governo anulou impacto da guerra, maximizado pelo mercado, que imaginava alta da Selic de 15% para 16% (ela está em 14% e deve cair para 13,75% em 16 de setembro). Outra aposta era uma alta de alimentos devido ao El Niño.

El Niño ainda não afetou alimentos
A prévia do índice de agosto foi influenciada pela queda de 1,41% em Habitação, com impacto negativo de -0,22 pontos percentuais no IPCA-15, do bônus de Itaipu (-6,5% em energia elétrica, ou –0,26 p.p.). O item Transporte (-1,00%), baixou o IPCA-15 em 0,20 p.p., sendo passagem aérea (-13,30%, ou -0,12 p.p.) e combustíveis (-1,43%). A queda de 1,23% na gasolina reduziu em 0,06 p.p. o IPCA-15.

Houve ainda baixa em Alimentação e Bebidas (-0,57% ou -0,12 p.p.), sendo -0,97% em Alimentação em domicílio. Vale notar que a alta de alimentos deste ano, revertida nos dois primeiros meses do segundo semestre, nada tem a ver com o El Niño. Impactos são esperados de setembro em diante e afetariam as safras de grãos em 2027 (menos a soja).

O que subiu este ano foram os hortifrutigranjeiros, que já caíram em julho e agora no IPCA-15: o tomate teve baixa de 27,38% (-0,08 p.p.), o preço da batata inglesa recuou 25,14% (-0,06 p.p.), a cenoura baixou 17,05% (-0,02 p.p.). O café moído, vilão de 2025, devido à quebra de safra do Vietnã (2º produtor mundial), segue em baixa (-2,31%, ou -0,01 p.p.), com ótimas produções para Brasil e Vietnã.

Decompondo-se a inflação, vê-se que os fatores de baixa predominam sobre os de alta, sendo estes influenciados pelo mecanismo da indexação expressa nos reajustes anuais. O reajuste dos cigarros (5,56% desde 1º de agosto) impactou em 0,03 p.p. o IPCA-15.

Em Educação, que subiu 0,46% em agosto, houve impacto dos reajustes nos cursos regulares (0,52%) e dos cursos diversos (0,36%), puxada pela alta de 0,92% nos cursos de idiomas. No grupo Saúde e cuidados pessoais (0,40% e impacto de 0,02 p.p.), artigos de higiene pessoal subiram 0,47% e a alta de 0,42% em plano de saúde reflete a incorporação do reajuste anual autorizado pela ANS.

A visão do Bradesco
“O IPCA-15 teve queda de 0,40%, ante nossa expectativa de -0,35% e a mediana do mercado de -0,32%. O foco da surpresa veio das passagens aéreas; a tarifa de energia elétrica recuou menos do que o esperado. A variação de 12 meses cedeu para 4,24% ante 4,5% em julho. Os serviços surpreenderam no mês e seguem em desaceleração, com alta de 5,5% em 12 meses (5,95% em julho). No ano, o pico do grupo foi em junho, com 6,25%. Os serviços subjacentes continuam desacelerando: alta de 5% em 12 meses e 4,6% nos últimos três meses anualizados”.

“A alimentação no domicílio teve alta em 12 meses de 2,7%, ante 2,6% no mês anterior. No curto prazo, esperamos ligeiro alívio nesse grupo, em razão dos produtos “in natura”, que vêm mostrando variações mais baixas nas coletas. Por outro lado, o El Niño deverá exercer pressão de alta sobre o grupo no fim do ano e no início de 2027. Por isso, “incorporamos 2% à projeção de alimentos para 2027”

A visão do Itaú, que previa -0,32%
“Destacamos surpresas baixistas em alimentação no domicílio e despesas pessoais. O item energia elétrica residencial veio acima das expectativas. Em relação aos núcleos, serviços subjacentes vieram em linha com as expectativas, enquanto industriais subjacentes vieram acima das expectativas, puxados por vestuário”.

“Os itens que repetem a variação do IPCA-15 para o IPCA fechado do mês (passagem aérea, cursos, aluguel e condomínio, mão de obra, empregado doméstico, entre outros) vieram 5 bps abaixo da projeção do Itaú”.

“Na média móvel de três meses, com dados dessazonalizados e anualizados, serviços subjacentes desaceleraram de 4,8% para 4,6%, enquanto o núcleo de industriais subjacentes desacelerou de 5,2% para 3,6% e a média dos núcleos desacelerou de 4,4% para 3,7%”.

“Apesar da surpresa baixista no “headline”, o banco diz que o “qualitativo veio próximo do esperado, com serviços subjacentes em linha e industriais subjacentes um pouco mais fortes”, e mantém a previsão de 5,1% do IPCA 2026.